O inferno são os outros, Jean-Paul Sartre

– Duas curtidas, um comentário: “massa!”. Põe o aparelho no bolso.

Naquele dia pela manhã, quando saiu para passear, o cachorro latiu para o nada. Não lhe deu atenção, o frio enrijecera a capacidade reflexiva. Puxou Brutus, cuja rebeldia nunca durava muito, e abriu o portão da casa com o cotovelo, para não tocar os dedos já frios na grade congelada. Olhou a parte de cima da rua e depois a de baixo, enquanto o cão farejava a calçada. Não havia ninguém nos arredores, a manhã apenas se anunciava.

Preferiu subir porque o esforço ajudava a combater a baixa temperatura. Lá em cima, pegou a Avenida Dias da Silva à direita, um trajeto habitual que desemborcava, um quilômetro depois, no Penedo da Saudade. Nenhum carro na avenida normalmente movimentada. Refletiu se era feriado ou fim de semana, mas não, estava em plena quarta-feira. As janelas dos casarões tinham suas persianas fechadas, o que era normal no inverno europeu. Brutus seguia farejando como se tivesse encontrado os rastros de um pequeno animal selvagem – que agonia para uma manhã tão calma.

As últimas folhas do outono flutuavam nas calçadas sob o influxo de uma brisa que alfinetava seu rosto em diversos pontos. Continuou a marcha, incitando Brutus a fazer suas necessidades o mais rápido possível. O sol timidamente se esquivava entre as nuvens, surgiria na esquina da grande casa amarela onde ele costumava parar para se aquecer. Apressou o passo naquela direção, ansiando pelos raios de luz, não sem que antes sofresse um solavanco: o cão parara para urinar, encarando-o com olhos culpados.

Mais uma vez, observou os arredores. Consultou o relógio: oito e meia da manhã. Ali sempre havia estudantes pegando ônibus para a universidade. As paradas, além de vazias, pareciam ter acumulado tempo, como se jamais alma viva tivesse se colocado sob sua proteção de vidro. A propaganda, no entanto, continuava a subir, anunciando ora um filme, ora a marca de um perfume, num movimento ininterrupto cujo ruído, quase um sussurro, ecoava pela rua. Certamente haveria alguém na esquina da casa amarela, porque era a rua em que, descendo na direção da Afonso Henriques, se encontrava a Escola Secundária José Falcão.

Na dita esquina, nada de diferente, ausência total de movimento. Pôs-se ao sol que apontara acima de nuvens branquíssimas. Apesar do frio, aquele pequeno trecho de calor era agradável, fazia-o revigorar-se um instante. Tirou as mãos dos bolsos, deixando que o astro as aquecesse. Fixava os olhos para os lados do Penedo, de onde costumavam vir os carros e os ônibus pela manhã. O horizonte mantinha sua imobilidade, uma leve camada de bruma tremulando no longínquo início da avenida. Alguns cães latiam com certo desespero dentro dos apartamentos baixos, como se os donos os tivessem abandonado, e na Casa do Jardim, em que jamais vira animal algum, cinco gatos mantinham-se imóveis sobre a grama, naquela posição encolhida cujo objetivo, pensava, era manter o calor corporal. Olharam-no com a mesma indiferença de sempre, embora houvesse naquela atitude uma espécie de arrogância embutida, prestes a transformar-se em ataque. Brutus rosnou; os felinos mantiveram-se imóveis.

Na Afonso Henriques tudo mudaria, quando estivesse voltando. Ou antes, na Santa Tereza. E no entanto, nem nesta observou movimento. Uma rajada de vento súbita pôs seu capuz sobre a cabeça, como uma mão invisível. Ele desfez a ação, virando-se para encarar, às costas, o mesmo isolamento. O cão o observava com ar de dúvida, sentado. Estavam na calçada da esquina entre as duas grandes avenidas. Ele olhava atentamente para as casas e suas janelas fechadas, depois para os jardins e, finalmente, para as ruas desertas. No relógio, oito e quarenta e cinco.

