Ciça Fitipaldi iniciou-se como ilustradora em 1973 e nos anos seguintes escreveu e ilustrou a série Morená, oito livros, frutos de suas andanças e vivências pelas tribos indígenas amazônicas. Nesses livros, os mitos indígenas são recontados e nos dão a oportunidade de mergulhar na cultura de diversos povos, um trabalho inédito e pioneiro na literatura. Veremos aqui dois desses mitos.
A Lenda do Guaraná – Mito dos Saterê Maué, conta a história do surgimento da tribo.
“Diz que lá na lonjura do tempo, no comecinho de todas as coisas, vivendo ao longo dos rios e dentro das matas, existiam três irmãos. Dois homens e a irmã, Oniamuaçabe, moça muito bonita a quem também chamavam Uniaí.”
Uniaí vivia com os dois irmãos num lugar encantado, o Noçoquem, onde conhecia todas as plantas, de comer, de curar, de fazer cuias, de fazer colares. Os irmãos não queriam que ela casasse, pois tomava conta de tudo por ali. Mas nessa época todos os bichos e gentes gostariam de casar com ela.
Uniaí encantou-se pelo perfume da cobra Moikyte e de uma simples troca de olhares engravidou.Os irmãos não queriam dividir a riqueza de Noçoquém e a irmã com ninguém e ficaram furiosos. Então, ela foi embora. Fez sua casa longe, perto de um rio. E o menino cresceu forte e curioso para conhecer a terra dos tios, e comer as frutas e castanhas de lá. A mãe contava dos perigos, mas seu desejo era mais forte.
Certa vez, a mãe o levou e assou castanhas para ele, mas os vigias do lugar – a cotia, o periquito e o macaco – os denunciaram. Em sua segunda visita, sozinho, o menino foi flechado e caiu como os ouriços da castanheira.
Uniaí chorou tanto e da tristeza fez a força. Fez do menino semente da planta mais poderosa que já existiu e o plantou.
“Grande será, curador dos homens!
Todos terão que recorrer a você
Para acabar com as doenças,
Para ter força na guerra e no amor.
Grande será”
Assim, do olho esquerdo do menino, nasceu o falso guaraná “uaraná-hop” e, do direito, o guaraná verdadeiro “uaraná- cecé”. Por isso, quando a semente de guaraná rompe, a casca tem um olho espiando a gente lá dentro.


Pepita Sampaio (Cabo Frio, Rio de Janeiro, 1973). Escritora, dentista e pesquisadora de gastronomia.


Bibliografia:
FITTIPALDI, Ciça. A lenda do guaraná mais três histórias indígenas. Ilustrações da autora. São Paulo: Melhoramentos, 2015.
FITTIPALDI, Ciça. O menino e a flauta mais três histórias indígenas. Ilustrações da autora. São Paulo: Melhoramentos, 2015.
Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.