Fugi de casa porque não tirei nota azul na escola. Fiz tudo certo. Levei a goma-arábica para colar na prova. Colei a goma no papel, não escrevi nada e entreguei para a professora. Ela me deu um zero vermelho. Não custava nada me dar um zero azul!
De rabo erguido, andei sem rumo com o meu caderno e o livro “Caminho Suave”. Fui para o mato brincar daquela historinha de João e Maria, tanto faz qual dos dois eu era. Fumei uns cigarrinhos de chocolate para tomar coragem e ir até a perigosa casa da bruxa. Antes, tirei da lancheira de plástico uns sequilhos que só uma grande vovó sabe fazer. Marquei o caminho de volta para casa com esse farelo, mas já sabia que os passarinhos iam comer tudo.
Não encontrei nenhum perigo no mato. Um lobo verde e vergão até teve medo de mim. Atravessei pinguela e mata-burro até chegar na casa da bruxa. Perdi na hora a vontade de comer doce. Era bruxa de roça. Na parede da casa só tinha doce feito em tacho: abóbora, sidra, goiaba. Em volta da porta e janelas, figo seco e em “carda”. O telhado era todo enfeitado com cartucho de prenda, daqueles de festa de igreja. Nenhum doce de cidade, nem maria-mole vendida em comércio cheio de poeira.
Nunca tinha visto uma bruxa de branco, nem de outra cor. Ela costurou um tanto de saco de açúcar, encardido, para fazer o vestido. Ficou feio. Ela também não gostou de mim. Perguntou se eu era o João ou a Maria. – Tanto faz, uai! Com uma vara de marmelo, me levou a um quartinho da casa. Eu ia ficar preso lá até ganhar uma arroba de peso. Eu ri na cara dela. Era facinho demais eu fugir dali. A porta era de tramela. A janela também. E eu já era criança acostumada a usar chaves para trancar muita coisa dentro de mim.
Então ela me mandou entrar dentro de um grande caldeirão, em cima do fogão que queimava lenha. Pensei que era para tomar banho de bacião. Eu não tinha lido toda a história do João e Maria, mas não gostei nada nada de saber que eu ia ser cozido! De repente, a bruxa gritou. A água quente mostrou as minhas emoções líquidas. Eu era aguado por dentro, de muito choro que não saiu até hoje. Só de vez em quando caía uma lágrima quentinha de cada olho. – Ocê, João ou Maria, não sente falta de doce?, falou a bruxa. – Tua fome é de doçura e amor. Não serve para ser cozido! Nem assado! Saí do caldeirão. Para casa eu não podia voltar, por causa do zero vermelho na escola. A bruxa não me quis. Chorei sem cair nenhuma lágrima. Escondido, peguei a vassoura dela e voei de rabo erguido até o bondinho de Poços de Caldas, que é feito com pão de açúcar. “Deus” que eu nasci tenho vontade de comer um pão de açúcar de grande altura. Deve ser fome de doçura ou porque não tenho com quem dividir um tantão de doce dentro de mim. Mesmo assim, só ando de rabo erguido.


Sílvio Reis (Rio de Janeiro, Brasil). É graduado em Jornalismo e exerce este ofício há 30 anos. Autor de pesquisas de linguagem, que resultaram em publicação de livros, atualmente ele se dedica à pesquisa, reportagens e artigos sobre a relação “homem-animal”. Os textos são divulgados em diversos veículos de comunicação e no blog vitorioregio.com

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.