Que é o mundo, senão fachada?
O rapaz tocava algo lindo no piano. Demasiado lindo. Tão denso que quase chorei. Junto às árvores e ao belo dia lá fora, a música corrompia o barulho da cidade. Confesso que chorei, fazia tempo que uma bobagem tão cotidiana e séria não me tocava tão fundo. Faltava meia hora pro meu ônibus partir, mas juro que passaria a eternidade nesse outro mundo.
O mesmo rapaz pianista, outrora, bem poderia estar na rua, com sua pele escura, observado por seguranças de lojas; outrora, poderia ser parado na rua e confundido com bandido. Bandida é a nossa ante paixão ao outro. Arre! Não sei expressar em palavras aquilo que só meus olhos e ouvidos poderiam falar por mim.
Há coisas, no entanto, expressáveis somente pelas notas que coincidem com o ritmo leve do coração de cada um, de forma única. Há mistérios entre as notas e os hemisférios paralelos dos ouvidos, até que atinjam aquilo que poucos artistas atingem: o paralelo dos hemisférios verticais entre a razão cefálica e a emoção do músculo drenatório do sangue. Há um mistério largo: quanto do seu corpo conclui e quanto intui. Que notas, que Dós-Rés-Mis, quantos são o suficiente pra furar a carapaça da pele e das aparências. Arre, é um desabafo sobre como homens se preocupam com as aparas dos bigodes e as mulheres tingem os cabelos cor gema-de-ovo. Gravatas e paletós e vestidos; eis a casca branca do ovo da qual se arroupa uniformemente. E seguimos esquecendo as aparas das notas soltas, das inúmeras formas e cores de cascas e vozes e gritos soltos no mundo; como propunha Amadeus Mozart, das infinitas tessituras coloridas capazes de tingir de gema-de-ovo os bigodes das cortinas que cobrem nossa ínfima visão. Uniformidade, sangue azul, tradição, ordem e progresso; eis as bobagens do século.
Interpelei: “Ó irmão, aquele chapéu é pra te ajudar?” Com um sorriso simpático disse que sim. Parabenizei-o. Senti-me pequeno perto dele, tão pequeno quanto uma centopeia perdida na imensidão do banheiro; tão pequeno quanto um peixe no cardume do tártaro oceano; tão pequeno quanto uma nota solta nos satélites da subjetividade humana.
Uma buzina soa ao fundo, o jornalista, pusilânime, pensou ser instrumento de preto; ledo engano: o preto inventou o afoxé, agogô, berimbau, atabaque, cuíca, gaita, ganzá, reco-reco e outros 500. Mas a buzina não. Depois desse comentário, fiquei perplexo, com dúvida sobre em qual século resido. Doravante, o preto reinventou o piano.
Mãos, mãos, mãos, mãos… muitas mãos em uma só, ao mesmo tempo que interpreta Bach ou Beethoven, suas mãos carregadas de ancestralidade anímica do sangue que flui sua raiz negra, ao mesmo modo que se torna o ventríloquo mais fiel dos gênios da música. Tocava em terceira pessoa, não, em primeira. Nunca vira arte em primeira pessoa tão bem executada diante dos meus marejados e petrificados olhos… Quantas e quantas mãos são necessárias pra se fazer um piano existir no espaço psicofísico ou na consciência psicogenética artística.
Lancei mão de cinco conto por esse conto que vos recito. Por fim, daqueles dedos que fazem música, daquelas mãos que dão estofo à arte, não apertei uma mão de carne e ossos, não, não pense isso. Apertei o talento, balancei a cabeça umas três vezes, olhei nos olhos do rapaz, clamei bem baixinho comigo mesmo para um dia ser também artista; e fui-me embora.


Lucas Apotiguara (São Paulo, 1993). Sociólogo em formação, poeta, cronista, ensaísta e ator. Publicou recentemente o seu livro de poemas, Tempo perdido, pela editora Kazuá. Na Philos, participou como artista convidado da Latinité Tournée em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “Carapaça das fachadas, por Lucas Apotiguara

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