É impressionante a quantidade de coisas que a gente descobre na casa das nossas avós. Parece um mundo paralelo onde tudo que você nunca viu acontece e, para a nossa sorte, existe alguém ali disposto a te explicar, com muita paciência, o sentido e o propósito de cada descoberta que você faz. Foi na casa da minha avó que eu descobri o que era uma videira. Ela morava em um sobrado enorme, com um quintal tão enorme quanto, onde havia, sobre armações de madeira, uma pequena floresta de caules e folhas entrelaçadas que, mais tarde, percebi que dava uvas roxas. Para mim, aquilo era um imenso pé de uva. Mas, quando levei uma amiga minha para apresentá-la àquele magnífico pé de uva, imaginando que ela não soubesse do que se tratava, perguntei do alto da minha soberba infantil: “você sabe o que é aquilo lá embaixo?”, indaguei, apontando da varanda para o matagal no quintal. Ela, sem compartilhar comigo a excitação do momento, respondeu: “É uma videira”. Eu ri, achando que minha amiga fosse a pessoa mais estúpida do mundo. “Não! É um pé de uva!”. Minha avó, que ouvia a conversa, sentada na varanda atrás da gente, emendou: “Ela está certa. É mesmo uma videira.” Foi assim que eu aprendi que pés de uva, na verdade, se chamam videiras.
Foi lá, também, que eu descobri que, se a gente lixar o mármore encardido, ele volta a ficar branquinho feito novo. E que existe uma raquete – não dessas elétricas de hoje, mas uma de plástico – que é usada para afugentar moscas da cozinha, e ficava encaixada entre o rodapé de madeira e a parede. Vi, com assombro, pela primeira vez, um palito de fósforo muito grande, maior do que os convencionais, propositalmente longo para não queimar as pontas dos dedos na hora de acender o fogo. Foi o lugar onde eu vi uma extensão telefônica, e compreendi que, se alguém ligasse para o telefone fixo da casa da minha avó, ela poderia atender tanto na sala quanto na cozinha! Era extraordinário!
A cozinha, por sinal, era o lugar mais fascinante de toda a casa. A fábrica mágica de onde saíam as pipocas carameladas em formato de bolas. Havia sempre alguma coisa no fogo. Geralmente doces, porque minha avó era uma doceira de mão cheia. Mas também dei de cara, dentro das panelas de alumínio, com coisas das quais nunca tinha ouvido falar. Naquela mesa longa no centro da cozinha, comi tatu e jiboia, e eu nem sabia que a gente podia comer cobra sem morrer envenenado – à época, o pequeno Tiago não tinha conhecimento suficiente para entender que jiboias não possuíam veneno, e, por isso, comeu receoso, mas comeu assim mesmo.
Eu costumava passar tardes inteiras na casa da minha avó, ajudando no que era preciso, sempre que solicitado. Minha atividade favorita era passar as balas de mel no açúcar.
Minha avó enrolava as balas na mão numa velocidade impressionante, para não se queimar com a massa quente, e, depois, atirava-as dentro da assadeira cheia de açúcar, que era a minha praça; e lá ficava eu, com uma colher enorme, mexendo as balinhas de mel no açúcar com o máximo de cuidado para não colocar muita força e acabar deformando as esferas.
Numa tarde dessas qualquer, minha avó me pediu que fosse até o quarto dela buscar, dentro da penteadeira, um creme. Diligente, fui. Achei o creme e, para a minha surpresa, uma quantidade enorme de santinhos de missa de sétimo dia, presos por um elástico – para quem não sabe, esses santinhos são distribuídos pela família do falecido na missa do sétimo dia de morte, geralmente, vêm com a foto da pessoa na parte da frente e, dentro, com uma oração ou algo do tipo. Minha avó estava sentada no sofá da sala, e levei até ela o creme que me pediu e todos os santinhos que achei. Perguntei o que eram. Ela, com muita paciência, abriu todos os santinhos sobre o sofá e foi me contando as histórias, uma por uma, de todas aquelas pessoas, que, incrivelmente, se cruzavam com a história da própria cidade.
Um casal apaixonado que, depois de fugir de casa no meio da noite para ir a uma festa numa cidade vizinha, sofreu um acidente de carro fatal na estrada; o velório dos dois aconteceu em pontos distintos da cidade, mas, assustadoramente, os enterros foram marcados para o mesmo horário e os dois caixões se encontram na praça central, transformando, assim, o que eram dois enterros distintos num só. Uma linda mulher de cabelos longos e negros que tinha sido queimada viva dentro de casa por causa do ciúme doentio do namorado, que acabou ateando fogo nela e nele, incendiando também toda a casa para que ela não tivesse chance de fugir. Um duelo estilo bang-bang de faroeste na praça central em que os dois cavaleiros acabaram por se matar mutuamente.
Minha avó conhecia cada uma daquelas histórias, e, com a naturalidade de quem fala sobre um assunto comum e até desimportante, foi contando para mim, que ouvia com atenção, imaginando como teria se dado o momento final daquelas pessoas. Ao final, ela me pediu que recolhesse os santinhos e devolvesse ao lugar onde pertenciam. Foi exatamente o que fiz. Mas, depois daquela tarde, minha vida nunca mais foi a mesma.
Aquela foi a primeira vez que eu descobri a ideia de finitude. Entendi que tudo termina um dia, que as coisas acabam, que as pessoas morrem, e que tudo bem por isso.
Minha avó também sabia que, um dia, iria morrer.
Mas isso ela preferiu não me contar.


Tiago Portsan (Brasil, 1994). Romancista e dramaturgo baiano.

Posted by:Jorge Pereira

Jorge Pereira (Recife, 1994). Produtor cultural e agente literário baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e membro do Oi Kabum! LAB do Oi Futuro.

Uma resposta para “Sobre missa de sétimo dia, por Tiago Portsan

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