“Foi nesse dia que nasceu o nosso herói.  O pai lhe deu o nome Pantagruel porque, em grego, Panta quer dizer todo e Gruel significa sedento em língua agarena.  Pretendeu Gargantua que estando o mundo a morrer de sede, seu filho estava fadado para ser o dominador-mor dos sequiosos. “Maravilha das maravilhas, não haveria pelo mundo pimpolho mais rechonchudo. Uma das comadres pronunciou em tom profético, depois de lhe ter bem remirado a moleirinha: -O anjinho nasceu com cabelo!… É sinal de que há-de obrar grandes e prodigiosas coisas!”

Pantagruel, Rabelais, versão portuguesa por Jorge Reis.

Sobre um banco de três pernas, está Jose de la Luz Maldonado.  Homem de terno escovado.  Com a distinção de um trapaceiro frio como um pepino. Raspa a lápis o dinheiro miúdo recebido par excellence.  Os cãezinhos Zamor das ruas sinuosas roçam em suas pernas e lambem as galochas russas que aquecem os pés embrulhados em pares duplos de meias, meias de lã sobrepostas a meias de compressão.  O inchamento das pernas evitando-se.  Por cinco décadas, Jose de la Luz empregou-se no circo onde um crocodilo o engolia pelas mandíbulas para, ato contínuo, expelir a cabeça humana e depois o resto, de espetáculo em espetáculo.  Quando a lona caiu, o sujeito logrou em sublocar o camarote de engraxate de número cento e oitenta e três na praça Alfred Jarry.
Naquele camarote, Jose de la Luz se escondia detrás do cortinado durante a sesta que perdurava noite e dia.  A convivência com os outros limpa-botas e a clientela se regia por afinidades tão superficiais que, na maior parte do tempo, relegava-o à solidão conhecida por aqueles provenientes dos Pampas.  Uma vez por mês, Jose de la Luz Maldonado se dirigia à barbearia de Jacobo Martinez para aparar o cabelo, trocar duas ou três palavras e tratar-se com o Junta-Dentes que operava naquelas instalações um consultório dentário e terminava de arrancar o último dente de Maldonado, cuja língua passeava pela gengiva, recapitulando a presença de pedacinhos que foram apodrecendo com o tempo, infeccionando, causando dor.
“Sem mulheres e dentes, sou livre!”, comemorou Maldonado com cachaça e água nos copos. Preguiçoso e bêbado até se esquecera da unha encravada no pé!  Para o almoço, devorava uns restos no prato de comida apoiado sobre a caixa de querosene e observava os engraxates vizinhos ocupando-se dos fregueses.  Os olhos abarcavam o seu camarote vazio, sem alguém sentado na poltrona de couro suíno vermelho rasgado, o estofamento puído a queimar-se nos dias de quentura solar.
A miséria roía na profundidade dos sulcos da testa e em torno das maçãs do rosto de Jose de la Luz Maldonado descendo até a boca.
Não fora Poe a dizer que Adão teria sido o primeiro dos trapaceiros?  Havendo pulado a cerca do paraíso, os homens estavam predestinados a sobreviverem de seus truques e falcatruas. Que injusto para Maldonado padecer em seu porvir quando do silêncio dos manés engraxates nos camarotes vizinhos, do rechaço das quinceañeras carrancudas em sua direção, dos bolsos furados, da fartura que não o alcançava.
Jose de la Luz incompreendera a antipatia gerada ao insistir vender seus serviços com graxa usada por soldados de Hitler na segunda guerra mundial.  Quis aproveitar-se da fórmula exclusiva em latas extraviadas de um carregamento rumo a capital e qual não foi o muxoxo espiritual diante do fracasso comercial.  O sorriso pousou longe, a querer fabricar humor do mundo, mirabolar outro golpe de meia tigela.  Com descaramento, Maldonado insistira, sem convencer, que a graxa teutônica colocava o par de sapatos e seu desgrenhado dono na linha de frente. Acabava que as guerras no povoado não exigiam soldados com sapatos lustrados ou bocas desdentadas e encerrava-se ali o esforço de Maldonado, a quem coube lamentar o prejuízo quando a pasta de graxa secou e restou-lhe cozinhar a lama escura do mangue para encher as latas enferrujadas por décadas de desuso.  Aquilo era mais difícil do que a missão de um livreiro em terra de iletrados.
