Prece à mãe

Já percorremos esse caminho outrora
Nos porões úmidos e doentes
Ao som de dor e morte
Com odor de sal e sangue
Atravessamos mata, matagal e cafezal
Mãe preta
Mastigamos sem saliva o adeus a quem ficou
Mastigamos a folha seca da terra que ficou antes do mar
Engolimos a fome de noites infinitas
Engolimos toda história silenciada
Não se desespere mãe!
O que é nosso nunca foi coisa
Nosso nunca foi de se acorrentar
Nem de se afogar
Ou sufocar
Respire mais uma vez
Pois nosso é tudo o que sentimos
Nosso é tudo que aprendemos sem sala de aula
É tudo que sabemos ao fechar os olhos
e ao abrir os ouvidos de dentro
Olhe pra tudo de novo Mãe Preta
Olhe pra saia rasgada que boneca foi
Olha pro leite negado que pro branco foi
Olha pra cria subtraída pela tortura
Pra cria que foi só sua
E sua não foi no contrato
Mãe preta seu nome
É de todas as mães que amassaram esse chão maldito
Toda mão de preto que colheu o algodão branco
Todos as rainhas e reis que perderam o reino
Seu nome é que ecoa na batida dura da mão sobre o couro
Seu nome é que chamamos na hora de dor
Seu nome é que chamamos quando pensamos amor
Mãezinha
Nada tem de menor
Nada diminutivo
A grande gestora
Genitora
A genética
E a gênese
Mãezinha
Grande
A grande saia, grande asa, grande abraço
Olha pra mim mãe preta
Quanto morro eu já subi
Lágrima sozinha espalhada na fronha
Contigo aprendi a parir
Filho no colo, filho nas costas
Filho nos braços
Chegando e saindo
Quanto filho perdido
Filho arrastado, filho amarrado
Crescendo e correndo
Quero ver filho voando Mãe!
Quero ser de ti minha Mãe!
Quero ser tua filha a voar!


Jéssica Regina da Silva Maria (Barra Mansa, Rio de Janeiro, 1991). Atualmente publico minhas poesias em redes sociais. Vendo meus livros artesanais, com obra adulta e infantil em eventos abertos e nas ruas e participo de concursos literários

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos, escritor e curador de festas literárias.