O universo se esvaiu num ralo de pia mal fechado; o que demorou bilhões e bilhões de anos para se formar desceu pela tubulação de esgoto num abrir de torneira. Incalculáveis espaços de tempo em desenvolvimento e aperfeiçoamento cessaram quando um bebê, em algum país do leste, deu um espirro muito forte. O oceano de novos elementos químicos, desconhecidos até então pelo homem, reações físicas nunca antes testemunhadas, metamorfoses jamais admiradas, deram lugar ao outrora mapeado cosmos.

Nesse, a novidade mesclava-se ao virginal nada puro e imaculado; o rio de coisas que não são mais, porém que já foram. Nem escuridão, visto que está sendo o esconderijo da luz, não tinha mais função. Nem silêncio, pois não sabia o que era, já que nunca escutara para sentir falta do som. Nem rumo, já que por nem um só momento, enquanto filho bastardo dos dias, tivera necessidade de enxergar o que à frente havia. Não que saibamos o que, ou onde era. Nem se fazia parte ou não, da realidade. A única coisa que se sabe, e nem se confirma se é verdade ou não, resume-se ao eco barulhento que, vez ou outra, rasga o tecido do momento.

Em meio a esquinas, entre poças de algo e paredes de lembranças, flutuando nas ondas do que um dia foi chamado universo, estava uma solitária cor. Uma nunca antes vista e admirada. Uma de tom diferente, sem brilho ou opacidade, sem calor, valor ou função. Sem objetivo, ou razão, ou origem: a cor. Assim chamada, visto que não era som, nem cheiro, nem tato, nem bocejo. Nem se sabe realmente se cor era. Nem se sabe realmente se assim gostaria de ser chamada. Nem se sabe realmente se entendia o valor de um nome ou da falta de um.

A cor viajava; um produto que em alguma realidade, naquele exato momento, ainda nascia e que, em outra, já moribunda, convalescia sobre a cama. Foi quando avistou, com sua cegueira, o tempo sentado sobre uma lisa esfera de carvão, lapidada homeopaticamente por bilhões e bilhões de eras, mais velha que ele próprio. Curiosa como uma criança, ela se aproximou e observou. O tempo fitava a imensidão com um semblante impassível. Seu corpo magro e desnutrido, seus longos cabelos cinza, seus olhos cobertos de areia, seus pés com dedos tortos e unhas longas. O tempo devolveu o olhar. A cor, um tanto relutante, se acovardou.

– Pois, pequena… aproxima-te… tendes medo do tempo?

– Perdoa esta pobre cor que só faz caminhar sobre o que um dia foi vento!

O tempo riu.

– Pedes perdão como quem crime cometeu.

– Não conhecer o valor do tempo é crime suficiente.

– Mas, se não me conheces, que valor eu tenho?

– Todos diziam de ti ter medo. Tola seria se não fizesse o mesmo.

O tempo gargalhou.

– Quando ainda existiam dias ou demônios relojoeiros, senhor eu era de todos os lamentos.

A cor lançou.

– Conta-me, tempo, quando caiu a última pétala sobre o mar de sofrimento?

O tempo se entristeceu e indigesto disse:

– Pois bem, pequena cor, certas perguntas trazes. Foi numa manhã de ouro enquanto os homens faziam as pazes.

– Homens? Quem seriam esses?

– Ainda nem sonhavas em existir, quando, com consciência, eu lhes permiti. Tão débeis e tão frágeis! Quebradiços como grãos de açúcar e vaidosos como espelhos sem moldura!

Confusa, a cor não compreendia. Sua invejável inocência era de uma visível amargura.

– Mas, se como reis viveram, como podem hoje não serem nada?

– Nunca foram, pequena cor. Nem mesmo o mérito, em ser nada, alcançaram. Achavam-se senhores absolutos, de um fragmento minúsculo, no interior de um grão amontoado, sob um milímetro desimportante, num ponto despovoado. Foi-lhes permitido plantar, e colher, e caçar e comer. Assim eles fizeram, mas, desde o início, fadados ao fracasso do viver.

