Tarde de sábado. Sentados na área de lazer do asilo, onde passam seus últimos anos, dois idosos conversam:
– Celestino, lembra daquela sensação da juventude?
– De qual sensação você está falando?
– Daquela, da primeira namoradinha.
– Acho que lembro, por quê?
– Penso que ela voltou.
– Agora? Como descobriu isso?
– Estou com taquicardia, sinto calor e frio ao mesmo tempo, minhas mãos não param de suar, estou excitado e com medo, ou seja, eu estou me apaixonando de novo, Celestino.
– Isso é a morte, Abílio!
– Eu estou morrendo?
– Está sim, velho!
– Mas parece amor.
– É a morte chegando.
– Mas parece Teresinha.
– Que Teresinha, Abílio?
– O meu primeiro broto.
– Broto? Eu vou pedir ajuda.
– Não! deixa ela vir, Celestino.
– Deixar quem vir, Abílio?
– A morte, deixa ela vir.
– Você enlouqueceu, velho!
– Não, mas eu já vivi demais.
– E isso lá é motivo para querer morrer?
– É motivo para querer vê-la chegar, amigo! Há tempos nenhuma dama vem me ver, e essa, quando vem, me traz a sensação do primeiro amor. Deixa ela vir, Celestino! Quem sabe está usando o vestido verde musgo de Teresinha, aquele bonito que deixava o corpo dela querendo sair para me dizer “oi”, deixa-a!
Antes que Celestino pensasse qualquer boa razão para Abílio não se entregar à morte, o velho tombou a cabeça para o lado e, com um ar juvenil estampado no rosto cheio de rugas, morreu.
Meses depois, sentado no mesmo lugar do asilo onde estava quando Abílio morreu, Celestino sentiu seu coração acelerar, calor e frio corriam por seu corpo, as mãos suadas não secavam, e uma excitação amedrontadora lhe acertava sem piedade.
– É você, morte? Como você quer fazer isso? Posso lhe pedir um favor? Vêm no vestido de Teresinha! Quero ver teu corpo me dizendo “oi!”, vem!


Francisco Carvalho (Maceió, 1988). Escritor, poeta, professor de História, desempregado.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.

Uma resposta para “O vestido verde musgo de Teresinha, por Francisco Carvalho

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