Gente grande

Quando jovem não sabia nada de ser jovem
A Juventude só se surgiu em mim, essa figura ambígua, quando pude vê-la de longe
O que se sabe então sobre a juventude quando se é jovem?
O que se sabe então sobre a juventude quando não se é jovem?
Não somos compreendidos pelos outros ou por nós
E somos compreensão de tudo e de nada
Temos uma coragem repleta de medo:
Estamos sozinhos.
Quem é jovem não sabe nada de ser juventude
Quem é grande finge que soube tudo
Ser gente grande é estar alheio à juventude
Ser gente grande é ver a dor do outro
E fingir que a dor do outro não existe
Fingir que nossa própria dor não existe
Estamos sozinhos.
Ser gente grande é descartar o quanto estivemos perdidos
O quanto ainda somos perdidos
Figura Mística e bela
Feia e lúgubre e dolorida
Crescer é sofrimento
É redescobrir uma mesma vida
É enxergar quem sempre amamos – e nos decepcionar:
Amamos pessoas horríveis!
Ser gente grande é fingir que está tudo bem com a decepção:
Somos as pessoas horríveis.
Tentamos ser honestos e somos calados
Porque ser gente grande é tentar nos encaixar em caixinhas
Apertadas e desagradáveis
E tudo que queremos é ser gente grande
Para fingir que não dói estar no mundo
Porque chega, estuda, trabalha e é a vida
Talvez eu esteja sendo injusta:
A juventude não é feia por ser dor
Porque é sofrimento, mas é sofrimento sincero
Talvez o que me cause dor é ser gente grande


Luizza Milczanowski (Rio de Janeiro, 1998). Mora no Rio de Janeiro, estuda Direito e escreve.

One thought on “ Neolatina: Mostra de poesia lusófona, por Luizza Milczanowski ”

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