«Por que a gente dá nome?»
«Por que a gente dá nome “pras coisas”?», era o que desejava ter dito, mas só tinha quatro anos! Imagina a cara dessa mãe. A pequena Carla pensava como um filósofo europeu de séculos passados, apenas com palavras ainda mais misteriosas e lacônicas. A mãe entende, conhece bem a agudez da filha e tenta responder com o nível de exigência que a precocidade da menina impunha:
«A gente dá nome pra reconhecer as coisas», a mãe lança no escuro, e aguarda a reação da pequena.
Carla fez o que sempre fazia ao receber palavras grandiosas e inapreensíveis dos adultos; os olhos estalaram em direção ao vazio da sala grande, a “sala de cima”, como chamavam os habitantes da fortaleza assobradada, e aí, neste ponto alto de um lar confortável e espaçoso, aqueles olhos de modo algum buscavam respostas na materialidade imediata das coisas ao redor. Muito além, numa espécie de vacuidade silenciosa, Carla fincava o olhar. E acertava a mira em algum vórtice aberto entre os sofás suntuosos e o cetim que cobria a janela grande do terraço dia e noite, mantendo afastada a distinta família Itzah da algazarra da escola pública, logo ali, atravessando a rua, e afastando os olhos dos barracos que ladeavam uma encosta à esquerda, cheia de vielas suspeitas.
Ninguém na vizinhança questionava o poderio honesto e justo construído ao redor de Isaac Itzah, patriarca da família, ainda que delegasse a ordem da casa e do clã à sua esposa Maria Luz. Filho de um pedreiro de uma cidadezinha mineira mal lembrada, Isaac havia sido astuto e disciplinado o suficiente para dedicar-se à única ascensão social disponível a um homem de sua classe e raça, nos anos duros da ditadura.
Seguiu a carreira de concursos públicos, e sua façanha de ter alcançado um posto na Aeronáutica mereceria uma crônica à parte. Por ora, basta dizer que acabou se tornando gerente de negócios num banco americano sediado em São Paulo.

Carla seria a continuadora de seu legado. Enquanto o irmão mais velho seguia com o negócio local, gerenciando um lava-rápido numa esquina movimentada ali mesmo no Almanara, o caçula se aventurava cozinhando em restaurantes na Austrália com a esposa, e Carla Itzah acabou com êxito a faculdade de Relações Internacionais, qualificando-se com um brilho tal que ainda vinha enfeitado por dois novos idiomas, o inglês, o espanhol e um pouco francês, aprendidos com muito cuidado, o que lhe permitia investir com sucesso garantido numa possível indicação que seu pai conseguiria no setor de investimentos internacionais de uma grande instituição financeira, visível apenas para os ricos.

Faz quase vinte anos que Carla vem galgando posições importantes, enquanto tenta se proteger das vilezas típicas de um ambiente onde a especulação financeira pode continuamente ultrapassar novos recordes, virtualmente sem nenhum limite. Nunca vou me esquecer de quando ela me disse que já chegou a receber o ódio de investidores que questionaram sua idoneidade quando, numa transação de milhões, faltaram exatos seis centavos.

Não sei em que medida seu corpo de mulher negra aguenta o impacto. Ela é pequena, e foi ficando encorpada com o tempo. Posso explorar alguns fatos paralelos a título de introdução, como por exemplo o fato de nunca ter tido homem algum, ou não gostar de ter chefes mulheres, mas acredito que será o suficiente falar de suas viagens mirabolantes, durante as férias anuais, quando vai para os extremos do mundo: uma ilha perdida no meio do mar Mediterrâneo; a cidade mais próxima do círculo polar Antártico; o país mais pobre do mundo, aos pés do Saara; um roteiro de vinte cidades europeias e norte-americanas, seguindo a turnê de uma banda de rock; uma corrida de balões sobre as montanhas da Turquia; um momento de mistério nos antigos templos de Petra, esculpidos e encravados nos desertos remotos da Jordânia.

Ninguém na vizinhança questionava o poderio honesto e justo construído ao redor de Isaac Itzah, patriarca da família, ainda que delegasse a ordem da casa e do clã à sua esposa Maria Luz. Filho de um pedreiro de uma cidadezinha mineira mal lembrada, Isaac havia sido astuto e disciplinado o suficiente para dedicar-se à única ascensão social disponível a um homem de sua classe e raça, nos anos duros da ditadura. Seguiu a carreira de concursos públicos, e sua façanha de ter alcançado um posto na Aeronáutica mereceria uma crônica à parte. Por ora, basta dizer que acabou se tornando gerente de negócios num banco americano sediado em São Paulo.

Nenhuma personagem seria verossímil o suficiente se pretendesse transmitir com admitido realismo a experiência de minha amiga Carla Itzah, a qual chamo às vezes de Carlota Soledad.

Eu a conheci aos oito anos, quando passamos a estudar juntos. Após terem-na matriculado para a primeira série de uma instituição considerada mais renomada, os pais aceitaram a ideia de transferi-la no ano seguinte para o Prudente. Como as grades de entrada da escola ficavam quase em frente ao portão dos Itzah, agora a menina podia ir e voltar sozinha, o que lhe garantia o momento precioso de atravessar a multidão de idades que se aglomerava à sete e às onze da manhã, e que antes ela apenas via passar, colada por horas à janela de seu quarto no andar de cima.

