Lucinda Riley é irlandesa, radicada em Londres; além de escritora, foi atriz de teatro e televisão; suas obras foram traduzidas em trinta e dois idiomas. Em 2017, lança a obra titulada “arvore dos anjos”, traduzida em trinta e quatro línguas. Apresenta a história épica de uma jovem inglesa, Greta, vivendo no meio artístico de Londres, em 1945, período pós-guerra.
A obra foi dividida em oito capítulos e cinquenta e seis capítulos seções. Na obra, a autora faz retrospectivas entre um capítulo e outro, nos quais relata, em uma espécie de drama e suspense, toda trajetória de vida de Greta; uma jovem que saíra cedo de casa, trabalhava em um teatro, se envolveu com um soldado norte americano que estava de passagem pela cidade, acabou grávida e desamparada.
O prólogo inicial “Véspera de Natal, 1985, Solar Marchmont, Monmouthshire, país de Gales”- é cheio de suspense e personagens enigmáticos; relata o início do desvendar da memória de Greta ao voltar para o lugar onde vivera muitas experiências. Já de início, apresenta várias personagens: a neta de vinte e três anos, Ava, gestante de oito meses, e Simon, seu marido; Mary, a empregada, e a namorada de “David” coprotagonista da história. Em um acidente, Greta fica em coma e perde sua memória por vinte e cinco anos; não lembrava nem dos gêmeos que tivera na juventude.
O segundo capítulo “Greta, Londres, outubro de 1945”, introduz a vida de Greta. Fala da época em que trabalhou no teatro Windmill, em Londres, da relação com todos de lá, especialmente David, seu colega. Relata a infortuna paixão por Max, pai de seus filhos e de como acabou se casando com Owen, tio do David, um solteiro de cinquenta anos, sobrevivente da guerra. Greta teve os gêmeos: Jony e Cheska, com problemas de saúde; Jony faleceu após completar três anos, Cheska, aos três anos, se tornou uma estrela do cinema ao interpretar o papel de filha da atriz Shirley Temple em seu primeiro filme.
O terceiro capítulo retoma a tarde de natal, no qual Greta havia emergido em suas lembranças em frente ao túmulo de Jony. O capítulo inteiro enreda a narrativa do amigo David ao lhe ajudar a preencher as lacunas de sua memória, a respeito da vida da amiga de longa data.
Uma parte importante e bastante trabalhada na obra é sobre a filha de Greta, capítulo intitulado “Cheska, Londres, junho de 1956”. Constrói a imagem de boa menina, doce e angelical, e que ao mesmo tempo era uma criança doente e transtornada por traumas antigos.
A menina nunca havia tido uma vida comum; com apenas dez anos, ela já era muito famosa e rica, estudava em casa e não brincava com outras crianças; seu tempo era inteiramente consumido por compromissos e trabalho. Introduz a transição e mudanças que a menina sofreu na puberdade, aos quinze anos, ela conhece o astro da música Bobby Cross, por quem se apaixona e engravida. Relata o cenário que enredou o acidente de Greta, que a deixou em coma por dezoito meses, e Cheska em uma clínica psiquiátrica até o nascimento da filha Ava. A autora apresenta uma nova versão da personagem Cheska, uma jovem bonita, talentosa, vingativa e ambiciosa, que abandonou a filha recém-nascida e foi embora para os EUA trabalhar com o Carousel Picture, o que lhe trouxe muita fama e dinheiro.
Nesse mesmo capítulo, a autora desvela a tragédia de vida do marido enfermo de Greta, um combatente de guerra cuja alma e corpo haviam sidos feridos; Owen vivia o rancor da paixão por Laura-Jane, mãe de Davis, que tivera na juventude. Relata os desencontros entre os dois e como isso o afetou até seu último dia de vida. Ao perceber que ia morrer, Owen contou em cartas todas as suas angústias, dividiu seus bens entre os antes queridos: Laura-Jane, Greta, Cheska, David e alguns funcionários. Nesta parte da história, a autora trabalha a questão dos sentimentos e ressentimentos, dos encontros e desencontros do amor. Entre meio à essas histórias, trabalha o desenvolvimento de Chescka quando menina, seus medos, fobias, traumas e doenças não tratadas, nem curadas, assim como o medo da mãe de que a filha fosse rotulada de louca ou algo parecido caso as mídias viessem a descobrir.
O quinto capítulo retoma a data de “Dezembro de 1985, Solar Marchmont, Monmouthshire, país de Gales”, no qual David termina de narrar a história de vida de Greta, ajudando a amiga a recordar suas lembranças. Nesse capítulo, o foco é Greta, Ava, David e sua namorada Thor. Ao entrelaçar as personagens, que em partes ainda não faziam nexo na história, a autora faz as ligações entre o cenário principal e secundário de cada capítulo.
