O começo do século XX foi de intensa efervescência cultural, e podemos até nos perder em tantos exemplos nas artes, na literatura, no cinema, e na música. Os anos 20 foram o auge da criatividade e do rompimento das regras vigentes. Eram os tempos modernos, que já haviam começado ainda no séc. XIX. A escritora inglesa, Virginia Woolf (1882-1941), viveu esse tempo com uma imensa produção escrita, com romances, ensaios, diários e conferências. Uma mulher que sempre estava com sua pena à mão, diante de pilhas de papel almaço, registrando tudo o que se passava ao seu redor e em seu íntimo. Uma escritora tipicamente moderna.
Mas o que seria o modernismo nesses anos? Caracterizava-se pela captura do tempo presente (morte do passado), pela anulação dos detalhes obsessivos e pela autonomia, com a criação de regras próprias. Com essa definição básica de “moderno”, vamos passar a um movimento que possuía essas características, ainda no séc. XIX, o impressionismo, cujo ato de fé era considerar o que se vê e não o que se sabe, de acordo com o historiador de literatura francesa, Antoine Compagnon. O que importava era enlaçar o instantâneo, o agora.
Voltando à literatura, e ainda segundo Compagnon, a literatura moderna é considerada difícil e não destinada a oferecer bem-estar ao leitor. Virginia Woolf se encaixa perfeitamente nessa afirmação. Vários leitores têm uma enorme dificuldade em encarar os livros de Virginia. É um universo à parte, apesar de trazer em suas temáticas uma série de acontecimentos banais, dando ênfase ao lado espiritual dos personagens. A autora odiava romances materialistas, com ações heroicas de cavalheiros perfeitos, que nunca corresponderiam à realidade. “A matéria apropriada à ficção não existe; tudo serve de assunto à ficção”, afirmou em seu ensaio de 1919, “Ficção moderna”.

Um livro de Virginia Woolf que pode ser exemplo de tudo que foi relatado até o momento é “Passeio ao farol”, publicado em 1927. A narrativa retrata a vida de uma família que sempre passava o verão em uma casa de praia na Escócia, na Ilha de Skye. A história se desenvolve entre 1910 e 1920. Não há mistérios, suspenses, crimes ou grandes ações. Trata-se da rotina da família e de como o tempo passou, deixando marcas imperdoáveis.
Até mesmo no momento em que a personagem principal falece, a Senhora Ramsay, a revelação é simples e calma, continuando no mesmo ritmo de pinceladas, que a autora imprime da primeira página à última. Pontilhados minúsculos de vida cotidiana que, vistos de certa distância, formam toda a história trágica, mas extremamente real, da família Ramsay. Se a obra “Passeio ao farol” fosse um quadro, certamente ele teria sido pintado pelo artista Claude Monet (1840-1926).
Monet foi um pintor francês, nascido em Le Havre, cuja obra mais famosa foi o quadro “Impressão, sol nascente”, de 1873, uma cena de um barco à deriva em um amanhecer de sol alaranjado com névoas. Foi dele que surgiu o nome dado ao movimento impressionista. O pintor era obcecado pela instantaneidade, captando a impressão do momento. Nada de poses, cenas feitas e retratos perfeitos da realidade. Tudo era um grande esboço, cheio de frescor, para que o admirador achasse que a cena era de poucos instantes atrás.
Para dar mais precisão a essa relação “literatura e pintura impressionistas”, podemos comparar “Passeio ao farol” com “Ninfeias azuis” (finalizado em 1919). Nessa pintura, Monet retratou plantas aquáticas, em um lago de águas escuras, repetindo-as em diversos pontos, e, quando a observamos, nenhum lado da tela parece ter mais importância que o outro. Assim é nas três partes em que foi estruturado o livro mencionado de Virginia Woolf. Qualquer cena da obra pode ser retratada em uma pintura, justamente porque trata de temas rotineiros. Tudo é um mar azul, ou um céu acinzentado, ou uma casa de praia familiar. Tudo é esboço, sensação, instante, pontilhados da rotina. Elegância impressionista, movimento que amava o ar livre. E o ato de fé se repete: deve-se revelar o que se vê, e não o que se sabe.


Munique Duarte (Santos Dumont, Brasil, 1979). É jornalista, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Lecionou língua espanhola por dez anos, tendo estudado no CELEC – Córdoba (Argentina). Tem textos publicados em diversos sites, revistas e jornais literários, como Jornal Relevo, Jornal Opção, Revista Diversos Afins e Livro&Café. É idealizadora e apresentadora do programa mensal Literatura na Rádio Cultura, em Santos Dumont-MG. Participou das antologias Escritos de Amor (Casa do Novo Autor Editora) e Poesia e Prosa no Rio de Janeiro (Taba Cultural). Foi um dos autores selecionados na 1ª Mostra de Tuiteratura, apresentada em São Paulo, com frases poéticas do twitter. Desde 2010, mantém seu blog de contos e poemas, Textos Imperdoáveis. É colunista da Philos com a sessão “Não deixe de ler”.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.