Num apanhado por diversas regiões brasileiras é curioso saber que motel é popularmente chamado de “casa de instantinho”, em Santa Catarina. “Casar atrás da porta” é amigar-se em Goiás, onde “fechar a porteira” é casar-se com viúva. “Peixão” tanto pode ser homem ou mulher atraente no Rio de Janeiro, mas “vaselina” para os cariocas tem significado de conversa convincente.
O Brasil não conhece o Brasil. Sérgio Freire, no livro Amazonês, ajuda a entender melhor a linguagem de uma parte do imenso Norte do País. Nesta região, o , de Cristiano Ferreira Fraga, oferece um registro diversificado que inclui novas expressões meio proverbiais: “Lugar grande, morar nele; lugar pequeno, passar por ele”.
“Já hojinho”, para quem tem pouco tempo” se apresenta originário de dois estados. Estss curiosidades motivar leituras e pesquisas. “Estar de boi” ou “chegar de boi” é definição popular de menstruação em Pernambuco. No Piauí, “ver alma de bigode” é ficar em situação difícil. Enquanto capixabas empregam a palavra “cara” apenas para referir a animais – defendendo que pessoas têm rosto -, cariocas usam cara para falar de homens e mulheres.
O filme de produção cearense Cine Holliúdy utiliza termos do Dicionário de Termos Nordestinos de Gilberto Albuquerque. É um Brasil poliglota. Ainda no Ceará há duas interpretações e imagens para definir ânus: ás de copas e anel de couro. Na Bahia, “bleforé e caga-fumo” são bailes de ínfima categoria. Ouvindo essas e outras, alguns goianos ficarão envergonhados e “montarão no gavião”. Os “trelentes” – conversadores – podem até gostar, mas para outras pessoas tudo isso é “lereia” – conversa mole para iludir alguém.
O registro de patrimônios orais e imateriais tem contribuído para a valorização da língua. “Ixi, bocó, só me falta essa lestadaisteporá nossa fextênha” faz parte do linguajar nativo da Ilha de Santa Catarina. A tradução – só falta o vento leste estragar a festinha – é encontrada no Dicionário da Ilha: Falas e Falares da Ilha de Santa Catarina, de Fernando Alexandre, e Dicionário de Regionalismos da Ilha de Santa Catarina, de Ilson Wilmar Rodrigues.
A língua portuguesa no Brasil é tão rica que, muitas vezes, é preciso tradução. Esta foi a intenção de publicar o (dicionário) Léxico de Guimarães Rosa, em que Nilce Sant´Anna Martins selecionou oito mil verbetes e neologismos utilizados pelo escritor em seu conjunto de obras. É a linguagem predominante no Norte de Minas.
Numa microrregião do Sul de Minas, os jornalistas Sheila Saad e Sílvio Reis coletaram cerca de duasmil expressões populares para a coluna do jornal e da revista Atitude Interior. Posteriormente, a metade dessas expressões originou dois livros de bolso (e de bolsa): Boca a Boca. Uma das pérolas regionais é: “escuta pra ver e me pensa o seguinte”.


Sílvio Reis (Rio de Janeiro, Brasil). É graduado em Jornalismo e exerce este ofício há 30 anos. Autor de pesquisas de linguagem, que resultaram em publicação de livros, atualmente ele se dedica à pesquisa, reportagens e artigos sobre a relação “homem-animal”. Os textos são divulgados em diversos veículos de comunicação e no blog vitorioregio.com

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.