Três poemas inéditos de Christovam de Chevalier, de seu próximo livro Marulhos, outros Barulhos e alguns Silêncios (no prelo).

Mareante

Sou um mareante solitário.
Singro dias inverossímeis
rasgo noites despedaçadas.
Marulhos são cantigas pueris
sargaços: companhia na jornada.
O amor aguarda meu regresso
Sem tecer absolutamente nada.
Um homem entregue à pena do mar
ao degredo do mar
ao indulto do mar.
Meu crime?
Amá-lo acima dos homens.

Resignação

O marinheiro foi uma ilusão de ótica
Uma taquicardia repentina e incerta
Um espectro no clamor da noite morta.
Um deixar-se flechar sem alvo ou seta.

O marinheiro foi um holograma no deserto
Um fogo-fátuo na planície escura e estática
Um esgar de estrelas num céu a descoberto
Clamor de um faminto e sua sede atávica.

O marinheiro foi-se
sem deixar pistas de seu destino.
Foi-se como a vida esvai-se
sem fazer (ou ter) nenhum sentido.

Mar eterno – Canto final

                                             À memória de Claudio Mello e Souza

O mar avança e me abraça
como meu pai nunca o fez.
Fecha sobre mim a sua asa
e aquece minha cálida tez.

Surdo de tanto que grita seus bemóis
deixo-me levar por entre seus azuis.
Nada de pedras e dos perigos dos atóis
O farol acende a noite com sua luz.

E sigo feito rio, que brota da nascente
e tem como destino chegar à foz.
Uma massa líquida e transparente
é agora o meu corpo, língua e voz.

Urro com a chuva, silvo como o vento
atiro-me às rochas e nunca tenho fim.
Vida e morte? Eu, mar, as invento!
Espuma e sal, eis o que fica de mim.

E quando rasga o céu o lilás da manhã
faço do meu grito um leve murmurar
Não sou mar nem poeta… Mas o afã
daquilo  que é, por si só, algum cantar.


Christovam de Chevalier (Rio de Janeiro, 1976) é poeta e jornalista. Publicou Um Livro sem Título (7Letras, 1998) e No Escuro da Noite em Claro (7Letras, 2016), além de figurar na antologia É Agora Como Nunca, organizada por Adriana Calcanhotto (Cia. das Letras, 2017). Publica a coluna Parada Obrigatória todas as quintas-feiras no jornal O Globo. [Não deixem de ler, no caderno de prosa da Philos deste mês, a entrevista que o poeta concedeu ao editor-associado Thássio Ferreira]

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos, escritor e curador de festas literárias.