agenda

Dia nublado,
todos se movimentam,
há um casamento,
tenho cá minhas suspeitas
de que o convívio é mais forte
do que uma assinatura
e um tabelião de terno puído,
tenho cá meus pensamentos.

Do outra lado da rua
há uma sirene de ambulância,
carros transitam,
e minha companheira
me olha pelo canto da sobrancelha,
por querer as nuvens, e alguns raios
em um vestido branco.

Eu, aqui sentado,
silencioso a escrever
longe e fora da linha da água benta,
acredito, e sempre acreditei no amor
e em todos os sentimentos intensos
que sou capaz de sentir,

mas há, de se viver
sem o olhar do outro em uma blasfêmia,
e decidir pela minha crença nas ostras,
então refaço o caminho do vento,
e vou levando os dias
como uma agenda a ser cumprida,
até que o feriado não baste.

agenda

Día nublado,
todos se mueven,
hay una boda,
tengo acá mis sospechas
de que la convivencia es más fuerte
del que una firma
y un notario de tierno puído,
tengo acá mis pensamientos.

Del otra lado de la calle
hay una sirene de ambulância,
coches transitan,
y mi compañera
me mira por la esquina de la ceja,
por querer las nubes, y algunos rayos
en un vestido blanco.

Yo, aquí sentado,
silencioso a escribir
lejos y fuera de la línea del agua benta,
creo, y siempre creí en el amor
y en todos los sentimientos intensos
que soy capaz de sentir,

pero hay, de vivirse
sin el mirar del otro en una blasfemia,
y decidir por mi creencia en las ostras,
entonces rehago el camino del viento,
y voy llevando los días
como una agenda a ser cumplida,
hasta que el festivo no baste.

esculpir a lua a nanquim

Uma maçã com dez pecados,
a primeira mordida quem Dara?

Os mares, os raios, as estrelas.

Eu?

Mesclar o azul com o amarelo,
e nos dias de prazer cantarolar.

Rima que rima casa sol e mel.

Desenhar a lua, esculpi-la nua sobre o papel.

esculpir la luna a nanquim

Una manzana con diez pecados,
la primera mordida quién Dara?

Los mares, los rayos, las estrellas.

¿Yo?

Mesclar el azul con el amarillo,
y los días de placer cantarolar.

Rima que rima casa sol y miel.

Diseñar la luna, la esculpís desnuda sobre el papel.

fui a Portugal

E por falar em encantamento,
fui a Portugal e sem te esperar ou vê-la,
eu, aquele que olha e não diz,
que em festa não vai,
e fogos de artifício não solta,
aquele que dentro de toda incompletude
que se apropria e se completa,
aquele eu, esse homem pasmo
que ao ouvir do seu rosto
uma voz que não sei, mas ecoou,

e por falar em encantamento,
eu a vi ali ali,
tão mal chegara e
já se preparava para partir,

se reparou o meu olhar,
ou na cor da pulseira do relógio
que meu pulso usava, não sei,
pouco sei dela ou da vida,

mas lembro que de tão claro
o seu sorriso, sua pele,
de tão intenso o seu olhar,
lembro, que entre câmeras
e fotos e vozes e luzes,
lembro que lembrei de ti, lembrei,
e por um instante,
por um instante não te esqueci.

fui a Portugal

Y por hablar de encantamiento,
fui a Portugal y sin esperarte o verla,
yo, aquel que mira y no dice,
que a fiesta no va,
y fuegos de artificio no suelta,
aquel que dentro de todo lo incompleto
que se apropia y se completa,
aquel yo, ese hombre pasmo
que al oír de su rostro
una voz que no sé, pero resonó,

y por hablar de encantamiento,
yo la vi allí allí,
tan mal llegó y
ya se preparaba para partir,

reparó en mi mirada,
o en el color de la pulsera del reloj
que mi muñeca usaba, no sé,
poco sé de ella o de la vida,

pero recuerdo que de tan clara
su sonrisa, su piel,
de tan intenso su mirar,
recuerdo, que entre cámaras
y fotos y voces y luces,
recuerdo que me acordé de ti, recordé,
y por un instante,
por un instante no te olvidé.


Carlos Cardoso (Rio de Janeiro, 1973). Poeta, possui formação em engenharia. Sua estreia na literatura ocorreu em 2004, com o livro de poemas Sol Descalço (Editora 7Letras). Em 2005, publicou Dedos Finos e Mãos Transparentes (Editora 7Letras), recebendo várias críticas elogiosas. No seu mais recente livro de poemas, Na Pureza do Sacrilégio (Ateliê Editorial, 2017), em sua apresentação, o crítico Silviano Santiago, o aproxima de grandes nomes da literatura, como Octavio Paz e Fernando Pessoa.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos, escritor e curador de festas literárias.