Desde o último episódio, o fiel engraxate Francisco Degas não parou de rir e o leitor o reencontra ao avesso e perdido dos sentidos. À incontinência do riso, sucedeu-se uma crise de soluços que fez o espírito do pobre diabo eclipsar a luz da razão. Deambulou pelo povoado entre sustos e terror, antídotos para combater o seu humor desatinado. Levou tapas, beliscões e tabefes da gente que pensava estar ele a zombar ou ensandecer no Quadrado K-4.
Tudo o que Degas havia desejado era que o poder divino aplacasse ressentimentos e virtudes machadianamente belicosos. Nutrido por dois pãezinhos no café da manhã, desconhecia que os elementos químicos de envenenamento por ergot aceleravam a ânsia pela fé na sua circulação sanguínea, potencializando-a. Acreditara com bonomia na marionete articulada pelo trapaceiro lustra-botas El Pepe Panta. Para tal, curvou-se diante de Pepe e, sem precisar de provas para crer, adiantou dois pedidos ao camarada: a piada inédita mais cômica da humanidade e dez ou vinte gramas a mais de miolos. Simples assim.

“O Doutor Faustroll (se permissível falar-se de uma experiência pessoal) desejou um dia ser menor do que si próprio e resolveu explorar um dos elementos a fim de examinar quaisquer perturbações que esta mudança de tamanho provocaria (…)”
Explorações e Opiniões do Dr. Faustroll, patafísico.

Degas, que na infância acreditara em histórias da carochinha, antecipou uma revolução em seu destino caso o monstro pantagruélico acatasse os seus pedidos. Lascou os cotovelos nos empurrões que deu para furar a fila; a força de um crédulo abarca os obstáculos a sua frente. Aproximou-se das instalações de Pepe Panta e admirou a armação da tenda branca sobre o gênio secreto. Apresentou-se a Pepe Panta, falando manso: – Somos membros de um mesmo sindicato de engraxates… venho lhe pedir uma sessão com o ogro… Mas antes quero que saiba que se precisar de quem lhe estenda a mão serei de serventia a você…
El Pepe Panta continava a desprezá-lo, importava-se com o caroço.
– Obrigado, camarada. São xyz pesos por consulta.
– Estou num aperto tremendo, retorquiu Degas. Será que você me quebrava este galho?
Pepe Panta avinagrou-se, fartava-se da miséria compartilhada. Por seiscentos demônios, que os engraxates da praça lhe pagassem as patacas justas. Degas punha tudo a perder, pendurando-se em Pepe e bloqueando o movimento da serpente humana que brindava uma dinheirama a Pepe. Ele respirou para o fundo, relaxou o diafragma: – Degas é o seu nome, não é? Chegue lá no ogro, pode me pagar depois.
Degas mostrou dentes e acrescentou aos favores: – Caríssimo, peço que não deixe ninguém mais ouvir o que o ogro me revelará! Gostaria de uma foto instantânea para pendurar no cortinado do meu camarote e um tanto de água benta pantagruélica para benzer os fregueses novos.
– Para quem não pega senha ou compra bilhete de entrada, você é exigente, não?
Degas silenciou-se e desvencilhou-se de Pepe. Uma luz o dirigia à incubadora do ogro sob os raios saídos da engenhoca dos hologramas. Em pé, Degas teve um longo frêmito, enfraqueceu-se face ao poder divino. Confrontou o bicho olho-no-olho e de súbito desatou a rir em uma intensidade sem limites. Posteriormente, esqueceu-se dos olhos amarelo-hepáticos do ogro e da piada sussurrada em seu ouvido pelo animalzinho. Engasgou e regurgitou a graça que disparara o riso. As convulsões intensificaram. O frasco com água benta pantagruélica partiu no piso. Degas soluçava e se contorcia. Os músculos acentuavam a revolta em seu estômago, onde suas vísceras trituravam uma miniatura dele, comprovando a tese científica de que uma réplica humana vive no interior de cada indivíduo à semelhança de um parasita. À isso chamam de autodestruição do duplo.
Durante o ataque sucessivo de riso, o corpo de Degas cambaleou sem governo pelas ruas até que tombou numa sarjeta após uma ambulância o atropelar de raspão e causar-lhe uma baita ferida na cabeça. Um mendicante sem dentes despontou em sua direção recém saído da barbearia de Jacobo Martinez. Com a faca, cortou um pouco mais a ferida aberta na cabeça de Degas, ameaçando-o com a língua de fora ao modo de uma criança mal criada. Uma barata voadora subiu por dentro da perna da calça e ninguém acudiu Degas por presumir-se que gargalhava de prazer. Estes e outros sustos interromperam os lampejos e teriam bastado para miná-lo, não houvesse o pior o acometido na volta ao camarote contíguo. Degas buscou-se no espelhinho de bolso e se deparou com um homem tomado pela fealdade do ogro. Refletia a imagem do divino que admirara. A ferida sangrava.
Assim que respirou entre um e outro soluço, Degas sentiu a cabeça leve como uma pluma. A princípio, atribuiu à perda de peso ao sangue jorrado pelo ferimento. Ato contínuo, notou dificuldade para aglutinar pensamentos. Somou dois mais dois mais cinco e deduziu que o ogro desarranjara o seu órgão. A matemática não fechava. Do riso, Degas saltou ao pranto. Ao encerrar a sessão, Pepe Panta sequer se despedira dele. O chiste acabava nele e ele se acabava no chiste. Não poderia passar a piada adiante como quem passa uma tigela de comida numa refeição em família.

