assim na vida como nas narrativas – quatro interpretações, quatro ficções

 

Reflexões sobre a lesbiandade baseadas em trechos de obras de escritoras brasileiras.

Nesta minha leitura livre e um tanto quanto desimpedida, tomo licença para embarcar em algumas interpretações de caráter sensitivo e simbólico a partir dos textos de escritoras que dizem muito sobre o que as mulheres lésbicas estão sujeitas a vivenciar – dentro e fora dos livros.
De início, afirmo que muito me agrada pensar no entrecruzamento entre estruturas narrativas não usuais ou inovadoras à temática LGBTQ – no caso deste artigo, da mulher lésbica – na literatura. Como se, para apresentar formas de expressão sexual que estejam aquém das que hoje temos como padronizadas ou comuns à maioria, fosse oferecida ao leitor a oportunidade de amplificar o olhar e os sentidos via: (1) o rompimento dos ditames que estabelecem a diferenciação entre gêneros literários; (2) o uso de variados recursos de linguagem e de enfoque narrativo. Tais fatores, somados (1+2) representariam, assim, “o casamento perfeito”.
Trago aqui a citação de um trecho de O Unicórnio, uma das quatro ficções que compõem o livro Fluxo-Floema, de Hilda Hilst. Nele, a lésbica é vista como alguém externo (neste caso, a irmã) a integrar um conjunto de seres, embora, ao mesmo tempo, seja uma das três partes que compõem o rosto do narrador. No trecho a seguir, marcado pela fusão das falas e a reiteração do rosto fragmentado, acontece o encontro entre a escritora-personagem e a irmã lésbica numa voz que se alterna e também se complementa:

Olha o meu rosto. Toca-me. Vê, ele está dividido. Onde? Olha, você traça uma diagonal partindo desta saliência do lado esquerdo da fronte, e termina a diagonal na mandíbula direita. Pronto? Bem, agora da minha narina esquerda e, portanto quase no centro da diagonal, você puxa outra linha que vai cortar o canto da boca e termina essa linha na mandíbula direita. Pronto? Bem, agora da minha narina esquerda e, portanto quase no centro da diagonal, você puxa outra linha que vai cortar o canto da boca e termina essa linha na mandíbula esquerda, formando assim um ângulo de quarenta e cinco graus. Agora o meu rosto está dividido em três partes, não é mesmo? O lado esquerdo é o meu irmão pederasta, o lado direito é a minha irmã lésbica e o pequeno triângulo é o meu todo que se move desde que nasci, é esse meu todo que ficou em contato com as gentes, esse todo que se expressa e que tem toda aparência de real.

Assim, partindo da inventividade de Hilda Hilst, em que as experimentações que envolvem a linguagem compõem a sua escrita de maneira intencional, darei sequência ao exercício a que me propus de início.

O leito da morte e da violência

Destaco, a seguir, passagens pelas quais fui, de certa forma, engolida, devido ao seu poder de impacto e por sua veracidade; trechos de obras que, de maneira muito próxima ou realista, trouxeram à tona estados do ser e representações significativas quanto à identidade lésbica e algumas de suas infinitas variações. Vamos a elas:

Nunca pensei que iríamos caber tão bem, dignas de estupro coletivo e cigarro dançando na pupila. Somos de uma etiqueta tomada por ácidos e gases nocivos. Nossa vala, minha linda, veja só… Até nesta hora somos clandestinas. Sumiu nas lendas urbanas, nos livros de fotografia, nos sedimentos de mentiras e terra. Não sei do futuro, dos homens e mulheres. Acabou aqui o meu conhecedor do que será, mas saberão. Nenhuma morte é inválida. Amor, sua mão se decompondo bem em cima do meu peito, minha boca já não tão sexy, ainda sorri. Estáticas no processo intenso de decomposição. Olha que lindo, brotaram rubras rosas no solo que pesa sobre nós.

