“Os mortos devem dormir com as pernas dobradas”, assim era a regra primordial que, durante tanto tempo, regeu o sepultamento dos que morriam na aldeia.
Todos ali sabiam pescar e tinham braços que davam bons remadores.
Mas também tinham o curioso costume de, ao enterrarem os mortos, dobrarem ambas as pernas do cadáver.
Crianças finadas prematuramente, adolescentes vitimados pelo veneno das cobras traiçoeiras e aranhas cruéis, meninas que se afogaram no rio, mulheres assassinadas pelos seus maridos durante um acesso de fúria e ciúmes, homens derrubados pela lança de seus inimigos em combate, gente que adoeceu por conta da feitiçaria, velhos que morreram pela idade e então tiveram tempo de se despedir de seus parentes; todos os corpos, ao serem abandonados pelo espírito, eram enterrados com as pernas dobradas, para que não se levantassem da cova e voltassem para assombrar os vivos.
Porque um corpo perambulando sem o espírito seria algo horroroso de se ver.
Os únicos que fugiam à regra, sendo exceções em vida e em morte, eram os xamãs e curandeiros, eternos comedores de pimentas, de quem os outros da tribo esperavam a proteção e a boa negociação com os espíritos violentos que vagavam pela noite. Imaginavam que tal serviço continuaria a ser prestado, talvez até com mais eficiência, depois da morte, e que, pelo conhecimento do mundo sobrenatural, estavam eles absolvidos da incômoda posição em que os demais eram sepultados.
Para tanto, deviam respeitar o calendário da lua, queimar ervas e verter libações sobre o local onde enterravam os xamãs – bem longe da aldeia, sob a sombra de uma gigantesca sumaúma.
Seus nomes só seriam mencionados em tom de indubitável respeito.
Após terríveis temporadas de chuvas ruins, a região ficou permanentemente alagada. Tornou-se difícil pescar e cultivar as roças. Um cataclismo pôs fim à nação daquelas aldeias que se distribuíam pela foz e demais ilhas da bacia. Depois vieram os colonizadores e, com suas doenças e sua fome de ouro, terminaram por dizimar os legítimos herdeiros da terra.
Os séculos se sucederam vagarosamente, até que um dia um jovem casal de arqueólogos encontrou os vestígios de um cemitério numa área que sabiam ter sido ocupada pelos índios, próxima de um sítio onde haviam escavado vasos e urnas.
O solo ácido da floresta dificultava a preservação dos ossos, e isso bastou para que o achado fosse considerado surpreendente em toda a comunidade científica.
Chegaram ali procurando por instrumentos musicais na companhia de um etnomusicólogo, amigo do casal. Onde os rios foram assoreados, descobriram os fósseis de um cadáver adulto sepultado conforme a antiga regra: as pernas dobradas. E ao lado deste corpo, outros dois, afastados dali por uma pequena movimentação vertical do solo, também homens adultos, e dispostos da mesma maneira.
Procederam com os rituais de datação, e descobriram de qual século provinham aqueles restos. Comprovava-se essa teoria, negava-se aquela.
Mas continuavam sem saber ou sem acreditar nas dadas razões pelas quais aquele povo enterrava seus mortos daquela forma. Não puderam certificar-se de que se tratava de um costume mortuário regular da tribo, porque também não encontraram outros exemplares. Os vínculos de parentesco se perderam em algum momento da história, e o passado continuou inacessível, não haviam rastros de idiomas ou costumes, nem cenas gravadas em rochas: estavam isolados no tempo.
Não encontraram explicações em lugar algum, escassas eram as ruínas, apagada era a memória, incriada era a linguagem, e tampouco respostas puderam ser dadas pelos parentes distantes dos velhos caboclos, há muito tempo removidos dali. Entrevistaram colegas pesquisadores, eruditos, catedráticos. Nenhuma teoria os convenceu, mas nunca se esqueceram da hipótese de seu amigo etnomusicólogo que os levara até ali: a música, mãe de todas as artes, nasceu do choro dos vivos pelos mortos.
Resolveram então vasculhar todas as enciclopédias e artigos que conheciam sobre o assunto, e procuraram por semelhanças funerárias nas culturas mais distantes do mundo.
Folhearam livros antigos, visitaram museus, outros sítios arqueológicos próximos e distantes, consideraram os tantos fósseis encontrados aqui e acolá, trazidos à tona pela curiosidade da ciência, em posições talvez ainda mais estranhas: os braços cruzados, os ventres torcidos, as mãos espalmadas, ou então abraçadas sobre o peito, mas nunca, em lugar nenhum, pernas dobradas.
A geometria das covas e sepulcros; o interior dos jazigos e mausoléus; os monumentos megalíticos; o tempo e a morte abraçados em runas, obeliscos, totens; as sofisticadas e belíssimas urnas marajoaras; o kuarup do Alto Xingu, rito por meio do qual os índios choravam e se lembravam dos nomes de seus mortos; as cerimônias dos aborígenes australianos da Nova Gales do Sul, em que os cadáveres se decompunham sob a folhagem e então tinham seus ossos divididos entre todos os da tribo; os hindus de Varanasi, que ficavam com os pés no rio Ganges durante dias, antes de serem cremados; os inuítes de Nunavut, que se retiravam e iam morrer na solidão, em meio ao gelo; as câmaras mortuárias egípcias, contendo maldições e as instruções para os espíritos dos mortos recitarem as palavras esquecidas pelo coração; os mantras tibetanos, bússolas sonoras que orientavam os desencarnados a procurarem uma boa reencarnação; os caixões dos Bo, no Vale do Cânhamo na China, suspensos num paredão de rocha; a festa do Dia de Finados, popular em todo o México; a Famadihama, em Madagascar, em que os vivos dançam com cadáveres vestidos para festa e depois se despedem e choram pelos seus entes queridos; e, enfim, visitaram mais uma infinidade de procedimentos e formas pelas quais os vivos se despediam dos mortos, abençoando sua ida ou então temendo pelo seu retorno.
Mas nunca as pernas dobradas com as quais cada parte do casal de arqueólogos sonhou à sua maneira – sonhos dos quais acordavam com os joelhos doloridos.
Mesmo não sendo tão inéditas, invisíveis eram os seus motivos, e nunca em vida os arqueólogos chegaram a quaisquer conclusões a respeito das pernas dobradas.
Num dia em que retornaram ao sítio, alguns anos mais velhos, e já cansados de tanto trabalho, eles se ajoelharam diante das covas. O que é que havia mudado? Entreolhando-se viram, um no olhar do outro, o futuro e, portanto, a morte de si mesmos.
Quem enterraria o outro? Sem pensar nas últimas palavras a serem ditas antes da morte, cogitaram, juntos, quais seriam as primeiras palavras que diriam após a morte.
Beijaram-se, sujos de terra, suor, e inteiramente cobertos pelo mistério que tentavam escavar, não porque queriam dissipar o medo da morte, mas talvez porque quisessem transferi-la, a morte, um para o outro enquanto se beijavam.


Leonardo Stockler (São Paulo, 1989). Sou formado em História pela Universidade Estadual Paulista, e trabalho como professor e educador. Escrevo desde a infância, quando tentava imitar as coisas que via na livraria de minha mãe.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.