Conto do livro “Dicionário de línguas imaginárias” de Olavo Amaral, gentilmente cedido pelo autor.

Dentre os grupos étnicos tidos como extintos no sudoeste da Amazônia, uma das regiões de maior riqueza linguística da América do Sul, poucos possuíram hábitos tão peculiares como os Yualapeng. Originários de um fértil vale na província de Santa Cruz, sua civilização existiu desde seus primórdios em meio a uma área ocupada por caçadores-coletores de origem guarani, que mais tarde viriam a se difundir pelo território amazônico. Em contraste com o nomadismo de outros povos da região, acredita-se que os Yualapeng jamais deixaram seu vale de origem, onde escavações revelaram sinais de sua existência desde cerca de 500 d.C. até o momento de seu contato com mineradores espanhóis, no ano de 1854.
O rápido desaparecimento da tribo poucas décadas após sua descoberta, ao que tudo indica relacionado à varíola ou à gripe, faz com que a cultura dos Yualapeng permaneça em grande parte uma incógnita. É provável que nunca saibamos como eles lograram sobreviver tanto tempo em um mesmo lugar: se possuíam técnicas agrícolas mais avançadas do que as tribos vizinhas, ou se teriam formado um entreposto comercial para o intercâmbio de mercadorias. Em relação aos costumes e ritos tribais, os relatos são igualmente fragmentários, e os poucos objetos de arte remanescentes encontram-se espalhados em péssimo estado de conservação por museus provincianos da Bolívia.
Por um inusitado golpe de sorte, porém, o vale dos Yualapeng foi o destino de um dos únicos linguistas do século xix a se aventurar na América do Sul, o francês de origem catalã Gérard Valdès. Durante o tempo que a tribo sobreviveu após o contato, Valdès esteve entre eles durante cinco anos, período em que aprendeu o suficiente de sua língua para escrever uma gramática e um dicionário básico. Após a diáspora da tribo, foi também ele um dos responsáveis por estimular os descendentes dos Yualapeng a aprenderem o idioma de seus ancestrais e o passarem adiante. Estima-se que hoje cerca de trinta e sete pessoas na Bolívia e dez no Brasil falem o Yualapeng. E é somente a dedicação desses indígenas em preservar o idioma que faz com que ele ainda sobreviva, mais de cem anos após o fim da civilização que o originou. Entre as peculiaridades da língua Yualapeng, Valdès menciona uma como particularmente notável em seus escritos:

“Dos conceitos básicos de geometria que se podem depreender do estudo do Yualapeng, chama a atenção a ausência de referências de trajetória, como ‘ir’, ‘vir’ e ‘voltar’. Ainda que os termos utilizados para descrever conceitos espaciais estáticos (pontos cardeais, frente e trás, esquerda e direita) lembrem os de outros idiomas da mesma raiz, quando um Yualapeng entra em movimento ele jamais dirá que está indo para algum lugar além do próprio lar. Se perguntado para onde vai, mesmo que tenha recém-saído pela manhã rumo ao trabalho na roça, sua resposta será sempre ‘para casa’ (tar awak), ou, mais precisamente, ‘para casa, passando pelo trabalho’ (sik peng tar awak).
“Da mesma forma, o verbo uok (o único que expressa movimento para os Yualapeng), ao referir-se a um deslocamento em direção ao vale, à aldeia ou à própria casa, não merece complemento algum, como se uok por definição pudesse ser traduzido como ‘voltar’, ou mover-se em direção ao local de origem. Ao passo que o deslocamento para qualquer outro lugar utilizará o já discutido formato uok sik peng, algo como ‘voltando pelo trabalho’, ou mesmo uok sik peng tar awak (‘voltando pelo trabalho para casa’ ), mesmo que o indivíduo tenha acabado de botar os pés fora de casa. Por isso gosto de definir uok como um vocábulo múltiplo e intraduzível em francês, representando ao mesmo tempo os verbos aller e revenir, já que para os Yualapeng não parece haver distinção entre os dois conceitos.”

