Resistir é uma ação que corre pelas veias do povo indígena brasileiro, que não é uma escolha, mas a única maneira de ainda continuar existindo. Ontem escravizados pelos colonizadores, hoje ameaçados pelos ternos e togas e o amanhã ainda incerto, mas já com suas terras prometidas para o poder econômico. A luta é pela permanência no território e pela perpetuação de suas culturas e por isso são corpos ameaçados a todo instante, ou seja, país anti-indígena é um país sem o desejo da diversidade cultural e sem a proteção do meio ambiente.
Ora, para desenvolver um país, precisa matar? Para o poder econômico sim. E isso não faz o menor sentido para os povos indígenas, desmatar a floresta que vão morar, matar um rio que vão beber água ou matar os animais que vão caçar para se alimentar? Por quê e para quê?
Disputar com o grande poder é uma tarefa árdua, ainda mais quando trata de governo, empresas ou ruralistas, a propaganda pelo desenvolvimento é diária e encanta as pessoas todo dia, mas se escondem atrás dos piores crimes. Os indígenas também têm suas simbologias e significados para resistir a isso, sabem criar uma forma didática e encantadora para se comunicar e as usa em suas ações de forma brilhante. É usado nos cantos, nas danças, nos rituais, nos artesanatos e na forma de se posicionar politicamente.
Lembro de várias cenas impactantes dessas lutas e que fizeram história na vida de muitas pessoas, o quanto é impactante ver um povo indígena cobrar pelos seus direitos, sim é, porque durante muito tempo foram criminalizados e esquecidos. Quem não é visto não é lembrado… Então a disputa da imagem nesse sentido sempre foi muito forte e pude fotografar algumas delas.
Mas antes, vou relembrar algumas. Com o avanço da tecnologia e da produção de imagens, fotografias icônicas da luta indígena foram divulgadas em todo mundo onde eles mesmo puderam narrar os fatos e suas histórias, ressignificando a lógica colonizadora. Um exemplo disso é a foto histórica da Tuíre Kayapó que ao sentir a ameaça da construção da represa Belo Monte sobre o Rio Xingu, levou o seu facão até o engenheiro chefe do projeto, passou a lâmina em seu rosto e disse: “A eletricidade não vai nos dar a nossa comida. Precisamos que nossos rios fluam livremente. O nosso futuro depende disso. Nós não precisamos de sua represa”. O fato que repercutiu o mundo e foi peça chave para que houvesse uma discussão mais aprofundada para a implementação da hidrelétrica de Belo Monte, inúmeros fotógrafos registram esse momento.

Fotografia da Ìndia KaiapÛ TuÌra ao esfregar o facão no rosto do diretor da Eletronorte durante no Xingu. Altamira, Pará; Brasil. Foto Paulo Jare, 1989

Outro momento, mas pelo olhar de uma fotógrafa específica e que suas imagens tiveram um papel crucial, foi na sangrenta corrida do ouro em Roraima, também nos anos 80/90 no território Yanomami. Um momento que poderia ser esquecido se não fosse o olhar da fotógrafa Cláudia Andujar que acompanhou o povo Yanomami por cerca de 30 anos de sua carreira e as imagens foram publicadas nos mais importantes jornais e revistas do mundo. “O garimpo estava destruindo o território Yanomami e até hoje ainda lutam contra isso… Minhas imagens eternizam esse momento e quanto mais elas rodam pelo mundo, mais pessoas refletem sobre esse assunto, o que torna a luta sempre presente.” me falou Cláudia Andujar, para essa entrevista.

Fotografia dos índios Yanomamis por Claudia Andujar.

Não só a imagem estática foi fundamental para os povos indígenas, mas a imagem em movimento também. A liderança Ailton Krenak foi central nos anos 80 para a garantia dos direitos fundamentais dos povos na Constituição Federal de 1988 e no Congresso fez um discurso arrepiante na Assembleia Nacional Constituinte pintando o rosto de preto, em sinal de protesto aos retrocessos dos direitos do seu povo, que repercutiu por todo mundo. Ainda nem era nascido nessa época, mas pude ver no filme Índio Cidadão? do diretor Rodrigo Siqueira, responsável pela obra e lá estava a cena emocionante.

Fotografia de Ailton Krenak na tribuna do Congresso, frame retirado do filme “Índio Cidadão?”.

E esses três exemplos rodaram o mundo sem sequer ainda existir internet. Em pleno século XXI, vivemos um mundo contemporâneo conectado onde a informação clara, rápida e impactante é a maneira mais eficiente de prender a atenção dos olhares digitais. A disputa nas redes sociais é feroz, as informações têm prazo de validade curta e somente grandes ações e grandes imagens para fazer um país anti-indígena a olhar para tais questões.
Isso é disputar imaginário, diga-se de passagem, o movimento indígena sabe fazer muito bem. Podem não ter força política dentro dos espaços de poder, muito menos financeira e atualmente tampouco de massa, já que não chegam ao total de 1 milhão, mas sabem disputar imagem como ninguém. A luta continua, agora não só nas aldeias ou nas ruas, mas também nas redes.


Christian Braga fotógrafo, ativista e manauara. Apoiador do movimento indígena há 5 anos e um eterno admirador dessas ações. “Deixo uma seleção de fotografias que realizei nesses últimos 2 anos para colaborar com a edição do abril indígena para a revista Philos”.

Posted by:Jorge Pereira

Jorge Pereira (Recife, 1994). Produtor cultural e agente literário baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e membro do Oi Kabum! LAB do Oi Futuro.