Afastou um pensamento absurdo, sorrindo consigo. – Vamos investigar isso, Brutus. Puxou-o, aumentando a velocidade. Desceu a passos largos, passou abaixo do enorme muro que margeia a Sereia, pegou a esquerda e subiu pelos arcos. Tudo na mesma, sem automóveis ou autocarros, sem jovens com capas pretas, donos e seus cães, velhinhas elegantes com sobretudos longos cinzentos. Nem um café sequer aberto, nem a senhora a bater o lençol na janela escancarada. O vento como ruído solitário. Quase corria agora, atravessando os arcos que dominavam a praça, subindo até a Rua Larga, onde, mais uma vez, o vazio impunha sua presença.

O sorriso virara riso. Desceu em sobressaltos a couraça, deixou que Brutus corresse sem coleira, subitamente embriagado como ele, e na Portagem, diante do Mondego tranquilo e majestoso, onde deslizavam patos a perder de vista, como pontos de luz refletidos pela intensa claridade, teve que respirar o oxigênio a plenos pulmões, o oxigênio que adquirira um cheiro peculiar, doce, de uma primavera que no entanto ainda estava longe. Brutus corria atrás dos pombos, de um lado para o outro, tentando abocanhar os pássaros que revoavam agitados. Estendeu seu olhar até a outra margem do rio, e Santa Clara devolveu-lhe a imagem de seu próprio estado de espírito: uma reverência.

Continuou sua marcha, sem a agitação anterior, contemplando a cidade que se oferecia. O cão corria ora pela pista deserta, ora ao seu lado. Dava enormes disparadas diante de si e retornava ofegante, pulando sobre suas pernas. Passou ao lado da Loja do Cidadão, entrou na Rua da Moeda prestando atenção no eco dos próprios passos. Na igreja dobrou a esquerda e começou a subir em direção à Praça da República. Agitavam-lhe a cabeça milhões de pensamentos, nada que o angustiasse. Nas vitrines das lanchonetes, via-se que havia comida; gente jamais. Começou a sentir fome; chegava em Celas. Perto de casa, erguia a cabeça para os céus, em estado de graça, quando um ruído súbito quase o derrubou. Abrira-se a sua frente, de supetão, a porta da padaria da rua de baixo. Por pouco não atropela o padeiro, que o encarava sério por cima de seus amplos bigodes brancos. Brutus vinha correndo pelo meio da rua e tentou pular em cima do homem, num gesto de genuína alegria canina. O português, que o conhecia, bem como aos seus pedidos, perguntou-lhe, com sotaque característico:

– Então! Um Moleirinho e dois Bicos?

Um carro passou buzinando a reclamar do cão solto na rua. Pôs Brutus na coleira, olhando ao redor, desorientado.

– Sim, sim. E uma nata pequena.

– E é tudo?

Era tudo. Caminhou cem metros em direção a casa. Fechou o portão, largando o cachorro no quintal. Observou as janelas que se abriam, os estudantes se protegendo do frio em seus grandes casacos, as capas pretas, as velhinhas, o sujeito e seu lençol na janela. Lançou no ar carregado de gotas de chuva um suspiro profundo, deixando escapar, a contragosto, a imagem de um outro mundo. Acendeu um cigarro enquanto sofria em silêncio o movimento e os ruídos da rua, que o transpassavam como se fosse invisível. Tirou o telefone do bolso. Puxou sofregamente a fumaça que o aquecia.

– Três curtidas. Pôs o aparelho no bolso.


Bruno Macêdo Mendonça (Recife, 1979). Doutorando em Línguas Modernas na Universidade de Coimbra, Portugal. Colunista da Revista Philos, onde assinou com o pseudônimo Caio Lobo. Autor da coletânea de contos “Trôpegos visionários” e do romance “Liberdade”, lançamentos da Editora Kazuá. Premiado nos concursos SFX de Literatura e José Cândido de Carvalho, edições de 2016.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.