Anos 10

Vivemos no presente, construindo um futuro
Que ninguém sabe se virá
Destruímos o agora, para construir o amanhã
Como quem acredita construir uma ponte
Sustentada no nada
Que deixamos para trás

As luzes nunca se apagam e
Sem sono nos obrigamos a dormir
Forçando o descanso com as pílulas
Até que, sonolentos, nos obrigamos a acordar
E precisamos de outras tantas, as pílulas, para acordar

Levantamos. Tomamos nosso café descafeinado
E nosso leite, sem lactose. Tentamos adoçar tudo
Com um açúcar que não tem glicose
(É outra coisa, que deixa um ranço
Como que a imitação que quer ser a coisa real
Mas falha. E ainda assim fingimo-nos contentes)

Fechamos a janela que dá para o mundo
(Este barulhento, sujo e violento lugar!)
E ligamos nossas telas para saber do mesmo mundo
E provar, em doses virtuais, o mesmo barulho
A mesma sujeira e a mesma violência
Através do noticiário matinal, com as notícias velhas
Aguardando o jornal noturno para as notícias novas

Criamos escolas para desaprender nossa natureza
E aprender o funcionamento de engrenagens
Afinal, é o que seremos, uma engrenagem dispensável
De um sistema maior (tão maior!) que não compreendemos
Criando cifras, que respondem positiva ou negativamente
Àquilo que os homens de terno decidem
Alheios às vidas que alteram com o rabiscar de suas canetas
Veneramos os economistas, que dizem que tudo vai melhorar
(ou vai piorar, segurem suas calças!)

E a economia, ela mesma criada, fictícia, irrelevante
Reage bem a uma bomba que mata pessoas
(E aguardamos essa constatação, como quem está doente
E recebe a notícia do médico, de que tudo vai melhorar)
Até que um dia ela vai mal (ai de nós!),
E, cansados, algum de nós ousará dizer, antes do ostracismo:
“Mas o que será do dinheiro quando não sobrar quem gastá-lo?”

E procurando o lugar das mudanças
(é preciso mudar tudo, para ontem)
Socorremo-nos às políticas e às demandas
Mas nossa política vai mal, muito mal
E nossos juízes, piores ainda
Porque já não acreditamos que as soluções sejam humanas
Nem que os homens sejam capazes de mudar
E nos confortamos em nosso lamaçal

Queremos ser ouvidos, sem ouvir
E falar, sem escutar
Concluímos sem entender (sem sequer começar a compreender)
E as palavras – essas que se escrevem – já perderam seu poder
(Seu poder de representar. Sua autoridade,
A depender de quem a diga, persiste, tenebrosa)
E tudo pode ser tudo: pessoas podem ser coisas
E coisas podem ter condição de pessoas
(Sempre as coisas se adiantando
Ou será que são os homens se atrasando?)

Criamos as mais finas teorias, as mais adiantadas técnicas
As mais avançadas tecnologias e as mais afiadas mentiras
Para justificar os retrocessos e dizer, a quem vier,
Que estamos seguindo adiante … Rumo ao Progresso!
(Sempre o Progresso … em maiúscula…)
Ainda que os sacrifícios (bem se sabe)
Sejam feito a carne, sangue e sentimentos
Porque, em tese (em tese!) não se sintam no papel

Ai de nós!
O homem já caduca de humanidade
E a humanidade está farta de homens
Homens cada vez mais vazios
Em um planeta cada vez mais cheio.


José Henrique Zamai (Divinolândia, 1991). Advogado e escritor.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.

Uma resposta para “Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por José Henrique Zamai

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