“Ava, abril de 1980” é o sexto capítulo, também bastante trabalhado pela autora. Discorre sobre a vida de Ava, que aos dezoito anos almejava cursar a faculdade de medicina veterinária. Relata as festividades dos oitenta e cinco anos de Laura-Jane, no qual Ava conhece Simon, neto de um amigo de LJ. Retoma a personagem Cheska, relata a tragédia a que a vida da moça havia se tornado, falida e desmoralizada artisticamente pelos escândalos e promiscuidade que vivia. Descreve a figura protetora de David, sempre cuidando de Cheska e Greta; visitava as moças sempre que podia. O capítulo começa a desenrolar uma nova trama quando David encontra Cheska transtornada e à beira do suicídio, ao mesmo tempo em que explora a imagem do homem que buscou a vida inteira o amor de Greta; durante a longa espera namorou Tor, uma figura inteligente e aventureira; aventuraram-se nas trilhas do Himalaia, em uma viagem de três meses. Cruza as histórias com o retorno de Cheska a Gales duas semanas depois da festa de LJ. Retomando a imagem psicopática da moça, ao interpretar a imagem da mãe arrependida que quer corrigir os erros com a filha, presenteando a moça e agradando a todos com seu jeito meigo de ser, mas relata os motivos do oportuno regresso, a herança que havia recebido quando era criança e que havia ficado sob tutela de Laura-Jane. Como Cheska abandonou a filha com Laura-Jane, sua herança foi judicialmente passada para a menina; enfurecida, desencadeia uma séria de desastres, causa um derrame em Laura-Jame, assume as finanças da fazenda e, por vingança, ateia fogo na casa; assume a imagem de mãe arrependida para voltar a ter acesso ao meio artístico Britânico e gasta parte da herança, que foi destinada aos estudos de Ava, em compras, festas e custos da suíte do hotel Savoy, o mais caro de Londres.
Nesse momento, a trama começa a se desenrolar e a psicose de Cheska começa a aparecer; confunde o namorado Simon de Ava com o velho amor da adolescência, Bobby Cross; tudo vem à tona novamente, a obsessão, rancor, desejo e manipulação; pela primeira vez, a autora apresenta todas as facetas da personagem Cheska juntas; é o ápice da história. Apresenta a imagem da mulher bonita, talentosa, mas que era completamente transtornada, desiquilibrada, ao exibir uma série de ações cometidas pela moça. Começa pela internação de Laura-Jane, debilitada em uma casa de idosos clandestina. Atenta contra a própria filha Ava, empurrando-a à frente dos carros em uma noite nebulosa, como o ocorrido com Greta anos antes. Ataca violentamente o jovem Simon no teatro West End, pois o confundia com Bobby, atacado anos antes por Cheska no mesmo local. Demonstra o quanto a personagem era perturbada. Nessa parte, retoma a figura forte, paternal e equilibrada de David, ao regressar às pressas de suas férias para resolver a situação. David encontra Laura-Jane, salva Simon, protege Ava e interna Cheska no hospital Southwark, e depois em uma clínica psiquiátrica na Suíça.
No último capítulo, desenrola-se toda história; a autora faz ligação com o primeiro “Dezembro de 1985, Solar Marchmont, Monmouthshire, país de Gales”, retorna à noite de natal, quando David fala para Greta sobre as consequências dos atos de Cheska, sobre a personalidade bipolar transtornada da menina que se tornou mulher e ninguém havia percebido, por saber esconder bem os sentimentos. Um dia depois de Greta retomar as lembranças e ouvir a versão de David sobre sua história, recebe a ligação da clínica onde Cheska estava hospitalizada e à beira da morte, por complicações da pneumonia que teve. Greta viaja para passar as últimas horas com a filha; ao retornar, decide seguir a vida, se aproxima da neta e, por fim, descobre que amou David a vida toda; com o término do noivado dele com Tor, decide contar a ele que, na noite de seu acidente, iria revelar que sempre fora apaixonada por ele, só não havia se dado conta. Então os dois decidem ficar juntos; Greta vai morar com a neta para ajudar a cuidar dos gêmeos que Ava teve, Jonathan e Laura. Por fim, uma nota da autora explica que o livro foi reescrito, em nova versão de “Não exatamente um anjo”.
A obra norteia um cenário pós-guerra, cheio de moral, costumes e regionalismo; a figura da mulher em busca do sustento de seus filhos órfãos de pai; o cenário dos resquícios traumáticos da guerra, em que várias personagens protagonizaram. A preocupação com a imagem social. Da busca pela felicidade e realização financeira em tempos ruins, entre outras questões abordadas.
Fato interessante da obra é que várias informações citadas como: perfume “Leichner” usado por Greta, a estação Abergavenny e a Paddington, o teatro Windmill, o senhor Van Damm, dono do Windmill, Shirley Temple, o hotel Savoy, Carousel Picture, hospital Maudsley em Southwark, realmente existiram, nem tudo é ficção. Diria que é uma boa trama e suspense. A autora sempre deixa um mistério no ar, desvendado apenas em capítulos adiante, o leitor precisa retomar suas lembranças e relacionar as novas informações. O diálogo de Greta e David conduz a história cheia de personagens, alguns mais presentes, outros com vaga menção. O diálogo são relatos, contados minuciosamente, que prende o leitor ávido por novas descobertas.


Juliana Fachin (Brasil, 1983). Bibliotecária e escritora por diversão. Escreve sobre Fluxo de Informação, Publicação e Comunicação Científica, Ciência da Informação.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.

2 respostas para ‘Anjos perdidos, por Juliana Fachin

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