“Se entendeste bem, facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja é uma virtude.” Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Naturalmente, vinte gramas de miolos não haveriam convertido Degas em prodígio porém teriam contribuído para um upgrade. Os neurônios extirpariam parcialmente o seu desprezo pelo conhecimento, habilitando-o a surpreender a freguesia com versículos recitados de memória. O encolhimento cerebral forçado pelo ogro jogou Degas, dorido de rir, abaixo da linha mediana de inteligência do grupo de controle. Progressivamente religioso pelo ergot e nutrido de orgulho por não ler livros, qualidade essencial a um candidato a presidente de república, Degas criava esperanças de concorrer ao cargo de alcaide. Alimentava a sua ignorância com avidez. Ao discursar, mostrava o asno que era mas a população sob os efeitos de ergot o elevaria ao papel de autoridade suprema. As asneiras fervilhavam no diminuto cérebro de onde vinham megalomanias e a paranóia com relação a Pepe Panta e o ogro, presumidamente envolvidos em uma conspiração para dar cabo dele. O ogro passava a ser o demônio em forma de abacate.
Com dificuldade de raciocínio, Degas empurrava um dia ao outro, esforçando-se para reavivar-se do estado “post coitum omne animal triste est”. No passado, a sua cara de inocente servira-lhe de cartão de visitas. Cercado por mulheres que se condoíam pela sua soturnidade, Degas mantinha-se frívolo e lânguido.
Os prelúdios chegavam a animá-lo enquanto os atos nos fundos do camarote o atiravam ao réquiem. As mulheres inominadas submetiam-se aos seus desejos de supermacho, mãos a seu bel-prazer, e ainda assim Degas encasquetava-se com bocejos diante das repetições tão sem graça quanto piadas desaparecidas. Estava por aparecer a mulher que lhe roçasse o espírito e enquanto isso Degas elaborava um plano para o bicho esquisito de Maldonado.
Lady Leopoldine Teichman materializou-se à frente de Degas perguntando-lhe com um sotaque estrangeiro sobre um dos relógios pendurados no toldo do camarote e afixado com um alfinete. Puseram-se a prosear.
– Reconheço este relógio, disse ela.
– Opero um antiquário de achados e perdidos no camarote, gabou-se Degas.
– Mas esse relógio pertence ao barítono Pietro Paolini.
– A senhora me perdoe, não entendo de óperas nem do fuso horário de fantasmas.
– Conheci Pietro Paolini no El Colón, na ópera Messalina.
– Este relógio chegou até mim pela boca de um destes cãezinhos que praguejam por aí.
– Todos idênticos, paridos em uma ninhada, a latir pelos becos, perdidos. Onde estão os felinos? Sumiram.
– Não gosto de gatos soltos, matam os pássaros.
– Pensava que gatos se alimentavam mais de roedores.
– Roedores? O senhor quer dizer capivaras?
– Ratos e ratazanas.
– Disso não sei. Quanto ao relógio, por quanto o senhor me venderia este?
Degas crivou o olhar na carteira que Lady Leopoldine Teichman tirava da pequena bolsa de seda azul prateada. Onde se ostenta, raramente há algo de sólido por detrás. Entretanto, um amontoado de notas saía da carteira.
– Este relógio não tem preço.
– Posso oferecer-lhe uma contraproposta?
Degas baixa a voz, dá-se ao luxo de dificultar.
Lady Leopoldine bufou: – Vigarista, pare com o seu cinismo! Vê-se que precisa de recursos.