– Mas se lhes foram permitidos, o que a outros era privilégio, por qual motivo fracassaram?

– Fracassaram, pois tentaram.

– O que tentaram?

– Ser o que não eram… assim falharam.

– E o que tentaram ser?

– Bons.

– E poderiam ter sido?

– Se não tivessem tentado, teriam conseguido.

A cor não entendia, mas perguntou mais uma vez.

– Falastes da paz entre os homens. Preferias a guerra?

– Foi a paz entre ingênuos e covardes que pôs fim ao universo.

-…

– O primeiro saiu vencedor, posto que o segundo acostumou-se a toda autoridade, em vez de enfrentar qualquer dor.

A peculiar dupla vez ou outra olhava em volta.

– Mas e os outros seres? Não podiam ter ajudado?

– Assim como os homens não se importavam com aranhas comendo insetos, os outros seres com eles não se preocupavam. Para eles não importava ser vivo ou morto; coisas mais importantes eram as que julgavam.

– E o que se faz daqui para frente?

– Hoje, se é que sabemos o que isso significa, nada mais são que memórias mortas contadas ao redor de fogueiras, às recém-nascidas estrelas, por sóis descansando sob figueiras.

Seu semblante se entristecia ao passo que continuava.

– Eles mataram seus bebês, incendiaram suas casas e substituíram o que havia em seus corações por discursos em favas. Por fim, imploraram perdão de joelhos, mas era tarde; a chuva já caía, enquanto eu não fazia nenhum alarde.

– Mas, se deles era senhor, podias compaixão ter.

– Pequena cor…, ainda me dói ser a última testemunha da existência de tão magníficas criaturas; contudo, seja por justiça, por obrigação ou simplesmente por reverência, deixei que caminhasse dançando rumo ao abismo, mesmo eu, feito em registros, aos berros avisando-os.

O tempo fitou o que outrora era o horizonte, deixando escorrer uma tímida lágrima.

– Se esses eram tão inúteis, desimportantes e sem valor, por qual motivo choras tu?

– Pois a lágrima sempre foi e sempre erigiu o único aplauso que a breve passagem deles mereceu e exigiu. Foram erros mimados sob a garoa. Foram utopias batizadas ao bater dos cílios. Foram fantásticos príncipes que rejeitaram a coroa, em troca de montanhas incalculáveis de lixo.

O tempo sacou duas taças prateadas de sua bolsa de pano. Encheu-as com choro filtrado e entregou uma à pequena cor.

– Brinda comigo uma última vez! Em nome dos tolos e dos desavisados. Em nome dos sujos e dos depravados. Em nome das noivas, sob as pilhas de corpos carbonizados. Foi apenas o orvalho numa manhã de sol que queimou ao mais sutil raiar de realidade. Não eram mais do que um amontoado de tentativas e vontades, que não se permitiram admirar certa paisagem.

A cor aceitou e brindou.

– Será que um dia hão de voltar?

– Como pai, eu permito que floresça o indigno, na esperança de corrigi-los como um velho de amito.

A cor terminou sua taça e a devolveu ao tempo com compaixão e respeito. Virou-se no caminho e sorriu despedindo-se, continuando sua solitária jornada pelo infinito. Já longe, olhou para trás. Viu o tempo que continuava em seu martírio.

E quando as gotas, agora vagando a esmo pelo nada, se chocaram com o tímido rastro deixado pela cor, o erro novamente floriu. Dando ao tempo um sorriso franco de quem sabe ser o único a reconhecer os próximos tombos, mas que, de certo modo, ainda os deixam brotar mais uma vez. Só mais uma vez.


Vitor Luiz Bento Leite (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1990). Professor de História, escritor e roteirista.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.