Os contos tradicionais que lidam com o fantástico e as metamorfoses permanecem como estruturas de resistência. Se maravilhosos ou de fadas, se folclóricos ou de origem, se escritos em português ou traduzidos, o certo é que resistem ao tempo. Abordam temas universais, proporcionam uma discussão acerca do humano. São histórias que não caíram de moda, nem deixaram de tratar daquilo que é mais caro à infância de todos: a fantasia.
Os contos de fadas são relatos de memórias coletivas, com elementos e imagens que nos remetem às antigas tapeçarias, aos afrescos, aos mosaicos, às sibilas e às velhas contadoras de histórias. São narrativas para todos os públicos, de idades variadas, porque trazem uma simbologia que vai tocar cada leitor de uma maneira própria. Lidam com valores atemporais que podem ser abordados e discutidos aqui e acolá.
No Brasil, Marina Colasanti é escritora consagrada de contos de fadas para crianças e jovens de todas as idades. Além desses, sua produção de crônicas, poemas, ensaios, mini-contos e histórias encantam diferentes gerações. Com dezenas de obras publicadas, premiadas e traduzidas em outras línguas, ela se consagrou pela singularidade da sua linguagem narrativa poética e pelo manejo do ponto de vista da mulher: protagonista, narradora, heroína. Um conto de Marina pode ser lido como um poema. Isso se deve pelo uso de substantivos e verbos, de figuras de linguagem e o ritmo musical do texto que pode reproduzir um tear.
Em 1978, publicou Uma idéia toda azul, com texto e ilustrações de sua autoria, com 10 contos curtos. Pitágoras, filósofo e matemático grego, interpretou o 10 como o Sagrado – onde estaria representada a criação do universo. Onde estaria o sagrado nos 10 contos de Marina? Em sua obra inaugural desse gênero, a autora traz o sagrado da escrita maravilhosa.
Em suas histórias, pouco importa a descrição das personagens, mas a metaforização de verdades humanas, os afetos, o ser nas suas buscas e as descobertas intermináveis da subjetividade. A dissecação da nossa alma. Muitas vezes, não identificamos o local onde se passa a história, nem os nomes de personagens.
Mais adiante, Marina publicou Doze reis e a moça no labirinto do vento (1982), com 13 contos, na sua maioria, com foco nas questões femininas. O 13 pode expressar a irregularidade, a transgressão da ordem perfeita e do equilíbrio. Na numerologia, o 13 envolve mudanças constantes. E isso não seria o que caracteriza a mulher? Um ser em metamorfoses, a exemplo da menarca, das alterações hormonais, da gravidez, da menopausa…
A mão na massa (1990), O homem que não parava de crescer (1995) e Um amor sem palavras (1995) estão publicados separadamente, em volumes únicos, com ilustrações. São obras que trazem transformações, desaparecimentos.
Entre a espada e a rosa (1992) traz 10 contos. Longe como o meu querer (1997) apresenta 24 histórias. 24 é um número frequente nos contos de fadas ocidentais e orientais, pode representar o conjunto das forças humanas.
E mais 23 histórias de um viajante (2005). O número 23 é associado a inúmeras coincidências: de datas, de idades, de soma de números. O Antigo Testamento é composto de 23 livros.
13 narrativas compõem Como uma carta de amor (2014). E 17 estão reunidas em Quando a primavera chegar (2017). Para os gregos, o 17 representava o número de consoantes do alfabeto, em relação com a teoria musical e a harmonia das esferas.
Os dez livros citados estão reunidos em Mais de 100 histórias maravilhosas (2015). Volume também ilustrado por Marina, apresenta desenhos em traços que se assemelham a bordados, em preto e branco. E inúmeras possibilidades interpretativas, não somente para as coincidências (ou não) de números, mas para o fazer de cada personagem.
Nos seus contos maravilhosos, atualmente centenas publicados, a autora costuma abordar (e bordar) questões como o amor, a autonomia, a liberdade, o construir, o recomeçar, a ruptura.
Como falar de contos de fadas, hoje? Essas narrativas milenares têm despertado o interesse de pesquisadores de diversas áreas, com destaque para os estudos psicanalíticos de Sigmund Freud e de Bruno Bettelheim, conhecidos em todo o mundo.
Os vestígios mais remotos da literatura infantil datam de séculos antes de Cristo, com raízes nesses contos. Provêm de fontes orientais e célticas (As mil e uma noites, Calila e Dimna, como exemplos de fontes orientais e Beowulf, Os lais de Marie de France, como exemplos de fontes célticas). A partir da Idade Média, essas fontes foram assimiladas por textos europeus. Como exemplo, O conto dos contos, de Giambattista Basile, século XVII. No mesmo século XVII, a Mamãe Gansa do francês Charles Perrault. Em seguida, os Irmãos Grimm no século XIX, na Alemanha, e Hans Christian Andersen, na Dinamarca, no século XIX, para citar os mais famosos.
No final do século XVII, na França de Luís XIV, surgem as narrativas populares folclóricas, quando a fantasia vai desafiar a lógica. Charles Perrault traz o primeiro núcleo da literatura infantil ocidental: Histórias ou contos do tempo passado, com suas moralidades – Contos da minha Mãe Gansa (1697).
No início do século XIX, reaparece o interesse dos adultos pelas narrativas maravilhosas. Surge o núcleo europeu de estudos filológicos, com os Irmãos Grimm, na Alemanha. A publicação Contos de fadas para crianças e adultos (1812/1822) oferece centenas de relatos maravilhosos ao público.
Logo em seguida, o dinamarquês Hans Christian Andersen (1835/1872) abre caminhos com a fantasia nórdica. É considerado o criador da literatura para a infância e conseguiu a fusão entre o pensamento mágico das origens arcaicas e o pensamento racionalista dos novos tempos. São cerca de 160 contos publicados e traduzidos em centenas de línguas.
Nos séculos XIX/XX, surgiram a Psicologia, a Pedagogia e a Psicanálise, que mudaram a concepção de criança, de fantasia, da psique. Com a Psicanálise, chega uma forma de escutar o outro e de valorizar o estranho que nos habita. O inconsciente é o outro que também faz parte de nós e se revela nos sonhos e em outras instâncias da nossa vida: atos falhos, chistes, lapsos. Sua linguagem é comum à da literatura e de outras artes, pautadas pela leitura das entrelinhas, dos não ditos, das figuras de linguagem (como as metáforas e as metonímias). Isso ajuda a entender melhor o eu e suas contradições.
Por sua vez, os contos de fadas permanecem a serviço da leitura de deleite e também da possibilidade de contato com o desconhecido. Nos relatos colhidos de camponeses, da França ou da Alemanha, estão representações simbólicas dos afetos de antes e de agora: a necessidade de lidar com nossa irracionalidade, com aquilo que não dominamos. Em histórias nórdicas, coletadas ou criadas por Andersen, há valores universais e atemporais: abandono, amor, raiva, incerteza. E nos poéticos contos de Colasanti, o fiar do tempo desafia a solidão das horas que são tecidas pelo destino.
Em “Além do Bastidor”, um dos contos de Uma idéia toda azul, nos deparamos com uma narrativa de caráter metalinguístico e metapoético. O que é o fazer literatura? E o fazer poesia? O texto se concentra em substantivos e verbos, é circular como a linguagem poética de que nos fala o mexicano Octavio Paz.
O bastidor, aro de madeira utilizado para bordar, se aproxima do bastidor onde se passa a própria vida (uma sucessão de ensaios e de recomeços): simbolicamente, o jardim do Éden, da escritura sagrada, de onde mulher e homem, aqui, não são expulsos. Mas onde a bordadeira menina fica aprisionada. Como o gênese da escritura, da arte da palavra, em que a artista fica presa ao escrever. Estaria Colasanti falando do fazer literário?
A personagem borda, a narradora conta, a escritora aborda. Bordar e escrever, coisas feitas a mão, com palavras e imagens. Falam da nossa necessidade de criar, de contar a vida. De sonhar.
Nas entrelinhas, Colasanti nos faz pensar nas mulheres e nos homens. Na construção e na manutenção da vida. Palavras como capim, linha, bordado, caminho, agulha, risco, cesta, ponto, sombra e vento nos desafiam a repensar a vida com a leitura desse conto.
Como nos disse o escritor argentino Júlio Cortazar, o conto breve é uma síntese viva, uma vida sintetizada. O conto de Colasanti é brevíssimo, cortado num suspiro de distração do leitor. Seria do corte da escrita que nos fala a escritora?
O fazer da heroína de Colasanti se concentra em bordar e contar, há uma fusão de narradora/personagem. A autora metaforiza o bordar como tecido, como texto – fios coloridos que constituem a vida.
Interessante como termina o conto: “Então bordou a fita dos cabelos, arrematou o ponto, com muito cuidado cortou a linha”. Com muito cuidado se arremata uma história, um poema. A expressão com cuidado aparece três vezes no conto. A vida carece de cuidado, a literatura se faz com cuidado.
A polifonia do texto de Colasanti traz um diálogo de passado e presente, feminino e masculino, oprimido e opressor, mundo natural e mundo ideal. São muitas vozes e uma escuta singular: a do outro. Do outro que nos habita, do outro que nos faz sonhar. O conto-poema “Além do bastidor” nos remete às questões de ordem política, ideológica, subjetiva, simbólica, literária, mítica: isso é universal!


