embargo

Romper o sexo da palavra
Comprar a chuva daquela rua
por alguns momentos:
macular o tempo e seus oceanos.

Roubaram minha língua, meu poema
minha vida e meu país
mas eu permaneço
numa voz que canta desapontada.

O medo é a nudez que te apavora
que esgota tua íris tóxica
uma samambaia aflita pra doer
a fila solitária do cinema.

Meu coração é um mugido de espelhos
e nesse episódio um mundo estranho acontece,
o presente cheio de milagres e de perdas.

A vida é matéria, sede e linguagem
um aceno que se apaga na noite:
o nascimento das pedras e das estrelas.


Clarissa Macedo (Feira de Santana, Bahia, 1988). Doutoranda em Literatura e Cultura. Publicou O trem vermelho que partiu das cinzas e Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014).

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.