bebe-se, todos os dias, um pouco da água do rio que engana os homens. destino incerto. a incerteza é o concreto frio na pele, a altura dos prédios – esse silêncio sujo no rosto. marionetes e homens dependurados em andaimes, equilibristas, arte circense de salva-vidas incrédulos. e quem irá salvar as vidas que salvam vidas? no cimento erguido, vidro metal cobre se fundem num casamento definido, a ausência. mas quem quer morrer de amor também se engana. também vive e morre. o silêncio consome, se infiltra na selva da civilização, no deus concreto. consome a gente, consome as palavras. a palavra, que é só regime desgastado, faltoso. nascer e sair da terra é um pouco assim: tentar buscar palavras. é pela falta de palavras que joão existe. existe no silêncio de não dizer nada, que é também certa ausência diferente. não fala. joão é amor outro, duro e custoso. tem os olhos no chão surrado, o corpo cercado de silêncio engasgado na garganta – tem coisa para não-dizer, tem perdas de caminhos, tem estranhamentos de si mesmo. e quem irá salvar as palavras dos que faltam palavras? joão é pequenino demais perto do mundo, é miúdo. é meio bicho estranho largado, que revira a terra em busca de respostas. as perguntas do concreto. come a terra revirada em busca de alguma resposta ou alimento que possa saciar a nossa ignorância tão rude e purulenta. costuma acreditar que as respostas estejam ali, na terra. nascer e sair da terra é um pouco assim: tentar buscar palavras. talvez seja fome. fome de coisa que nunca se sabe, suja e profunda coisa, raiz das respostas, raiz não tratada. joão nunca foi assim. mudou, e tudo vai mudando com o tempo. é um milagre, joão! come, come, que nada é pra depois. come, come, que a carne não suporta fome tão bruta. mas veja, veja bem. joão não era assim. joão agora é só silêncio e terra e fome. joão mudou o jeito das coisas porque o mundo, quase sempre, desaba na gente. o mundo desaba na gente porque é teto de palha selvagem não acostumada. porque o mundo sempre nos deixa dormindo na rua das nossas vidas. mundo: demônio metade homem metade cão metade bicho-sem-coisa-nenhuma; mundo que mata a sua fome engolindo a gente por inteiro. joão e eu. joão e eu. mundo anônimo que não sabe da gente, que não ilumina nossos corpos brutos nem nada espera deles. não há caminho de volta pra casa, joão! – eu pensei, como se dissesse. mas não, joão não me ouve. é surdo e cego animal: continua a cavar e a comer a terra, revirando mãos e dentes sujos, olhos baixados. quem quer morrer de amor se engana. amor não se acha na terra, nem na barriga aberta de um rato morto. mas veja, as respostas do mundo talvez estejam ali, norato morto, a máquina que se abre. não há caminho de volta, joão! – eu pensei, como se dissesse. eu pensei, como se houvesse caminhos pra seguir, fugir, como se houvesse alguma possibilidade de fugir do gosto empoeirado da vida concreta. viver e morrer é um pouco de resposta para alguma coisa: cavar a terra, querer fugir pelo alto, triturar o concreto e forçar o sangue do mundo que saliva por dentro dele. não há caminho, joão! – eu pensei, como se dissesse. é quando joão mistura a terra ao teu próprio sexo. já não sei onde começa o fim das nossas vidas. mistura a terra à vida, procura nela a fome tão procurada. joão é um pouco dessa fome procurada que há em mim, mas não sabe. cava a terra buscando o que há da gente na sujeira, ou no princípio de todo o mundo. come a terra como se comesse minha carne, como se fosse, assim, canibal de nossas vidas não-concretas. a terra estratifica nossos corpos abertos de homem, ossos e vigas de cobre e metal e silêncio. joão é um pouco homem do silêncio e andrógina deusa da terra, sexo sem resposta. o gosto da terra nos dentes, unhas cravadas no instante de nossa morte. morrer de amor, quase sempre, é comer um pouco de terra, concreto, rio, silêncio, palavra, milagre.
não há caminho, joão!


Luiz Henrique Soares (Jaboti, Paraná, 1995). Graduado em Letras pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) – Campus de Jacarezinho. Possui textos publicados em diversas revistas de literatura espalhadas pelo país.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.