As horas passam despercebidas como um cozido de leitão. A jovem e ambígua mulher de sorriso sincero faz suas contas no rosário e descobre que falta uma gota cristã em seu ofício diário de rezas. “Não se iluda, Maria” – fala consigo mesma. “Se faltar uma conta, você fará uma Ave Maria e pronto. Finalizará seu recital de murmúrios solenes”.
Seu amor é uma marca feroz em sua carne. Tem um homem que algumas vezes vem ao seu recinto privado e a beija, mas somente um beijo. “Obrigada, Deus, por esse mancebo!” – agradece. “Preciso escorregar minha pele para poder dormir. Amanhã haverá horas que necessitarei cozinhar e fazer um chá de limão como Ele gosta”.
Não se sentia bem à noite, mas era preciso dormir. Dizia a si: “Ele chegará de olhos cortantes e suavidade em suas mãos a me tocar”. Dormiu.
Já era dia, que coisa! “Já é dia e o leitão em minha memória!” – falava. “Onde estarão os passantes de minha cidade? Ainda estou na alcova e dela pretendo sair, pois Ele virá. Tem fome bestial, mas não come leitão – Deus meu! Ele não come, pois é judeu”.
Empedernida, de sobressalto acorda, toma seu banho às pressas e vai até a cozinha – “lugar de mulher, como dizia minha avó. Mudarei o prato. Será salada com toques de especiarias. Sim, será dessa forma, desse jeito”. Suas mãos tremiam pelo engano de antes.
“Ele virá. Estarei solícita a conversas e a um momento de intimidade”. Não toma seu desjejum e corre para fazer o prato especial ao seu amado.
“Como eu o amo!” – e as contas da Ave Maria como estarão? “Ah serei mais modesta, não mentirei a Ele. Direi que rezei todas as contas de um fôlego só. Ele sabe tudo de mim. Tudo desse mundo que me cerca – uma Madalena, talvez” – pensava.
Anoitece, e Ele virá. Presume-se. Fecha os olhos e sente as pegadas em aproximação silenciosa. Toma um susto e diz: “Ele veio, e agora, o que faço com sua vinda? Andarei descalça e tomarei cuidados para não amedrontá-lo. Ora, amor que é amor tem de ser manso e amainado” – murmurava como se rezasse.
“Ele veio. Seja bem-vindo, Senhor!”. Despe-se e desfere um rosário em seu corpo como que se serpenteando com o objeto – uma odalisca.
“Venha, Amado! Venha Jesus! Sou sua mulher! Desbrava-me e fico quieta sem gemer, pois é pecado gemer. Mas ainda estou menstruada: o que faço?”
Ele sorrindo: “eu também sangro”.
E a noite foi silente com gotas de pecado e sacralidade nunca vistos.
A Bíblia, nessa hora, caiu ao rés-do-chão e lá se lia em João 1: 1: “No princípio era o Verbo…”.
“Só mais uma noite, por favor, Filho do Homem, e tudo em seguida se findará!”- Ela lhe disse em espasmos. Eles eram Santos e não sabiam.
Anoiteceu mais que o previsto; já era hora de partir e deixar o lençol da cama com gotas do rosário desmanchado e umedecido com sangue. Ela sorriu: “a comida não estava posta… Vamos jantar, Deus trino?” E suava em febre, pois era o Amor. Era de tanto amar o Sagrado.


Yvisson Gomes dos Santos (Maceió, Alagoas, 1977). Especialista em Linguista pela AAL/UNICID. Mestre em Educação pela UFAL. Atualmente, doutorando em Educação pela UFAL. É escritor.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.