– “Aos diabos com eles!”, vociferou Maldonado.
Um homem que goza a infância nas entranhas de um crocodilo, instigado pelos próprios pais a se dedicar a entrar e sair de um anfíbio comprido e ameaçador não desenvolve o raciocínio do homem mediano embora guarde a expectativa de que outros ao seu redor enxerguem a realidade como ele.  Neste ponto dorido confluíam as frustrações de Maldonado e ele pressentia a necessidade de um parceiro, alguém que o acompanhasse nos atos, à semelhança do crocodilo.
Certa feita, ao caminhar pela Travessa das Goiabeiras, Maldonado surpreendeu-se com um empurrão seguido pelo tombo de um objeto a um passo da pisada pela sola descolada da galocha russa.  A princípio, pensou estar diante de uma fada, logo percebendo que o fruto possuía a silhueta de um ogro com dois furos como olhos sinistros, assustando-o.  Uma rachadura recordou-o dos beiços de sua avó, de quem herdara a vontade de exibir as partes pudendas em horas impróprias e nos cantos da igreja para aprovação divina.
Olhos giraram como bolas!
Maldonado colocou o pequeno monstro no bolso da sobrecasaca e correu para o seu camarote de engraxate.  Retirou de uma das gavetas o holograma surrupiado dos fundos da catedral, um furto do qual se orgulhava por havê-lo batizado com a água benta abundante das fontes do padre.   O religioso controlava as horas pelos sinos enquanto as mãos leves de Maldonado desapareciam com as máquinas usadas para luzir o fantasma da Nossa Senhora nas quermesses.  Soltando o nó de ansiedade da sua garganta, o mandrião empolgava-se com a montagem de um aparato.  Por detrás de um pano, o mané ofereceria a preço módico a visão do ogro, um negócio start-up que o permitiria largar as preocupações com as ceras clandestinas e os calçados da gentinha em busca de se alimentar dos deuses.
– Glutões, aos diabos com eles!
A ópera bufa se instalava.  Duas mil pessoas em dois dias.  Filas que cobriam a praça Alfred Jarry e ruas adjacentes.  Camelôs instalaram-se para vender água e churros aos peregrinos.  Ambulantes ofertavam velas e lenços para os chorosos, criando concorrência aos cegos da igreja exímios comerciantes de velas.  Peregrinos brotavam das aldeias e lugarejos, pontos de distribuição dos pãezinhos a base de esporão de centeio.  Alguns haviam visto no passado a fada de látex quando Maldonado fora apelidado de “El Pepe Hada”, outros de nada sabiam.  Os boatos circulavam sobre a impossibilidade de se tocar no ogro, uma frustração para os afeitos ao tato.  No entanto, Maldonado permitia que cutucassem o monstro com uma vareta e até mesmo fazer-lhe cócegas.  Francisco Degas, um dos milhares de peregrinos, pediu ao ogro que aumentasse a sua inteligência e fosse capaz de criar a piada, o chiste mais cômico da história da humanidade, uma piada que inevitavelmente provocasse o riso de qualquer ouvinte.  O ogro sussurrou algo de tão estarrecedor que Degas ria sem controle a ponto de não conseguir difundir a graça.