Degas recuou atônito com a ousadia daquela mulher. Alucinado pelo dinheiro que se agigantava sob a sua visão, percebeu que ela teimava em adquirir o relógio de pulso do barítono sequestrado. O boato do sequestro pelos agentes russos correra de camarote em camarote, chegando até Degas que achara a história mal contada. Um homem do porte de Pietro Paolini sequestrado em aberto sem resistir, sem que ninguém da praça intervisse, como se os crimes de sequestro fossem registros corriqueiros. O que faziam o delegado e a agência de investigadores Morales y Morales? Os detetives selvagens serviam apenas para escreverem poesias infra-realistas e nada mais? Os tolos eram poetas e os poetas eram tolos. O raciocínio de Degas oscilava, seriam todos os tolos, poetas? E aquela besta do Maldonado, nenhum escrúpulo o travava… Se o ogro fosse o gênio prometido, por que não revelava o paradeiro do barítono que era sabido estar em mãos de Ludmila Petróvska.
– Podemos negociar, a senhora não se preocupe… Veja aqui este selo da época vitoriana. Repare no erro gráfico. “Peone” escrito no lugar de “pence”. A mancada de um funcionário do correio real inglês deu no que deu, este sendo um dos selos mais caros do mundo.
– Não coleciono selos. Quem ainda escreve cartas e coleciona selos?
– Os que usam relógios de pulso à corda como este que despertou o seu interesse.
– Fui eu quem presenteou o barítono com este relógio. Comprando-o estaria readquirindo um objeto pelo qual paguei no passado.
– A senhora não está sugerindo que eu lhe dê este item precioso sem ônus algum, não é?
– Absolutamente, posso pagar por ele.
– Então me diga, o quanto está disposta a pagar?
– Dez mil pesos porém antes gostaria que engraxasse os meus sapatos. Pagarei pelo serviço em separado.
O engraxate pediu a Lady Leopoldine que se instalasse no camarote, encaixou o par de botas carmim sobre o apoio e escovou a lama transformada em poeira. Dispunha de pouca graxa e raspou a lata com um pano. O couro vintage avermelhado chamou a sua atenção mas Lady Leopoldine, de uma efusão irresistível, não interrompia o falatório, seduzia-o:
– Guardo em minha bolsa um inseto mais raro do este selo que me ofereceu.
– Um inseto?
Lady Leopoldine abriu um lenço de linho e desvendou um percevejo verde e aflito. Degas desprezou as emanações mefíticas que transpiravam do animalito. Negou-se a respirar o olor empestado. Considerava a possibilidade de depositar o percevejo em um frasco como o que usara Pepe Panta com a fada de látex e fazer concorrência ao magnata do ogro.
– Se lhe der este percevejo, o senhor me abate o preço do relógio?
– Claro, esta oferta me atrai. Dois mil pesos a menos e o serviço das botas gratuito.
Os gracejos de Lady Leopoldine deslumbravam Degas. O rosto feminino escondia-se sob camadas de pó-de-arroz que o ludibriavam. A pálida e distinta dama sacou oito mil pesos da bolsa e decorou o bolo de dinheiro com o percevejo vivo: – Eis as notas e o inseto, por obséquio.
– O obséquio é meu.
– Bye, bye.
– E umas bitocas?, implorou Degas.
Lady Leopoldine gesticulou com um adeusinho de dedos e o relógio do barítono enfiado na bolsa. Degas dava-se por satisfeito embora preferisse ter encerrado a conversa com Lady Leopoldine nos fundos do camarote. Contudo, a transação correra a seu favor e renovava a fé nos poderes do percevejo. As nervuras do animalzinho cintilavam, um dom divino despontava daquela fração da natureza cedida pela belíssima Lady Leopoldine, de quem esforçava-se para guardar uma lembrança vertiginosa. Em posse do inseto, Degas abdicava da vingança anteriormente planejada que teria sido chafurdar de lama os pés dos fiéis em sandálias de borracha com o uso dos cãezinhos para posterior desastre da engenhoca de Maldonado em meio a confusão. Degas esperava por sapatos de defunto.