Na escrita lírica e intuitiva que marca TW: para ler com a cabeça entre o poste e a calçada, livro de estreia de Camila Passatuto, fica evidente, no trecho selecionado, a confirmação da morte / sepultura como talvez a única possibilidade de leito nupcial para duas amantes. Assim como a ameaça real do estupro coletivo / corretivo. A impossibilidade de ser o que se é diante da vida. A invisibilidade que persegue (e torna as dores ainda mais visíveis). O fantasma da incompreensão.
Sobre o aprisionamento nas valas que compõem a existência das mulheres lésbicas, temos: (a) a vala da ridicularização social; (b) a vala da fetichização feminina; (c) a vala da voz calada; (d) a vala do rompimento com o futuro; (e) a vala da religião que nunca compreende; (f) a vala da indesejada transitoriedade estética.
Todos os ocos que, na ausência de solo, devem ser habitados. As lésbicas vistas sempre como:
corpos moribundos,
possibilidades que não se cumpriram,
expectativas desfeitas,
futuros abortados,
sonhos rasgados de outrem.
É um pesar de quem vive como se tivesse morrido, deixando para trás somente dúvidas, dívidas e desgosto.
Eu entendo melhor a vida quando um corpo nu de moça distraída cai sobre o meu. Sei que faz sentido a poesia, o sangue que tomei semana passada, esse canivete enferrujado cavando a próxima emoção. É feito para extenuar o tédio.
O entendimento de si mesma e o reconhecimento da própria identidade na similaridade do corpo de outra mulher. Identificação daquilo que, em si, faz sentido e diz sim, em oposição aos nãos eternos, à negação contínua recebida por diferentes sinais e indicativos ao longo da vida. É preciso entender aquilo que se manifesta de formas distintas em seu corpo e mente até pra que se encontre uma razão ou motivo para estar e permanecer viva. Caso contrário, não há mesmo um porquê que justifique algo além do ocupar diferentes valas em sucessão ao longo de uma existência. O encontro com outro eu – neste caso, outra mulher, que ocupa um corpo semelhante – é, ao mesmo tempo, a origem de tudo e a finalidade, orientação para o entendimento daquela que tenta encontrar explicações, mitologias, crenças, possibilidades de gozo e sentidos que justifiquem o seu próprio nascimento, as razões ocultas da vida que a moldaram assim, e não do jeito socialmente aceito.

O amante, o duplo, um espelho

A potência e o encantamento (que também pode ser maldição) resultante do espelhamento, da similaridade, também é um dos pontos de destaque deste romance de Myriam Campello, Como esquecer – anotações quase inglesas.

Jamais me passou pela cabeça duvidar das referências físicas que compõem Antônia. Eu a identificaria mesmo se visse dela um pequeno naco, um centímetro que fosse – parte de seu cabelo ou de sua mão, ainda que isolados, recortados pelas silhuetas da multidão numa praça pública. Tudo isso pertencia ao conhecimento material e afetivo de seu corpo que adquirira com os anos, quando minha intimidade com ele o tornava quase uma extensão do meu, tão próximo e precioso que um corte em seu dedo punha em alerta minha integridade física. Não que eu não reconhecesse Antônia como entidade separada e inviolável. Mas a parte dela que se ligava ao mundo – sua efígie – era tributária do meu olhar, do meu toque e dos meus lábios, portanto um mapa que não tinha segredos para mim.

A outra passa por dentro da amante para que possa existir e ser identificada como alguém, por mais contraditório que isso possa parecer. É preciso que seja parte, é preciso que seja dela, é preciso que habite territórios sob o seu domínio para que, e somente então, seja seu par. Um mesmo sangue, uma mesma forma, a fusão que só surge entre iguais e na magia estabelecida na relação entre iguais. A outra, vista como espelho e comparsa, a melhor das companhias por entendê-la como só ela é capaz de entender a si mesma. Algo como o alcance do Nirvana por meio de válvulas, de vias nas mesmas direções e vulvas. Ela conhece o seu corpo e sabe o que pra ele é o melhor. E, naquela que constitui o seu duplo, sabe alcançar, com eficácia, o ponto certo. Revela na outra uns jardins de Babilônia que regou em si mesma, instantes atrás. Juntas, elas compõem uma comunidade formada por apenas duas mulheres.
Nada da antiga existência me serve mais, as trilhas em direção ao passado sumiram sob a enxurrada de lama e óleo escuro. Ao mesmo tempo, não consigo caber nessa roupa menor que o meu tamanho – uma nova vida. Desconfio que jamais entrarei nela. Antônia, estátua de ar. Antônia is missing. Quantos anos são necessários para o desaparecido ser taxado como inapelavelmente morto? Posso esperar tanto?