Anedotas sobre o ogro espalhavam-se e peregrinos empurravam-se para ganharem uma senha e garantirem a chance lotérica da interlocução. Laurita Morales, ao cruzar a praça, em seu caminho diário reparou na fila que se avultava e na excitação do momento que tomava os de boa vontade de Jalisco.  A investigadora comprometera-se a chegar cedo na agência de detetives Morales y Morales onde marcara encontro com Landratov sobre o programa de búzios estelares (o agente russo não desistia de enviar idosos pela Via Láctea em missões one way) e uma conversa com Apolônio, escritor de patafísica que resolvera estudar astronomia, tornar-se detetive particular e, após uma intoxicação por “ergot”, vadiava no espaço ocioso entre a pensão e a praça.  Dois casos em aberto a aguardavam: o sequestro do barítono Pietro Paolini, denunciado pelo engraxate Escobar, noivo de Rosina, e a presença crescente de agentes russos, inclusive cirurgiões, no povoado.  Sem intenção de atrasar-se, Laurita deu de costas à romaria e aos olhares amedrontados dos mendigos diante das portas entreabertas das igrejas.  Seguiu caminho com a bengala em punho.
Já era o terceiro dia desde que a fila se formara e os romeiros deliravam em febre.  Alimentados pelos pãezinhos contaminados por ergot, homens e mulheres estavam sequiosos pela chegada do Panta, guardado em uma incubadora sob os cuidados de Jose de la Luz.  A incubadora propiciava a noção de que o ogro estava por crescer embora o monstro pronunciasse obscenidades inverossímeis e impropérios de grande maturidade.  Era inegável que atraía a curiosidade dos transeuntes, das senhoras da alta sociedade, dos engraxates, dos sapateiros de remendões, dos guardas municipais, dos pastores e, principalmente, dos mandriões como Maldonado sem intenção alguma de pagar pela conversa com o ogro.
Acariciando o seu pequeno monstro, Pepe Panta pensava:
– Este animal pode causar reviravoltas!  A gentinha pudica disposta a fazer qualquer coisa pela fé, com pedras na mão para atacar o próximo não resiste à conversa com este ogro feíssimo que os instiga a meter as mãos pelos segredos até os cotovelos.  A castidade se esvai a olhos vistos.
Maria, uma criada que ia vender ovos ao mercado e mãe de cinco filhos executados na guerra tropical, foi uma das primeiras a pagar uns trocados ao Pepe Panta por uma visão e conselhos do ogro que se remexia.  Com lágrimas brotando dos olhos, Maria saíra do camarote do engraxate em estado de êxtase.  Havendo caído no golpe da fada de látex cinco anos antes, a mulher se deixava persuadir pela voz que demandava que largasse os cultos e os esforços para eliminar o demônio.  O ogro sugeria que se entregasse aos prazeres mundanos, crucificando a culpa que carregava pelas mortes dos filhos, safados cabeludos que fizeram por merecer os tiros nas nucas.  Maria passou a experimentar dias de emoção sem igual e foi dar cambalhotas com o pai de Rosina, recém enviuvado de dona Candinha.
Pepe Panta aterrorizou-se quando um cãozinho Zamor quase derrubou a armação com o holograma que transformava o fruto podre em nobre mito. Expulsou o animal a pontapés.  Entretanto, o que impressionava Pepe Panta era não precisar emular uma voz para o monstro.  Os peregrinos aproximavam-se do bicho esquisito e, posteriormente, confessavam haver escutado mensagens obscenas, receitas de xarope para a tosse, dicas de números lotéricos, a interpretação de sonhos ou pesadelos, previsões astrais e planos de vingança odiosa.
Como de praxe, Maldonado acendeu um fósforo na sola da botina.  Ajeitou-se da melhor maneira possível sobre o banco de três pernas, contava o dinheiro miúdo, desfrutando cada nota que preenchia o seu destino de trapaceiro em meio a carência de um continente de fiéis.
Francisco Degas, um fiel, ri sem parar (e estará a rir depois que o leitor terminar este capítulo).


Kátia Bandeira de Mello-Gerlach (Rio de Janeiro, Brasil, 1980). Natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas. Publica no Jornal Rascunho.

Posted by:Jorge Pereira

Jorge Pereira (Recife, 1994). Produtor cultural e agente literário baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e membro do Oi Kabum! LAB do Oi Futuro.

Uma resposta para “El Pepe Panta, por Katia Gerlach

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