“Como é agradável e insólita a sua história.”
Livro das Mil e Uma Noites.

Com o percevejo acolhido no meio da mão, Degas correu à loja de Jacobo Martinez para comprar frascos de vidro. O comerciante recusou-se de pronto a aceitar as notas usadas por Degas para pagamento. Aqueles papéis postos contra a luz eram cópias fraudulentas. Com a cara no chão, Degas especialista em pechibeques não conseguiria se livrar das notas de dinheiro vindas de Lady L.T. a menos que aplicasse algum golpe. Fora traído! Segundo Jacobo Martinez, a impostora era uma índia plantada por Ludmila Petróvska para reaver o relógio de Paolini. O pó de arroz disfarçava a tonalidade da pele, e como Degas não desconfiara? Petróvska ficara sabendo que Apolônio, instalado no quarto de pensão onde se hospedara o barítono, fizera uma trouxa com os seus pertences e jogara-os em uma lata de lixo remexida pelos cãezinho Zamor num curto espaço de tempo. A índia usara um amontoado de notas falsas para lhe pagar. Crispado de ódio, Degas prometeu heroicamente lutar para recuperar a piada perdida e restituir o que lhe faltava em miolos com rezas pontuais ao percevejo. Não havendo sido benzido pela água benta pantagruélica, era improvável que o destino realizasse os seus desígnios.


Sorokin, acompanhado por Boris e Vladimir, observava as atividades nos camarotes da praça e seguia com olhos de harpia o movimento da serpente humana de inúmeras cabeças cujas extremidades perdia de vista. A fila trazia-lhe a infância. A mãe segurava-o pela mão para não perdê-lo à espera de creme de leite, ovos e unguentos. Fora inevitável que Sorokin crescesse com o trauma de último da fila enquanto reparava que a fila no povoado era dinâmica, renovava-se a medida que os ônibus lotados esvaziavam corpos. O ergot gerara um número exponencial de fiéis como Degas. Conhecedor de filas e autor de um dos grandes tratados sobre o assunto, raro seria que Sorokin se surpreendesse com a conversa entreouvida de Degas e Jacobo Martinez. O tempo da história passara da meia noite e certas atitudes previam-se. Dentre os hábitos daquele gentio, destacava-se a inveja e a busca por vantagens próprias. As propinas e o emprego de crianças para avançarem na fila condiziam com a presunção de genialidade que aquelas criaturas tinham de si. Entre alguns fiéis, certamente constatava-se a perigosa predisposição de homem-ou-mulher-bomba. Dentre os fatores desestabilizadores viáveis, Sorokin citaria o ar seco, metálico e desprovido de maresia, assim como o teor da poeira e outras características da região como os percevejos. E quem vendia frascos contendo a fragrância de Maria fedida? Degas, engraxate de número cento e oitenta e um, proprietário do camarote mais oloroso da praça Alfred Jarry; e o desmiolado se lamuriava perenemente, injustiçado pela escassa freguesia. Quanto destrambelho de um Dummkopf.


Kátia Bandeira de Mello-Gerlach (Rio de Janeiro, Brasil, 1980). Natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas. Publica no Jornal Rascunho.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.

Uma resposta para “vinte gramas de miolos, por Kátia Gerlach

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