Curto circuito entre masculinidade e feminilidade

Aqui, surge o incômodo de ser necessário matar o que há em si mesma para que a outra desapareça de trechos seus, de interioridades, memórias. Afinal, um amar compartilhado exige um morrer compartilhado. Um pesadelo para quem, após o término do relacionamento, ainda pretende existir. Dar uns passos por aí. Ainda não ser visita constante ao âmago da terra. Matar a outra que transita por suas ruas e cenários interiores, aquela que se tornou parte de sua geografia, é desafio bravo e capaz de mobilizar narrativas inteiras. Como persistir na reidentificação particular, no reconhecimento individual perdido, diante de uma póstuma identificação suprema, superior e insubstituível marcada pela dualidade?

Se eu cortasse os cabelos, mamãe teria um choque, e papai talvez até chorasse de desgosto, pois já andava implicando pelo fato de eu só querer usar as camisas de Renato, isto porque Núcia dissera que eu ficava muito bem de camisa, melhor do que com os meus vestidos. Vestidos não eram para mim. E comecei a só andar de calça comprida camisa, jaquetas, sapatos de solões bem esporte, camisetas, sentindo-me cada vez mais liberta das apreensões e do medo de que os outros descobrissem o que eu era. Mas não era influência de Núcia, eu apenas estava me encontrando melhor dentro da minha indumentária preferida. (…) Eu era mulher, essencialmente feminina, apenas gostava de mulher. Só isso. Não gostava de homens para sexo, mas para amizade. Imitá-los, nunca! Sentia-me muito bem na minha condição de homossexual, sem precisar caracterizar-me ou realizar performances de machão para agradar as mulheres.

Nessa passagem de Eu sou uma lésbica, de Cassandra Rios, está explicitado outro importante aspecto relacionado às mulheres classificadas como “masculinizadas” ou butches.
O desejo de adotar uma aparência tida como “mais apropriada” aos homens não surge como uma forma de expressar, em termos estéticos, toda a masculinidade rejeitada pelo discurso (o que erroneamente pode ser visto como uma contradição, especialmente quando lésbicas feministas se apresentam dessa forma), mas de promover a anarquia entre os gêneros, dando origem a uma nova condição de liberdade para aquelas que agregam seios e suspensórios, gravatas e lingerie.
Sobre as butches, o filósofo espanhol Paul B. Preciado (ou Beatriz Preciado), em Lesbiennes Fems / Lesbiennes Butchs, afirma: “Mas a butch é também o resultado de um curto-circuito entre a imitação da masculinidade e a produção de uma feminilidade alternativa. Sua identidade surge exatamente do desvio de um processo de repetição. Aparentemente masculina, com seu cabelo raspado e seu cigarro na mão, a butch se proclama herdeira de uma masculinidade fictícia, que nem foi nem pode ser encarnada pelos homens (dado que estes acreditam na masculinidade), e que só uma sapa pode representar e imitar com sucesso. Por isso, a butch está às antípodas do desdobramento da masculinidade heterossexual. De pedra, e no entanto sensível, dura, e no entanto terna, intocável e no entanto multiorgástica. Seu corpo negado e magnificado ao mesmo tempo, faz-se transar sem ser penetrado, penetra sem transar”.
Ao fazer uso de dispositivos, elementos estéticos e performáticos que aos homens são atribuídos com exclusividade, a butch promove a fusão entre masculino e feminino, usa o próprio corpo como solo para experimentações. Ela faz a roda girar, nada desejosa de tornar-se homem ou de enquadrar-se unicamente em uma previsível repetição incompleta.
O que há é a representação da inventividade e a desconstrução. A diluição das obviedades que regem os binômios que fundamentam o que conhecemos hoje como heterossexualidade. Definitivamente, eles não devem ser usados como referência para a análise da representação da mulher lésbica, seja nas ruas, nas artes em geral ou nas páginas dos livros.


Cristina Judar (São Paulo, 1971). É escritora e jornalista, paulistana, autora das HQs “Lina” (Editora Estação Liberdade) “Vermelho, Vivo” (Devir), do livro de contos “Roteiros para uma Vida  Curta” e do romance “Oito do Sete” (ambos publicados pela editora Reformatório). Também é autora do livro-arte ‘Luminescências’, criado em parceria com a artista visual Paula Mastroberti, e do “Questions For a Live Writing”, projeto de prosa poética desenvolvido na Queen Mary University of London. É uma das editoras da revista de arte e cultura LGBT “Reversa Magazine”.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos.

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