Quando meu último dente de leite caiu e comecei a ter voz de galo, marquei o glorioso batismo com ovo choco. Fui bem chicoso, com sapato cavalo de aço, camisa de tergal e calça boca de sino. O sino de cobre da igreja baladou meu batismo para um raio de gente numa distância de um a dois metros.
Naquele tempo, quem batizava frango virando galo era juiz de futebol, que tinha uma empresa de guarda-livros. Não era livro de ler, era de escrever contabilidade. Eu gosto de quem guarda livro dentro de si.
Só homens iam no batismo com ovo choco. O frango batizado ficava pelado no meio campo de futebol. Eu até paguei um retratista pra fazer dez binóculos da minha natureza. Quando o juiz começou o interrogatório, meu ficou intestino preso e solto ao mesmo tempo. Ele perguntou: – Teu vô não soltou a franga, teu pai também não. Ocê já pensou nesse porém?
Um protetor de bicho como sempre pensa nisso. Fiz uns passos de catira, com minhas partes balangando, e respondi o porém: – Não sou de prender franga. Pinto tem que viver solto.
O juiz lembrou que eu fiz um espacate no desfile da cidade. Eu pensava que espacate e espaguetti fosse coisa de cama e mesa. É fato que eu peguei o pauzinho da baliza e minha perna abriu 180 graus. Quando eu pulava mata-burro, o meu espacate era de 360 graus, e o mundo achava bonito. O que tem demais eu ter balizo de botina amarela?! Se for assim, todo homem que pula a cerca faz espacate. A última pergunta antes do batismo foi sobre ambição na vida. Meu vô Getúlio Agnaldo Décimo e meu pai Getúlio Agnaldo Ônzimo não encontraram ouro no Sur de Minas. Aí os dois coitados passaram uns tempos em Santa Cruz de La Plata pra juntar moedinhas.
Eu sou protetor de bicho e nunca coloquei moeda de poupança dentro do porco. Meu sonho de vida sempre foi desenterrar morto enricado pra tirar dente de ouro deles. Eu fico um “pão” com aquele sorrisão bem dourado.
Na parte prática do batismo, só levei frango. Era muita bola pra segurar. Aí a homarada correu atrás de mim no campo e me encharcou com ovo choco, em estado bem avançado de podridão. A catinga atingiu um raio de gente de 100 quilômetros. Fiquei uma semana nadando no rebojo, no corgo e no rego.
Antigamente, depois do batismo, frango só virava galo ou galinha. Depois da diversidade da vida, agora ocê pode ser galo índio, carijó, garnisé, galinha de pescoço pelado, d´angola, de granja, botadeira dos ovos de ouro e de Páscoa. Gente desencontrada como eu, que não sabe ciscar na vida, vira frango xadrez, cortado em pedaços. Com a idade, volta a ser pintinho. Parece que eu já voltei.


Sílvio Reis (Rio de Janeiro, Brasil). É graduado em Jornalismo e exerce este ofício há 30 anos. Autor de pesquisas de linguagem, que resultaram em publicação de livros, atualmente ele se dedica à pesquisa, reportagens e artigos sobre a relação “homem-animal”. Os textos são divulgados em diversos veículos de comunicação e no blog vitorioregio.com

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.