A ausência de definição sobre a direção do movimento no idioma dos Yualapeng perturbou o linguista durante todo o tempo quepermaneceu entre eles, e motivou uma das primeiras tentativas de que se tem notícia de introduzir conceitos europeus em uma língua indígena. Conta-se que por vários meses Valdès esforçou-se, sem sucesso, em disseminar uma nova palavra, uey, para definir um movimento de partida na língua Yualapeng, em oposição ao já mencionado uok. Tais tentativas, mesmo que realizadas com afinco junto aos membros mais esclarecidos da tribo, como pajés, curandeiros e intérpretes, acabaram sempre caindo por terra.
Para introduzir o conceito de uey aos nativos, Valdès costumava basear-se em situações que lhe pareciam exemplos claros de partidas ou afastamentos. Um de seus favoritos era “Siwathak lay uey singha lukluk ik nay uok” (“o vovô Siwathak partiu para a floresta e nunca mais voltou”), referindo-se à lenda de um dos míticos fundadores da tribo que, enlouquecido por consequência de um feitiço, teria abandonado o vale e saído sem rumo pela floresta até desaparecer. Mas os Yualapeng seguiam sem entender o conceito, e a descrever sua trajetória como “Siwathak lay uok sik singha lukluk” (“o vovô Siwathak voltou pela floresta”). E quando Valdès argumentava que ele jamais voltara, os nativos prontamente respondiam “mas claro, isso foi porque uma onça deve tê-lo comido pelo caminho”, como se o fato de a trajetória ter sido interrompida não consistisse em absoluto prova de que ele não estivesse voltando.
Valdès então tentou o exemplo “Iriath kahn uk uakti ik uey Suyé kahne y malma tré tré Malmak”, ou seja, “o príncipe Iriath traiu a tribo e foi atrás da princesa Suyé da tribo inimiga Malmak”, ao que os nativos novamente corrigiram-no dizendo “Iriath kahn uk uakti ik uok sik Suyé kahne y malma tré tré Malmak”, ou seja, “o príncipe Iriath traiu a tribo e voltou com a princesa Suyé pela tribo inimiga Malmak”. E aos argumentos do linguista de que o príncipe acabara desertando para a tribo adversária, a ponto de haver temores de que ele pudesse liderar em breve um ataque dos Malmak ao vale dos Yualapeng, eles simplesmente responderam “claro, nós não dissemos que ele estava voltando?”.
Após inúmeras tentativas frustradas, perplexo com o que parecia representar uma incrível forma de cegueira cognitiva, Valdès foi à cúpula dos anciãos da tribo expor sua visão do problema. Introduzir um conceito de “ir”, em sua opinião, seria fundamental para o desenvolvimento dos Yualapeng, particularmente para futuras empreitadas de colonização dos vales vizinhos. Os anciãos, já cientes das tentativas informais de Valdès de introduzir mudanças no idioma, ouviram a exposição do linguista sem esboçar reação. Ao final, o mais velho entre eles respondeu com um único gesto da mão direita, convocando os guardas a amarrarem o francês e o prenderem em uma cabana afastada do povoado.
Após uma noite de angústia, em que temeu que suas intenções civilizatórias viessem a lhe custar a vida, Valdès foi acordado no início da manhã por uma comitiva, liderada pelos anciãos e acompanhada por inúmeros curiosos. Depois de ser tirado da cabana onde se encontrava preso, foi levado até o descampado em frente à aldeia, de onde saía o caminho que levava para fora do vale. Ao lá chegar, foi solto e ouviu o ancião-chefe pronunciar uma única palavra:
“Uey.”
Ao que ele prontamente entendeu que o indígena estava abrindo uma exceção à sua teimosia linguística e adotando pela primeira e última vez a palavra introduzida por Valdès, com o intuito único de expulsá-lo da tribo. A ironia sempre fora uma característica marcante dos Yualapeng, e não parecia uma surpresa que eles o dispensassem daquela forma. Desolado com a rejeição do povo ao qual tanto tinha se dedicado, e temeroso do destino que lhe esperava ao partir sozinho, o francês apanhou a mochila e começou sua caminhada sem olhar para trás. Em pouco mais de dez minutos, porém, ainda sem ter se afastado do vale, surpreendeu-se ao se ver cercado por um grupo de guerreiros da tribo, que tornaram a prendê-lo e amarrá-lo. Sem entender nada, Valdès foi levado de volta ao descampado de onde havia partido, para logo após ser novamente solto perante os anciãos.
Sem saber o que se esperava dele, o linguista olhou confuso para a pequena multidão ao seu redor. Atrás de si, percebeu a trilha de pegadas vermelhas que ia na direção em que tinha rumado, e constatou que as solas de seus sapatos haviam sido manchadas com tinta de urucum antes de sua partida. Enquanto tentava compreender o que se passava, viu os homens da tribo trazerem um pesado instrumento de madeira, que ele reconheceu como uma espécie de conjunto primitivo de régua e compasso. O instrumento foi entregue a Valdès pelos nativos, que passaram a aguardar que ele tomasse uma atitude. Como o linguista permanecia perdido, um dos anciãos tomou a frente, apanhou o compasso e partiu na direção das pegadas.
Cautelosamente, o ancião foi percorrendo a trilha deixada por Valdès, enquanto este o seguia de perto, escoltado pelos guardas. Com a ajuda dos homens mais jovens, o velho foi traçando no chão o caminho que o linguista tomara e calculando o ângulo das curvas que ele havia feito, que eram muitas — afinal, a área era cheia de mata densa e era difícil caminhar em linha reta. A destreza do velho em manejar o instrumento era notável, e em pouco tempo ele chegou ao final do percurso de Valdès, informando, após alguns cálculos mentais, o ângulo total de curvatura de sua trajetória. Satisfeito, o ancião entregou o compasso ao francês e lhe propôs uma tarefa: ele haveria de seguir andando naquela direção, mas respeitando sempre a curvatura em que havia inicialmente caminhado.
Ao ouvir os protestos do linguista, que alegou que deixar a trilha para caminhar em uma direção arbitrária pela floresta seria suicídio, o ancião prontamente designou um dos jovens guerreiros para acompanhá-lo. Mas Valdès permaneceu desconfiado, sem entender do que se tratava aquilo, e só foi convencido a seguir as ordens do ancião quando as lanças dos guardas se puseram em riste. Sem opção, ele por fim apanhou o compasso e partiu com o instrumento em mãos, traçando sua trajetória nas engrenagens de madeira com a ajuda de seu companheiro indígena.
A enigmática tarefa foi a princípio tomada por Valdès como uma provação incompreensível, proposta pelos anciãos com o intuito de aumentar a dificuldade de sua jornada. Algum tempo depois do início da caminhada, no entanto, ele começou a intuir o que se passava. E quando duas horas depois, sem nada fazer além de manter o ângulo em que saíra caminhando, o linguista se viu subindo uma das trilhas de montanha que levavam ao vale, ele soube que estava certo. Ao chegar a um ponto alto do caminho, Valdès viu a tribo reunida em peso no descampado que havia sido seu ponto de partida. Logo os nativos também o avistaram e, às gargalhadas, aplaudiram efusivamente seu largo movimento de meia-volta.
Carregando o compasso de madeira com o corpo encurvado, o linguista finalmente chegou à praça central da aldeia, onde o ancião-chefe recebeu-o com uma única palavra:
“Uok.”
E nada mais disse.
Contaria Valdès mais tarde em suas anotações:

