Hoje fiz uma incursão pela cidade, de dia. Percorri macambúzio as suas ruas, esgueirei-me por entre edifícios, cruzei-me com as suas gentes. É muito diferente ver a cidade nessa perspectiva, de viajante, de dia, e num dia em que não andam todos feitos formiguinhas a correr de um lado para o outro, para fazer ou a fazer alguma coisa muito importante, absolutamente inadiável e vital para algo ou alguém. Não. Hoje pude repousar os meus olhos em tantos pormenores que normalmente me escapam por ir sem tempo ou sem vontade de vê-los. É incrível quão cinzenta é a cidade, as suas ruas, os carros que nela circulam, as suas gentes grisalhas, como se de repente as minhas retinas deixassem de conseguir processar a cor, e tudo ficasse preto e branco como na gravação de uma série televisiva do passado distante. Ao percorrer as suas ruas, senti uma mescla de presente que se quer impor a um passado que luta por se manter vivo, nos edifícios velhos e novos que se digladiam ferozmente pelo mesmo espaço, ou somente por um espaço nas ruas onde se circula e também se (sobre)vive. Quase que podíamos ouvir um clamor dos antepassados de todos aqueles espaços, a tentar reclamar, como seu, um espaço que já não lhes pertence, apesar de ainda por lá vaguearam errantes e descontentes, por já não conseguirem ocupar um lugar, o seu lugar, perante o desdém daqueles que agora lá moram e não ligam a tudo o que foi, e a tudo o que passou. Sentiu-se certa forma de vida naquela cidade, enquanto a mesma se esforça por não se deixar morrer, entre estertores, convulsões de estéticas novas em colisão com as velhas, palacetes outrora grandiosos, palco de inúmeras alegrias dos seus anteriores ocupantes, que jazem hoje cheios de ervas, com fachadas decrépitas pela negligência propositada dos actuais proprietários, que preferem ver nascer naquele local um edifício cheio de vidraças ofuscantes, pessoas gourmet em hipervelocidade laboriosa, sem tempo para viver, apenas produzir e serem eleitos números de alguém, desejavelmente importante. E tudo isso com os tons primaveris de um Sol que se mostrou numa tarde de Primavera. Imagino o que seria num dia cinzento, com gotas de chuva ácida a precipitarem-se sobre todos nós. Confesso que tive pena de todas aquelas gentes, que vibram do mais puro orgulho por (sobre)viverem naquele espaço, que até se atrevem de apelidar de seu, não estando alerta de que não são mais que meros passageiros do tempo, enquanto ocupam um espaço que já foi de muitos e será de outros tantos. É nesses momentos que sinto uma profunda tristeza, ao mesmo tempo em que me sinto também agredido por aqueles espaços, por aquelas sombras. Não existe nada como a calmitude, a simplicidade e a pacatez da humilde vida no campo, no meio das árvores e flores, com tudo o que a natureza tem para nos oferecer. Por mim, cedo-vos o meu espaço na cidade. Quero ser passageiro numa outra realidade, de um outro tempo, que não este.


Miguel Laranjeira (Angola, Luanda, 1973). Lancei um livro de episódios, intitulado “Dos Pupilos ao Exército em 50 tons de riso”. Tenho um blog de contos eróticos e publico poemas e textos no facebook.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.