São duas da tarde. Depois de um almoço em família recolho-me na biblioteca para concluir a leitura do livro Estômago, de Santigo Segundo publicado pela editora Kazuá. Nenhum desconforto gástrico me atormenta, nenhuma sensação de queimação estomacal ou refluxo, apenas a ânsia de concluir a leitura. Naturalmente todos que leem o livro querem ver chegar o final da narrativa para entender a série de paroxismos que o autor constrói.
Em Estômago, a falta de um órgão é suprida pela capacidade narrativa do autor, que lança mão de uma abordagem estética desafiadora e, apesar de não ser apresentada em sua total completitude; nos serve de ferramenta para ultrapassar as barreiras da permanência e do tempo. Sobre o tempo, é preciso dizer que em qualquer atividade ele nos é irrecuperável, mas usá-lo para decifrar a inquietante narrativa experimental de Santiago Segundo é uma maneira de oferecer-lhe importância e valor relativo.
Depois de ler Estômago, saímos vitoriosos. O assombro é palpável e por vezes cede espaço para o estranhamento. Talvez por isso o livro se torne uma obra incomum durante todo o período de leitura, onde o leitor e o eu lírico passam boa parte do tempo tendo consciência de dois sentimentos, um permitido, real e ético; e outro vedado, também real, mas socialmente inaceitável. Porém, apenas o segundo é que nos desperta uma reação (e uma relação) íntima com o texto: o questionamento do artifício pelo método.
A acidez da obra consiste na informalidade da linguagem e narrativa em primeira pessoa, onde falas e pensamentos se confundem por entre as demais sentenças do texto e parecem renascer de maneira sólida em cada descobrimento psicológico de seus personagens, na completa ignorância dos gestos, das reflexões e das coisas. A falta de transparência entre uma abordagem e outra, a quebra temporal da construção narrativa e até mesmo a caracterização não caricata das relações humanas é o que dinamiza a obra e auxilia o leitor a digerir, fragmento por fragmento, as ideias e questionamento que autor quer fazer notar.
Pedro Mirilli realiza com engenho uma mixagem entre as palavras fortes e o tom marcante do texto com uma composição de ilustrações acerca do nu, que nos servem de metatrechos bem ensaiados de tensão, clímax e resolução da história. Em Estômago os pequenos desconfortos gástricos vão coexistindo com as múltiplas interpretações ficcionais da obra.
Penso que uma resenha crítica não é a melhor forma para avaliar a obra de Santiago Segundo. Seria melhor algum tipo de encenação visual, uma adaptação do texto ao teatro, por exemplo, uma vez que Estômago constantemente reencena e dramatiza aos olhos atentos uma luta contra as questões pessoais de seus personagens, ao passo que nos faz declinar sobre as nossas próprias escolhas e refletir sobre o papel que desempenhamos em nossas vidas e na coletividade.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “Sobre estômago, azia e má digestão, por Souza Pereira

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