Quando José Saramago faleceu em 2010 houve certo alarde pelo fato dele estar escrevendo um livro que, com sua morte, ficou inacabado. Somente em 2014 foram publicados os poucos capítulos que ele escreveu, e algumas anotações, do “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”. Que esse fragmento de romance tenha despertado interesse é algo natural. Contudo, diante do fato de que temos muitos outros textos que nunca foram publicados em livro, essa publicação é algo de menor importância. Existem muitos outros textos a serem publicados, de maior importância, e que muito lentamente estão sendo publicados.
José Albino Pereira, por exemplo, foi o organizador (e responsável pelas notas) do livro “Rodrigues Miguéis – José Saramago – Correspondência – 1959-1971”, publicado em 2010 pela Editorial Caminho. Essa foi a primeira coletânea de cartas a ser editada e é uma obra muito mais importante do que o “Alabardas” e teve muito menos repercussão. Tanto é que nunca foi publicada no Brasil e é praticamente desconhecida por aqui e em outras partes do mundo. Sabemos que o escritor se correspondeu com várias pessoas ao longo de sua vida, mas esse é um aspecto pouco conhecido de sua obra e que tem sido ignorado pelos leitores, pesquisadores e mesmo pelas editoras.
Nesse sentido, a publicação de “Com o Mar Por Meio – Uma Amizade em Cartas”, pela Companhia das Letras em 2017 é de suma importância. Não só por trazer a publico material inédito do escritor e de Jorge Amado, mas por a segunda coletânea de cartas do autor. Isso pode inspirar a publicação de novos volumes de correspondência nos próximos anos porque há muito material a ser explorado. Gilda Santos, por exemplo, no artigo “Espreitando uma correspondência inédita: Jorge de Sena/José Saramago”, fala sobre as “as 46 missivas assinadas por Saramago” e sobre as “41 de Jorge de Sena, das quais 17 estão extraviadas” [1]. Até onde sei é o único artigo que conheço dedicado ao estudo de parte de sua correspondência.
Assim, entre 2010 e 2017, saíram somente três livros de inéditos. É muito pouco se formos comparar com o que tem sido feito para a publicação dos inéditos do poeta português Fernando Pessoa ou do poeta espanhol Juan Ramon Jiménez. Ainda mais, pelo fato de que, em 2008, a exposição “José Saramago. A consistência dos sonhos” revelou a existência de muitos textos.

Nesse sentido, o livro “A consistência dos Sonhos: Cronobiografia”, de Fernando Gomez Aguilera, é a principal fonte para quem quer conhecer melhor esse material. Além de falar de vários inéditos – como cartas, contos e poemas – ele reproduz as fotografias de alguns desses manuscritos. Infelizmente, por razões desconhecidas, isso não levou a publicação desses textos.
Mesmo que não tenham a mesma qualidade do material publicado ao longo de sua vida, algo que só poderemos avaliar após a leitura e o estudo deste material, seria interessante e importante que fossem publicados. Assim, por tudo o que foi dito, podemos dizer que ainda não conhecemos totalmente a obra do escritor. Esperemos, então, que nos próximos anos novos volumes sejam publicados. Ou que, pelo menos, os estudiosos de sua obra se dediquem a estudar esse material [2] e possam contribuir para um melhor conhecimento da obra de Saramago.

notas

[1] Gilda Santos, Espreitando uma correspondência inédita: Jorge de Sena/José Saramago, IPOTESI, Juiz de Fora, v. 15, n. 1, p. 225, 2011.

[2] Poderíamos incluir também o estudo dos livros de sua biblioteca e das anotações feitas em seus livros. Uma prática que tem contribuído para uma melhor compreensão da obra e do pensamento de alguns escritores, como Fernando Pessoa, por exemplo. Assim, como dos prefácios que ele escreveu, de suas traduções e dos textos jornalísticos que ainda não tenham sido reunidos em livro.


Rodrigo Conçole Lage (Itaperuna, Rio de Janeiro, 1976). Graduado em História (UNIFSJ). Especialista em História Militar (UNISUL). Professor de História da SEEDUC-RJ, Tem artigos e resenhas publicados em revistas acadêmicas do Brasil e do exterior.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.