As antigas crônicas contam que um cavaleiro da cidade italiana de Pavia, o gibelino Pico de Canibus, foi expulso da cidade e teve que ir para o exílio, depois da dolorosa derrota sofrida por seu partido no outono de 1281, quando a cidade caiu nas mãos dos guelfos, durante a longa luta sangrenta entre as duas partes rivais. Pico deixou a cidade à noite, enrolado em sua capa, com seis companheiros de confiança. Depois de longas andanças, atravessaram os Alpes e se refugiaram na Provença, nas partes de Vaucluse. Lá eles tiveram que ficar em incógnito cerca de três anos, antes que pudessem voltar para casa. Durante esse tempo, Pico e seus companheiros roubaram três preciosas relíquias, guardadas e veneradas pela piedade popular: o sagrado prepúcio do Infante Jesus, um peito e um lenço com manchas menstruais de Santa Maria Madalena.
Todas as supostas relíquias do sagrado prepúcio eram muito populares na Europa, durante a Idade Média, ao ponto de muitos lugares se orgulharem de possuí-las. Alguns contaram com dezenove, então com a relíquia de Pavia, agora perdida, poderíamos alcançar vinte peças. Um prepúcio dos mais famosos foi preservado a partir de 1100 em Antuérpia. A relíquia fora vendida ao rei Balduíno de Jerusalém, nas terras da Palestina, durante a primeira Cruzada. Era um prepúcio famoso e milagroso, pois durante uma Missa o bispo de Cambrai viu três gotas de sangue manchando a roupa que cobria o altar. Em homenagem a esse pedaço de couro e à toalha de linho, uma capela foi construída e as procissões começaram; o prepúcio foi objeto de adoração e peregrinações. Outro destino teve o prepúcio preservado em São João de Latrão em Roma, roubado em 1527 por um lansquenete alemão, durante o famoso saque da cidade. Na vila de Calcata (Viterbo), foi capturado um soldado que participara do saque de Roma e roubara o prepúcio. Encarcerado, escondeu o relicário com o sagrado prepúcio na cela, onde foi descoberto em 1557. Depois disso, a igreja começou a venerar a relíquia, dando aos peregrinos uma indulgência de dez anos. De acordo com o pastor de Calcata, a relíquia foi roubada em 1984. Dizia-se que houvera a mão de uma misteriosa seita satânica, um grupo que praticava magia negra nas cavernas do monte.
O Pico de Canibus voltou a Pavia em um período ainda turbulento, quando o partido gibelino tinha que lutar diariamente contra os guelfos. Ele colocou as relíquias trazidas da Provença no cofre de uma cripta secreta de um mosteiro de freiras que não existe mais. Aquela cripta subterrânea foi encontrada e irremediavelmente destruída no momento da construção de um novo palácio moderno.
As Cruzadas promoveram a propagação de uma cultura que misturava as crenças dos francos e as do Oriente com os ciclos de contos e tradições de Cavalaria, o rei Artur, Tristão e Isolda: tradições celtas e germânicas, nas quais se aplicou a herança cultural do vizinho Oriente, interpretada em um cadinho que daria à luz a nova civilização ocidental. Peregrinos e cruzados trouxeram muitos artigos da Palestina e do Oriente: relíquias verdadeiras, mas também, em sua maior parte, falsas.
Entre as relíquias acumuladas pela família Visconti em seu castelo, havia: fragmentos de véus e sudários da Deposição de Cristo; fragmentos de roupões e vestes de vários personagens bíblicos; pedaços de madeira da manjedoura, pelo do boi e do burro de Belém; parte do seio e cabelos de Nossa Senhora; pedaços de árvores tocadas por Jesus; os dentes dos profetas, as pedras que teriam sido jogadas contra Santo Estêvão; pedaços de pão multiplicados por Jesus Cristo no famoso milagre de pão e peixe, quando, segundo uma lenda, o primeiro bispo de Pavia, São Siro, estaria presente, sendo o menino que os entregou a ele. Além disso, havia um chifre de unicórnio e a cabeça do dragão enorme morto por São Jorge, uma obra-prima da cirurgia veterinária combinando partes de vários animais para construir uma cabeça grande e monstruosa. Dos onze espinhos da coroa de Cristo preservados outra vez em Pavia, hoje apenas três ficaram, depois de assaltos e dispersões, que permanecem venerados na catedral, mantidos numa “nuvem” de madeira feita no século XVIII, pintada e coberta de ouro e prata.
