Observei o mundo cochilando

Queria sustentar o peso da palavra – não deu, não dá. Melhor mesmo foi convidá-la para caminhar lado a lado. Atravessei a rua com um farol verde, não entendo de esperanças; prefiro a insistência. No plano traçado entre a máquina de fazer sonhos e o prelúdio da vida ouvi uma criança chorando de rir. Caminhei dois passos para fora de mim, observei o mundo dormindo por alguns instantes, talvez cochilando. Quando voltei porta a dentro, estava parte do meu corpo deitado, outra parte em trapos. Torci o ego, pus de molho a expectativa e com dois pregadores estendi o perdão no quintal – deixei a angústia de lado exposta ao sol; dei vitamina D pura para a angústia. No final do dia vesti o desejo, agora vou ali beber com os amigos. Volto mais tarde mãe, não se preocupe estou andando bem sem muletas.

 

Sua Beleza

Você tem uma beleza ‘rizoma’. Uma beleza sem único centro. Não é uma beleza peito, uma beleza bunda, uma beleza perna ou nem mesmo uma beleza rosto; pode ser também. Ou, pode não ser nada disso e haver espaço para nascer uma beleza gesto, uma beleza silêncio e temperatura… São N raízes de beleza. Tem que ser atento para nota-la, ela está nos cantos, é difusa, tem que cavar, cavar e cavar… Mas, mesmo cavando talvez não a encontremos por inteira; não há como apreende-la e nela não mora torturas. Sua beleza é tipo Deus – está por aí. É um jardim, uma folha voando, um pombo manco, uma criança chorando com saudade do pai, você mesma no espelho bocejando.

Três pontos de fuga

Deixei tudo para trás. Foi melhor assim. Esquecer. Tracei em seguida três pontos de fuga. Vi o racismo crescer, a criança se despedir da calçada, o parque e o porque ficarem sem acento. Tremi de medo de não mais me encontrar. Tremi no encontro também. Estudo há 40 anos e leciono há 30, porém quando olho para o passado nada mais me habita, não ensino e nem aprendo. Matei cada aluno dentro de mim e morri em cada livro escrito. Por fim, rasguei todos os planos de aula que estavam no cofre – acreditava que conhecimento era a riqueza maior. Não é. A riqueza maior é a nudez, ainda maior é o arrependimento. Quero me tornar um homem sem nada mais dizer. Hoje só quero contar outra história para tentar dormir.


Paulo Emílio Azevêdo (Rio de Janeiro, 1975). Professor, Doutor pela PUC-Rio em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014).

Posted by:Souza Pereira

Souza Pereira (Recife, 1994). Editor chefe da Philos, escritor e curador de festas literárias.