A primeira metade do século XX foi marcada por publicações literárias geniais. E um autor que contribuiu para essa época admirável foi Franz Kafka. Nascido onde hoje é a República Tcheca, Kafka faleceu aos 41 anos, vítima de tuberculose, em 1924, deixando diversas obras publicadas, entre contos e romances. Vários lançamentos foram póstumos, organizados por seu amigo Max Brod, que encontrou diversos rascunhos de Kafka em sua casa. As obras passam por temas surreais, como sonhos malucos que não têm fim, labirintos estonteantes e muita crítica aos processos burocráticos, pois Kafka trabalhou em repartições durante toda a vida, sendo seu verdadeiro prazer a escrita. De tudo que foi publicado, gosto de citar uma trinca de tirar o fôlego: “A metamorfose”, “O castelo” e “O processo”.
“A metamorfose”, de 1915, é o livro mais conhecido do autor, sendo uma das obras mais analisadas e debatidas do mundo literário. Em poucas páginas, temos a trajetória de Gregor Samsa, um homem que, em um dia como outro qualquer, acorda pela manhã em um corpo de um inseto – tudo leva a crer que foi transformado em uma barata. Gregor não consegue se levantar da cama e fica preocupado em perder o dia de trabalho, já que ele sustentava toda a família. Esta, por sua vez, fica com medo e nojo de Gregor, deixando, todos os dias, restos de lixo para ele se alimentar. Preocupam-se não com a metamorfose, mas com o dinheiro que deixaria de entrar em casa. Uma crítica e tanto à sociedade da época, muito mais preocupada com as engrenagens capitalistas do que com sentimentos fraternais.
Passemos agora para “O castelo”, escrito em 1922 e lançado postumamente. Trata-se da história do agrimensor K. que foi enviando para medir as terras de um castelo, rodeado por uma aldeia pobre. O personagem K. tem enormes dificuldades para entrar em contato com alguém do castelo para saber sobre seu trabalho, quem seria seu chefe, quanto receberia por mês e onde se hospedaria. Descobre, muito tempo depois, que sua contratação acontecia dez anos após o pedido inicial, fruto de uma burocracia lenta e ineficiente.
A obra é um labirinto angustiante. K. se apaixona pela atendente de uma cantina, chega a morar em uma escola, passa a ter inimigos na aldeia e não consegue nem chegar aos portões do castelo, em um tempo de inverno rigoroso. Isso tudo em uma obra inacabada pelo autor. Não sabemos o fim, mas podemos imaginá-lo de diversas formas.
Por último, “O processo”, publicado em 1925. Em minha opinião, a obra mais surpreendente do autor. O personagem Josef K. é acusado de um crime que não cometeu. Na verdade, ele nem sabe qual é o crime, sendo abordado em seu apartamento por dois policiais, que nem usavam uniformes. Pôde ficar em liberdade até o dia do julgamento, tendo que procurar um advogado e pagá-lo do seu bolso. Custa a conseguir um, que só despacha deitado em sua cama, por estar sempre doente. No dia do julgamento, Josef K. decide fazer sua defesa sozinho. O tribunal fica no alto de um edifício que também é um cortiço, cheio de crianças correndo e brincando. Até aqui, os cenários são surreais e as situações totalmente absurdas. Ao final, Josef é condenado e sua pena nos assusta.
Ao ler Kafka, sempre me lembro dos quadros do exótico pintor espanhol, Salvador Dalí, que fundou a escola surrealista. Nada se encaixa, tudo parece ser um sonho, ou um pesadelo. Kafka também se enveredou por esses labirintos, fazendo-nos pensar o quanto isso tudo é surreal ou, na verdade, um espelho da realidade incoerente em que vivemos. Burocracia lenta, falta de fraternidade, acusações sem propósito ou provas são temas tão recorrentes da atualidade. Talvez o autor tcheco tenha colocado apenas uma “lente de aumento”, exagerando para chamar a atenção sobre o que ninguém nota e reclama. Um grito mudo. Um começo para que pensemos sobre o que é de fato “fora da realidade”. Indico as leituras acima. E uma reflexão sobre tudo o que será lido.


Munique Duarte (Santos Dumont, Brasil, 1979). É jornalista, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Lecionou língua espanhola por dez anos, tendo estudado no CELEC – Córdoba (Argentina). Tem textos publicados em diversos sites, revistas e jornais literários, como Jornal Relevo, Jornal Opção, Revista Diversos Afins e Livro&Café. É idealizadora e apresentadora do programa mensal Literatura na Rádio Cultura, em Santos Dumont-MG. Participou das antologias Escritos de Amor (Casa do Novo Autor Editora) e Poesia e Prosa no Rio de Janeiro (Taba Cultural).

Posted by:Jorge Pereira

Jorge Pereira (Recife, 1994). Produtor cultural e agente literário baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e membro do Oi Kabum! LAB do Oi Futuro.

Uma resposta para “Uma trinca imperdível de Kafka, por Munique Duarte

Comentários encerrados.