Sim, eu sei que há muita coisa escrita por aí sobre o clássico Jane Eyre. E sei também que devemos fazer uma longa mesura às irmãs Brontë quando falamos de literatura inglesa do século XIX. Aliás, eu diria da literatura inglesa em geral. Por isso, serei passional. Relatarei a vocês minhas impressões personalíssimas sobre a obra. Um livro que classifico como um dos melhores que já li. Um livro que me fez ficar ansiosa pela hora de abri-lo novamente para conferir o que seria feito de cada personagem.
Jane Eyre foi lançado em 1847 e, de cara, fez um sucesso estrondoso. Charlotte Brontë imprimiu na obra um pouco de si mesma na narrativa, usando técnicas primorosas de construção de texto. Conta-nos a história de Jane, uma menina órfã criada (e rejeitada) por sua tia que acaba enviando-a para estudar em uma instituição de caridade. De lá, ela sai querendo “conhecer o mundo” e começa a trabalhar como preceptora em uma mansão. Apaixona-se pelo patrão, Edward Rochester, descrito pela autora como feio e de personalidade forte. O relacionamento passa por turbulências até desembocar num final que, enfim, nos faz respirar novamente em ritmo normal. Resumindo, é isso. Lendo, é muito mais do que isso! Transmitirei aqui três momentos que me marcaram, descrevendo-os com as palavras tristeza, pavor e aflição.
Ainda no começo do livro, quando Jane Eyre parte para estudar em uma instituição de caridade, ela enfrenta a dura rotina de pouca comida, frio e castigos. Perdida em novos e terríveis hábitos, ela faz amizade com a franzina Helen Burns. Elas se ajudam entre tantas dificuldades. A pouca comida e as roupas finas que as alunas usavam fizeram com que muitas adquirissem tifo, em uma epidemia que varreu a escola. Jane foi poupada, mas Helen não. “Mas um ou dois dias depois fiquei sabendo que a Srta. Temple, voltando para o quarto ao amanhecer, me encontrara deitada na cama de Helen Burns, meu rosto em seu ombro, meu braço em torno de seu pescoço. Eu dormia – e Helen estava morta.” (p. 103). Fechei o livro por alguns minutos e me rompi em prantos.
O segundo momento acontece quando Jane já está trabalhando na mansão do Sr. Rochester, Thornfield Hall. É a véspera do casamento dela com o patrão (e é depois disso que a história sofre uma grande reviravolta!). Deitada em sua cama, Jane, entre acordada e adormecida, vê uma mulher muito estranha entrar em seu quarto, descrita como uma “vampira”. Ela pega o véu da noiva no armário e o rasga ao meio. “– Então afastou a cortina da janela e olhou para fora. Talvez tenha visto que amanhecia porque pegou a vela e desapareceu pela porta. Quando passava ao lado de minha cama, ainda parou. Aqueles olhos de fogo me olharam. Ela aproximou a vela do meu rosto e ali a soprou, apagando-a. E eu desmaiei. Pela segunda vez na vida, apenas pela segunda vez, eu perdi a consciência, por puro terror.” (p. 331). Fechei o livro por alguns minutos, com arrepios pelos braços. Imaginei aquela cena horripilante acontecendo comigo. Dormi com esse pensamento.
Depois de muitos acontecimentos na narrativa, relato o terceiro momento. Jane já não trabalhava mais em Thornfield. Abandonou a mansão às pressas e tenta, outra vez, recomeçar a vida, sem nem um tostão no bolso. Para em uma aldeia distante e tenta pedir emprego, mas não conquista a confiança de ninguém. Dorme ao relento por alguns dias, inclusive na chuva, e passa fome ao ponto de pedir a uma menina um resto de mingau. Dias penosos para Jane. “Como antes, tentei encontrar trabalho. Como antes, fui repelida. Como antes, morri de fome. Somente uma vez passou algo de comer por mus lábios: foi na porta de um chalé, quando vi uma garotinha se preparando para atirar um resto de mingau aos porcos. (…) A menina esvaziou a vasilha na concha da minha mão e eu devorei o mingau com a maior voracidade.” (p. 383). Fechei o livro por alguns minutos. A esta altura, sentia, como Jane, seu frio, fome, solidão e humilhação. O que eu faria se estivesse no lugar dela?
A narrativa em primeira pessoa de uma história com personagens tão intensos nos arrebata por completo. Charlotte Brontë era passional em sua escrita, muitas vezes imprimindo o seu autorretrato. A escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941) abordou as irmãs Brontë em alguns de seus ensaios, analisando-as em paralelo. Confere-se registrado no livro O valor do riso, que reúne textos da autora: “Quando escrevia, Charlotte dizia com eloqüência e esplendor e paixão: “Eu amo, eu odeio, eu sofro”. Sua experiência, apesar de mais intensa, acha-se no mesmo nível que a nossa.” (p. 161). É assim que Charlotte conquistou e conquista leitores fieis.
Após encerrar a leitura de Jane Eyre, não li outro livro por quinze dias. Precisei de um tempo para acalmar as emoções e digerir a obra. Por fim, imaginei Charlotte recebendo a notícia que uma leitora do ano de 2016, residente no interior do Brasil, havia lido sua obra e se emocionado com ela. Uma obra escrita há mais de um século e meio. Charlotte e também Jane tornaram-se imortais.


Munique Duarte (Santos Dumont, Brasil, 1979). É jornalista, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Lecionou língua espanhola por dez anos, tendo estudado no CELEC – Córdoba (Argentina). Tem textos publicados em diversos sites, revistas e jornais literários, como Jornal Relevo, Jornal Opção, Revista Diversos Afins e Livro&Café. É idealizadora e apresentadora do programa mensal Literatura na Rádio Cultura, em Santos Dumont-MG. Participou das antologias Escritos de Amor (Casa do Novo Autor Editora) e Poesia e Prosa no Rio de Janeiro (Taba Cultural). Desde 2010, mantém seu blog de contos e poemas, Textos Imperdoáveis. É colunista da Philos com a sessão “Não deixe de ler”.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

One thought on “Jane Eyre em três atos, por Munique Duarte

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