Dos vinte e três livros publicados até 2017, a trilogia que se inicia com Livro – um encontro, seguida de Fazendo Ana Paz e Paisagem pode ser considerada um divisor de águas no trabalho de Lygia Bojunga. A publicação datada seguidamente dos três (1988, 1991 e 1992, respectivamente) mostra a necessidade de se falar do processo criativo, visto que antes disso, todos os seus nove livros foram narrativas ficcionais, em sua maioria dedicados às crianças com uso da antropomorfização. Depois da trilogia, toda a obra da autora pode ser caracterizada como ficção para leitores jovens e adultos.
Livro – um encontro aborda a complexa relação com o Livro sobre prismas diferentes, começando com: O que que é “Livro”, incluindo neste capítulo um texto chamado “Livro: a troca”; mensagem escrita para o Dia Internacional do Livro Infantil, em 1983, após Lygia ser agraciada com o grande Prêmio mundial Hans Christian Andersen do International Board on Books for Young People – IBBY, o maior reconhecimento internacional da área de obras para crianças. O capítulo seguinte: “Livro – eu te lendo” nos conta o caminho da autora/ narradora no papel de leitora, relata os autores preferidos no início de sua trajetória como leitora, os quais a autora chama de casos de amor, e alguns títulos de livros lidos e amados. A relação com os autores e livros é tão pessoalizada quanto uma paixão amorosa. O leitor chega a pensar que ela está falando de uma pessoa. De fato, cada livro para Lygia é um ser em estado de vida.
Muitos dos livros mencionados pela autora no capítulo “Livro – eu te lendo” (suas leituras preferidas) se encontram lado-a-lado expostos ao visitante de sua Fundação Cultural como o grande tesouro que são para seu leitor. Estão dentro de um cofre aberto na parede de uma das casas, comprovando a generosidade de Lygia em expor sua leitura particular e afirmando as citações do capítulo mencionado.
No terceiro capítulo “Livro – eu te escrevendo”, a narradora, após ter se apresentado como leitora no primeiro capítulo, se coloca também como escritora, e explica brevemente esse outro lado do texto, a escrita. Como se fosse uma consequência do processo da leitura.
Será em Fazendo Ana Paz, através de uma história ficcional, que a autora aprofundará a escrita como tema. Ana Paz, personagem principal, chega de repente já colocando sua história. Ela tinha então oito anos. Depois some, deixando um início de história inacabada, a escritora/narradora empaca. Na cena dois, como está escrito, aparece uma moça de uns 18 anos que conhece e se apaixona por Antonio. Na cena três, novo personagem entra no enredo, dessa vez uma velha, de cabelos brancos, bengala na mão, prestes a completar 80 anos e a fazer uma viagem ao Sul do país. Essa terceira cena é escrita um pedacinho a cada dia, assim nos conta a narradora. Isso nos faz pensar no processo sem pressa da autora para fazer suas obras. A cena narra suas reflexões sobre a história que não se apresenta, sobre as possibilidades entre personagens, até descobrir que as três personagens são Ana Paz em diferentes idades. A narradora entende então a história que vai contar. E o leitor se veste ora de Ana Paz menina, ora de Ana Paz velha. As cenas são feitas em um processo de introspecção, de diálogo, mesmo que silencioso, com o leitor. As personagens passeiam pela escrita, Ana Paz criança pede, em sonho relatado, para a autora escrever seu pai. A escritora/narradora empaca por mais tempo, escreve até outro livro inteiro! O livro de Ana Paz fica parado, sem conclusão por um tempo. Ao final, a personagem pede para ir viver num livro. Livre! Mesmo com as lacunas de sua história não preenchidas, mesmo não estando assim toda resolvida. O livro ia se chamar Eu me chamo Ana Paz e a pedidos da personagem não é inteirinho rasgado e sim publicado com o nome Fazendo Ana Paz. Nada mais perfeito para contar o processo de escrita do que a própria narrativa em andamento, no gerúndio do verbo, se escrevendo… Como um diálogo autora-personagem, que no fundo, é um diálogo da autora consigo mesma e com o leitor.

Em “Caminhos”, subtítulo do “Pra você que me lê” que consta no Livro – um encontro, Lygia nos conta sobre a trilogia e sobre o que ela chama de terceira parte da laranja, a criação de Paisagem. É nesta obra que a autora dá enfase ao leitor. A paisagem é parte fundamental de uma história dentro de outra história. Para a Escritora, personagem que narra o livro, a paisagem por ela criada é cenário de seu próximo lançamento ainda em andamento. Para duas outras personagens, o Leitor Lourenço e a Ouvinte Menina do Lado, a paisagem é o elo de sintonia entre elas e a escrita singular da Escritora, personagem esta que bem pode ser interpretada por mim leitora, como sendo a própria Lygia Bojunga!
A metaliteratura aparecerá novamente em seu mais recente lançamento, a obra Intramuros. A autora retoma a temática da criação e constrói e desconstrói todo o seu processo de escrita. Como ela mesma diz, a obra nasceu do desejo de fazer “um redondo” do que antes poderia ser visto como um triângulo (a trilogia). Encontramos ainda mais conteúdo para estudos à respeito de sua obra como um todo. Leia Lygia!


Tatiana Kauss (Rio de Janeiro, 1973). É leitora, escritora e estudante de Literatura Infanto Juvenil, YouTuber do canal Histórias da Tati.

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos, escritor e curador de festas literárias.