Ninfa Parreiras (Itaúna, Minas Gerais, 1970). Autora, psicanalista e professora.

Bibliografia

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
COLASANTI, Marina. A mão na massa. Ilustrações da autora. Rio de Janeiro: Salamandra, 1990.
———-. Como uma carta de amor. Ilustrações da autora. São Paulo: Global, 2014.
———. Doze reis e a moça no labirinto do vento. Ilustrações da autora. Rio de Janeiro: Nórdica, 1982.
———. Entre a espada e a rosa. Ilustrações da autora. Rio de Janeiro: Salamandra, 1992.
———-. Longe como o meu querer. Ilustrações da autora. São Paulo: Ática, 1997.
———-. Mais de 100 histórias maravilhosas. Ilustrações da autora. São Paulo: Global, 2015.
———-. O homem que não parava de crescer. Ilustrações da autora. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995.
———. Quando a primavera chegar. Ilustrações da autora. São Paulo: Global, 2017.
———. Um amor sem palavras. Ilustrações da autora. São Paulo: Melhoramentos, 1995.
———. Uma ideia toda azul. Ilustrações da autora. Rio de Janeiro: Nórdica, 1978.
———-. 23 histórias de um viajante. Ilustrações da autora. São Paulo: Global, 2005.
CORTAZAR, Julio. Aulas de literatura: Berkeley, 1980. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.