“Tomando-se por princípio que as trajetórias dos seres no espaço nunca são retas perfeitas, depreende-se que, ao tomar-se a curvatura de qualquer trajetória e prolongá-la por uma extensão suficiente, a linha necessariamente acabará por curvar-se o bastante para andar na direção contrária. É sobre esse princípio que os Yualapeng baseiam sua utilização universal do termo uok: existem as chamadas voltas de curva fechada (uok kah), que correspondem ao que seria expresso em francês por revenir ou retourner, e que em minutos ou horas chegam ao seu ponto de partida; as voltas de curva um pouco mais aberta (uok lay), que levam dias, meses ou mesmo anos até virarem na direção contrária; e as voltas de curva muito aberta (uok phlau), que podem levar séculos até iniciarem seu movimento de retorno. O que para alguns pode parecer sem sentido, já que nenhum de nós viveria os séculos necessários para completar uma uok phlau. Mas se a questão for colocada aos Yualapeng, sua resposta será apenas ‘Ikh pah uok sehn’, ou ‘a volta não tem culpa’, o que é um argumento incontestável. Pois se a duração da vida não permite que uma volta se complete, não é por isso que ela deixará de ser uma volta.”

A civilização Yualapeng se desmantelaria poucos anos mais tarde, depois de sucessivas ondas de doenças virais levarem os nativos restantes no vale a partirem numa fuga do que acreditavam ser um feitiço dos maus espíritos. E os últimos relatos de Valdès contam que os Yualapeng seguiram descrevendo sua partida do vale como uok mamat yuleyule pahl, ou “volta grande para enganar os fantasmas”. Utilizando o mesmo verbo que sempre tinham usado para seguir em frente, como se fosse apenas natural pensar que sua fuga não era mais do que uma nova curva, ainda que particularmente aberta, em direção à terra natal.
Após a morte de Valdès, o conhecimento sobre os Yualapeng se restringiria a relatos fragmentários de antropólogos que o sucederam, e pouco se sabe sobre o paradeiro dos remanescentes da tribo. Ainda assim, levantamentos étnicos recentes na face amazônica dos Andes têm mostrado que a influência da cultura dos Yualapeng na região é maior do que se pensava. Além disso, a evasão da tribo fez com que seus descendentes mestiços se espalhassem pela América do Sul, o que começa a ser comprovado pelo estudo de marcadores genéticos.
De modo que, se a civilização Yualapeng é hoje apenas uma memória longínqua, sua herança e seu espírito seguem intactos. E é possível que seus ritos ainda vivam dentro de tantos de nós, que seguem voltando por todos os cantos do mundo para seus verdejantes vales de origem, como tantas vezes fizeram seus ancestrais.


Olavo Amaral (Porto Alegre, 1979). Vive no Rio de Janeiro. É autor de Estática (IEL-RS, 2006) e Correnteza e escombros (7Letras, 2012), este último um dos finalistas do Prêmio Açorianos 2012. Em 2013, foi vencedor do Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães com textos que compõe o atual Dicionário de línguas imaginárias. Além dos livros publicados, participou de diversas coletâneas e sites literários como Argumento, Cronópios e Bestiário, tendo sido recentemente incluído na antologia de jovens autores brasileiros Wir Sind Bereit (Estamos Prontos) (Verlag Léttretage, 2013), lançada na Alemanha. Na área de cinema, foi roteirista de Perro en el Columpio (Barcelona, 2008), premiado como melhor drama e roteiro no Festival 15/15 (Melbourne, Austrália), dirigiu A Porta do Quarto (Porto Alegre, 2012) e atualmente finaliza Depois da Poeira, seu segundo curta-metragem como diretor. Além de escritor, é médico e pesquisador em neurociências na UFRJ.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.