O ufanismo é a cura e a doença de qualquer nação. Diferentes doses do mesmo veneno escorrendo sobre a pele fraca, na carne viva debaixo de um único sol. É difícil existir, portanto, um Nacional sem –ismo. Quando em terras brasileiras, imaculadas, tropicais e virgens, brotou-se um –íma. Permaneçam, por favor, sentados, mas não adiantem os relógios. Cada qual bate um horário diferente. Mario de Andrade, de manhãzinha, prenunciou a terra natal em que pisamos. Bem vindos à Mãe Gentil Macunaíma.
Nascida do mato-virgem, a obra-prima-pau-brasil impulsionou, no auge de seu sucesso canônico, a visão da malandragem, do mestiço messiânico que sentiu nas costas o peso do mundo. Ela encontrou na sátira, na rapsódia e na antropofagia a potência de criação do herói sem caráter, a caráter, que sobreviveu como fronteira cultural de uma mesma nação durante 90 anos. A intenção foi homérica e a execução foi tão formidável que hoje sobra quase nada de novo a se escrever sobre o livro.
Quando nasce Macunaíma, Mario de Andrade impulsiona o mesmo sentimento selvagem que simultaneamente dividia seus ares com o Manifesto Antropófago, gêmeo quase-siamês de Oswald em berço de Tarsila do Amaral. A retomada das culturas originárias, das múltiplas peregrinações mitológicas latino-americanas, abriu espaço para o princípio de uma nação barroca por excelência e mestiça por (falta de) opção. O orgulho clandestino da mistura entre as diferentes etnias se transporta e sobrevive até os dias de hoje na mesma tríade que já previa Silvio Romero, dividindo-nos em europeus, africanos, indígenas e in-betweens, amém.
A ideia da junção nacional uníssona é linda, e duro mesmo é não cair de joelhos a adorá-la. A reafirmação da identidade indígena e plural da mestiçagem serviu com êxito para a criação de uma semelhança nova e embebida pelos seus próprios aspectos originários, embasando-se neles com os olhos no futuro e no vasto horizonte a ser explorado – novas terras, nova pátria, nova gente. Foi confabulada a possibilidade de existência de um mundo inédito que não era apenas uma ramificação das fórmulas eurocêntricas. E Deus fez a luz.
O pastiche, o cômico e o coloquial inteligente da antropofagia de Macunaíma muito dizem respeito ao caráter sem caráter que é proposto. Eles são um campo de rebeldia morna em que se honram as Letras eruditas, porém abrem espaço para o popular, a origem vocálica, fantástica, mágica, híbrida e sobrevivente: o diferente experimental e Selvagem. O herói Macunaíma encontra com inocência irônica o deus Cidade e desbrava o mundo-maquinário. Ele representa por meio de sarcasmo o desejo de se tornar o homem branco e europeu, príncipe do universo moderno. Mas ele próprio é príncipe de seu povo, entre os mosquitos e os jacarés. Ele revive a vontade, falta e recém-orgulho do que é ser brasileiro.
Entretanto, o levante de um universal é sempre a eleição de um particular enquanto lei sobreposta ao restante do público. A união de semelhantes pela máxima da diferença também compactua com o encaixotar-se num único aglomerado. O orgulho mestiço não deixa de ser uma promessa sorrateira de um possível branqueamento. A aberração híbrida do brasileiro talvez não seja do fenótipo ariano europeu, mas, ao mesmo tempo, se recusa, em partes, a admitir ser parte dos escravos afrodescendentes ou dos povos originários minorizados. O brasileiro é todos porque também é nenhum deles e pode, com isso, perder-se na vastidão do mar, no lodo da selva. Criamos novos sintagmas somente quando não estamos satisfeitos com os já existentes. O manifesto macunaímico e antropófago partiu, sobretudo, de homens brancos.
E a vida é uma contínua criação de conceitos, uma inédita reutilização de velhos tempos verbais. Macunaíma é um processo ainda eterno, saturado na pele e na alma de seu país. Mesmo que sua história heroica tenha terminado e sua vitória perecido, ele continua conectando um mundo antigo através do mesmo Brasil globalizado deste segundo. Faltam 256 dias para acabar o ano. Estamos escondidos debaixo da sombra de uma grande árvore e precisamos do mito, da lenda que nos abraça como um coração de mãe e nos retorna à realidade quando estamos perdidos. Utilizamos deste calor gentil e materno para enaltecer o que nos promove e para enevoar o que nos “des”favorece. Isso tudo porque, se Mario de Andrade somente escrevesse por mesóclises, todos macunar-nos-íamos, e então a festa estaria feita.


Rafael Muniz Sens (Florianópolis, 1995). Bacharel em Letras e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.