Vários anos depois, em Pavia, agora conquistada pelos gibelinos, foi outro Pico, descendente e herdeiro do antigo progenitor de Canibus, a se interessar pelas relíquias. Ele conseguiu encontrá-las, embora na confusão apocalíptica que reinava naquela cripta, dando às freiras de Santa Maria Madalena as relíquias da sua protetora.
De Canibus guardou o sagrado prepúcio para sua família. A lenda queria que a posse dessa relíquia garantisse à família a fertilidade perpétua e a geração de herdeiros masculinos, capazes de perpetuar as glórias da casa. Pico ascendeu a uma das mais altas posições do ducado: era conselheiro particular do duque Gian Galeazzo Visconti, que se preparava para tomar a coroa do rei da Itália. Foi a peste negra, em 1402, que de repente quebrou a vida do duque e a carreira de Pico.
Em 25 de agosto de 1402, Gian Galeazzo, gravemente doente, no castelo de Marignano, queria rever sua vontade e chamou o notário Paulo João Oliva. Estabeleceu os critérios para a divisão de sua propriedade entre os herdeiros e quis que seu corpo fosse dividido entre diferentes lugares sagrados. Já no testamento redigido em 1397, ele mandara que seu corpo fosse enterrado na Cartuxa que ele havia fundado, em um rico mausoléu, exceto o coração, destinado à basílica de São Miguel em Pavia, e as outras entranhas para a igreja de Santo Antão abade (também conhecido como “Santo Antão do Porco”, porque os monges antonianos criavam leitões, usando o lardo para aliviar as feridas de herpes, chamado “fogo de Santo Antão”).
O quê realmente aconteceu naquela trágica noite de 1402?
Estávamos convencidos de que Pico deixasse Pavia com o notário para ir à cama de seu Senhor, agonizando pela peste, e que ele trouxesse consigo o sagrado prepúcio, com a esperança de que suas propriedades milagrosas pudessem ajudar a curar Gian Galeazzo. A cura, porém não foi eficaz; o duque morreu e permaneceu não enterrado por alguns dias, durante os quais as notícias de sua morte foram mantidas secretas, até seu corpo ser levado para a Abadia de Viboldone, na área de Milão e depois transportado para a Basílica de São Pedro no Céu Dourado, em Pavia, em 1474, quando Galeazzo Maria Sforza decidiu cumprir a última vontade de seu antecessor.
De fato, o trabalho de construção do mosteiro da Cartuxa chegara a tal ponto que permitiria que o corpo do fundador fosse levado. Parece que o prepúcio, deixado mais de setenta anos antes pelo Pico de Canibus, também permanecera com o corpo de Gian Galeazzo.
Não sabemos onde o prepúcio foi escondido depois, mas a sua descoberta seria um ótimo achado para os fãs da história da Pavia e para estimular o turismo.
No entanto, um documento recentemente divulgado afirma que a relíquia foi perdida sem esperança, alguns anos depois do fim de Gian Galeazzo, quando dois cirurgiões, Piet Molla (da Bósnia) e o doutor de Pádua Feliz Pompim, quiseram examiná-la.
Os dois médicos quebraram o frasco contendo o prepúcio; e o pedaço de couro, no contato com o ar, ficou pulverizado. Pompim teve o tempo de gostá-lo, alegando que tinha um gosto salgado. Desde então, chamaram-no “o Chupa-prepúcio”.
Então, o sagrado prepúcio foi substituído por um pedaço de couro qualquer, de modo a não perturbar a antiga tradição.


Alberto Arecchi (Pavia, Itália, 1947) é um arquiteto italiano, é presidente da Associação Cultural Liutprand, de Pavia (www.liutprand.it), que edita estudos sobre a história local e as tradições.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.