ensaios

Freud diz que a humanidade sofreu três feridas narcísicas
com Copérnico, a Terra, nossa casa, deixou o centro do universo
com Darwin, a evolução substituiu a descendência divina
e, de volta a Freud, o inconsciente foi o bárbaro da razão
O homem perdeu a imagem arquetípica do homem no mundo
o céu estrelado, que constituía uma morada
ou uma lei, se abriu para a contingência fatual dos astros
a semelhança do filho à imagem do Pai
resultou apenas escritura e esta, um dos léxicos da História
O céu não configura mais um teto
a gênese, não mais uma raiz
e o caminho destituiu a razão
No centro de lugar nenhum, ganhou o homem
a liberdade de ir ou estar à sorte do nada
e de ver no espaço – o vazio
os puros horizontes de cor de Rothko
a ruptura da forma para além da abstração
E a ideia da pura página,
liberta para sempre do signo, desprende-se
da iminência do lírio, da bruma ou da neve
Sem invólucros, meu filho, inspira –
profundo é o ar e a experiência
incomunicável
Inspira profundamente a liberdade do que nos resta –
a plenitude do vazio


Laís Araruna (Recife, Pernambuco, 1988). Tem poemas publicados em revistas digitais. Seu primeiro livro de poemas, “Juventude”, no prelo, foi ganhador do Premio Maraã de Poesia de 2017.