“Mind if I use that portable keyhole?” pergunta Stella a Jeff, no filme Rear Window (1954) de Alfred Hitchcock, olhando para a câmara fotográfica que este tem na mão. É precisamente desta ideia um tanto voyeurista, de possibilidade de olhar sem ser visto e de aceder ao que não conseguimos ver na totalidade, que surge Rear Window, exposição fotográfica dos artistas visuais Magda Fernandes e José Domingos.

Um quarto no 3º andar de um prédio em Campo de Ourique, Lisboa – o quarto deles- é transformado em dispositivo fotográfico, uma câmara pinhole onde a cidade se projecta invertida na parede. As imagens possíveis são determinadas pelas condições naturais de iluminação e pela brecha (pinhole e keyhole simultaneamente) que deixa passar a luz e com ela a própria imagem. O tempo longo e a penumbra exigidos na impressão directa constroem uma relação de intimidade entre os fotógrafos e a imaterialidade das imagens projectadas, que fixam em fragmentos. Num exercício de confinamento partilhado, a imobilidade da cidade é registada por contacto directo com a superfície fotossensível – o negativo da cidade.

A intrusão do espaço colectivo no espaço íntimo faz-se também na forma como se apresenta esta exposição, um díptico simétrico com as imagens em negativo e em positivo, permitindo ao espectador uma relação de intimidade, não só com a imagem mas também com a visibilidade dos próprios processos, elemento central do trabalho de Magda Fernandes e José Domingos.

As imagens propõem uma espécie de jogo nemésico em que o espectador é convidado a um acto voyeurista de decifração. A imagem devolvida ao interior do quarto é a visão fantasmática de uma cidade, onde a paisagem urbana contrasta com a ausência absoluta da figura humana – apagada pelos longos tempos de exposição que a fotografia pinhole exige. O exterior invade o espaço íntimo do quarto, sem a mediação da lente, como imagem espontânea que se inscreve no papel através de um gesto partilhado pelos artistas, constrói-se aliás neste gesto paradoxal, partilhado e quase coreografado, que questiona a prática fotográfica como exercício individual.


Sofia Berberan (Lisboa, Portugal, 1980). Fotógrafa.

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