Maria foi perdendo partes da lucidez, silenciando o açoite, moendo o desejo de afeto, arreliando a dor, enquanto o couro tocava bem forte na pele, era uma força de quem tem poder, de quem é dono e pode fazer o que bem entender. A cada dia que seu homem tocava seu corpo nu, espancando a alma, a carne emudecia escondida num lugar no qual as dores não chegam, era a lua, seu esconderijo, refugiava-se lá, sentia o corpo brilhando, iluminando a cidade, a ladeira, a casa, o rio, iluminava até seu homem imerso no prazer de marcar seu corpo com um cinto de couro marrom, era o seu predileto para esses atos. Não mais se esquivava, perdera o controle do destino. Largou-se a própria sorte. A loucura apiedou-se dela e tomou lugar em sua vida. De repente se fez menina, ganhando presentes recheados de candura, abriu um deles, viu aquela boneca esperada tanto tempo; agora em seus braços; ela ria de felicidade, até que o seu homem viu o brilho em seus olhos, luz de criança que ganha um abraço, largou a mão no ar, perdeu o gozo, trouxe o cinto marrom de volta a calça e, se foi para sempre. Foi embora, de longe ainda ouvia o riso louco da sua mulher, como se risse da sua própria loucura. Correu ladeira abaixo; assustado, desesperado, amedrontado. Ela andava pelas ruas, descalça, ninando a boneca que só ela via. Descia até o rio, tirava a roupa, molhava o corpo cheio de marcas já saradas. As pessoas fingiam não ver a mulher nua, as marcas no seu corpo, a indiferença da mulher elegante que fazia caminhada ficou presa no cheiro da boneca invisível. Era conhecido, muito familiar; ela andou menos confiante, olhou a mulher, o rio, sentiu a maresia misturada com a boneca. Então era esse cheiro que o marido vez ou outra exalava em sua pele, perdeu a pose, ela soube, mulher tem um sentido a mais. Depois do banho Maria pegou a boneca, caminhou até a rua das mulheres da vida, precisava de uns tragos para ver a lua, depois que o seu homem se fora ela precisava disso para ver o brilho da lua em seu corpo. O marido da senhora da caminhada estava lá, pagou bebida, Maria entornou tudo num gole, sentiu o calor da bebida na garganta e riu, ele a violenta, ela se esconde na lua e ri. Depois outro goza em seu corpo distante, os homens riem um riso de alma apodrecida.


Aidil Araujo Lima (Bahia, 1958). Contista, com diversos textos premiados e publicados em Antologia. Publicação do livro – Mulheres Sagradas, agosto 2017.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.