tutorial para caçar baleias

para caçar uma baleia
o homem deve antes
descarnar completamente o amor
deixar em casa
o terço e o que ainda
resta de cor nos olhos
na imagem fria do filho
um bom caçador de baleias
sabe onde elas dobram
e sobretudo
o que elas gritam
perseguem-nas até o fim
de sua compaixão
apesar de tudo
a baleia sempre crê
no casco cinza
não julgam o aço
acredita em sua sombra
de baleia perdida
até que vem o atordoamento
é exatamente aí
que a baleia perde
sua fé
entende que aquilo ali
não é uma baleia
e que aquele imenso
avatar à sua imagem
e semelhança
possui um motor
no lugar do coração
esse é o ponto-chave
para o acionamento dos arpões:
principal e secundários
a trinta metros do animal
já não há espaço
para fugas
ele salta, pega ar
e você aperta o botão
agora a embarcação
é contrapeso
(após o arpão
ultrapassar as primeiras camadas
e abrir-se
como um guarda-chuva
nos interstícios da carne viva)
o mamífero, então,
já sem forças,
mas ainda vivo,
vira uma extensão
da própria navegação
por isso cautela
reduzir os nós
(manobras bruscas podem rasgar a pele
e condenar a mercadoria às profundezas do sal)
a essa altura
o navio-fábrica
já tem de estar circulando
nos arredores do arpoador
sua boca abre
e a vitima (içada
por cabos de aço)
vê seu fio de dignidade
escorrido numa esteira
essa é a parte fácil
pois nesse instante,
carniceiros profissionais
assumem a responsabilidade
de enfrentar o olhar
dilacerado da baleia
lá é sim o próprio inferno
o fogo jorra das caldeiras
e não basta
nunca basta
vem o esquartejamento
por técnicas brutais de corte
e seu ultrapocessamento
seu óleo e carne
são reservados
seu sangue
escoado direto no mar
deixando o oceano
cada vez mais escarlate


Thiago Scarlata (Rio de Janeiro, 1989). É poeta, músico, escritor e criador/editor do Blog Literário Croqui. Teve poemas traduzidos para o espanhol, publicados em antologias e também nas Revistas Gueto, Escamandro, Mallarmagens, Monolito, Incomunidade, Janelas em Rotação, Poesia Brasileira Hoje, O poema do poeta, Poesia Avulsa, Literatura&Fechadura, Vero o Poema, Carlos Zemek, MOTUS, Jornal Correio Braziliense, Jornal RelevO, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016. É autor do livro de poesia “Quando não olhamos o relógio, ele faz o que quer com o tempo”. Teve poemas traduzidos para o espanhol.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.