A primeira vez que a vi foi no pátio, na hora do recreio. Este não era um espaço tão acolhedor para mim, eu tinha que prestar atenção nos grupos hostis pelos quais eu teria de passar na trajetória para o refeitório. Nesse percurso, um dia vi aquela menina magra, de olhos e dentes grandes, o curto rabo de cavalo atado por uma fita amarela que lhe descia por mais de um metro até o tornozelo do uniforme azul escuro.

Anos depois, julguei esse aplique a um só tempo infantil e frívolo, como um simulacro de cabelos de princesa loira. As pontas das fitas, em minueto com aquelas pupilas serenas, quase indiferentes, pairavam com uma leveza altiva pelo ambiente cinza, engordurado e prisional daquele pavilhão fechado entre a cozinha das tias, nos fundos, e os sanitários que ficavam atrás do palco frontal, onde Dona Cidinha, com seu black power minimalista e seu tamanco de plástico turquesa, rouquejava palavras firmes e disciplinadoras para nos incitar a cantar, com reverência quase irônica, o hino nacional.

Aliás, a diretora da escola, talvez por ser mais uma rara negra bem-sucedida em nosso mundo conhecido, era uma das poucas pessoas que recebiam convites para frequentar as festas na casa dos Itzah, mas nem por isso Carla era tratada com predileção. E nem precisaria, jamais precisou. Desde o primeiro dia de aula na segunda série, a sala toda havia percebido o quanto tudo parecia fácil para a inteligência da menina nova. Ela sempre respondia às questões com um contentamento tão genuíno pela simples aquisição de conhecimento, sobretudo em Língua Portuguesa, que nenhum de nós ousaria repreendê-la se exibisse um certo sentimento de superioridade diante de nós, mesmo porque ela sempre se mostrava grata em participar conosco, o que certamente nos fazia respeitá-la e, instintivamente, admirá-la.

Carlota Itzah parecia não precisar de ninguém e, ainda assim, saudava efusivamente uma boa amizade com mentes mais investigativas. Eu e a Nádia éramos seus comparsas privilegiados e, mesmo para nós, Carla continuava a exalar seu mistério. Uma vez, na sexta série, chegamos a criar todo um estratagema para visitá-la em casa – estávamos entre os poucos brancos a ter livre acesso à famigerada residência. Invadimos seu quarto num momento planejado de distração e roubamos o diário que supúnhamos guardado na gaveta de sua cômoda pessoal. Nada encontramos no diário virgem, além dos vestígios de uma primeira página arrancada, a qual tentamos recompor jogando grafite nas concavidades que a caligrafia diligente de Carla havia deixado na folha seguinte. Ela até hoje não acredita que fomos capazes de fazer isso.

Não chegamos a nos surpreender ao deparar com mais um de seus parágrafos abstratos, entre os quais nada deixava adivinhar os nomes das pessoas reais que eventualmente instigavam a imaginação de nossa colega das alturas a escrever tais ditos. Desde cedo, Carla havia desenvolvido uma escrita absolutamente depurada em subjetividades e sentimentos sem dono. Talvez nunca a tenhamos compreendido onde era mais importante.

Ao longo dos anos, nos mantivemos amigos. Após termos dividido as mesmas aulas até os 14 anos, chegamos a nos encontrar algumas vezes depois, e Carla sempre foi a grande responsável por manter nossa antiga amizade viva, ao promover encontros, telefonar nos dias de aniversário e sucesso profissional, enviar mensagens de texto e, sobretudo, até pelo menos 2004, me remeter cartas belamente manuscritas, pelo correio. Ela nunca me fez esquecer que iniciamos essa prática já aos oito, no primeiro ano de nossa amizade. Não me lembro muito bem disso, mas acredito com fé inabalável. No dia 4 de agosto de 1997, aos 19 anos de idade, Carlota Soledad postou uma longa carta escrita com esferográfica preta sobre a matéria diáfana de umas folhas de papel vegetal. O centro de seu discurso se resume no seguinte trecho, que copio aqui e disponibilizo à avaliação de grafólogos ou outros especialistas em criminalística:

Na nossa amizade, logo que nos conhecemos, a gente só entregou a primeira pecinha [do quebra-cabeça] para o começo da montagem, e ao longo desses 11 anos fomos tentando moldar isto; talvez, nesse tempo que a gente ficou separado, tenham aparecido algumas peças importantes do jogo que a gente tenha perdido, e que ficaram faltando. Eu realmente devo admitir que talvez eu não tenha procurado por essas peças para que eu não tivesse que entregar também as peças de meu próprio jogo, da minha própria personalidade, que até mesmo para mim ainda é um certo mistério. Talvez esse meu medo de que as pessoas percebessem algo que sou, que até eu mesma ainda não tenha percebido, tenha feito com que determinadas peças do jogo tenham sido “ocultadas”. E esse jogo de esconde-esconde não é só com você, é com todos com quem me relaciono, e pra não perguntarem por mim, eu nunca perguntei por ninguém.

Em 1998, depois de algum tempo sem dar notícias, recebi este envelope 1 Na ocasião do recebimento deste bilhete um tanto quanto instigante, minha vida começava a seguir por caminhos cada vez mais tortuosos, embora Carla não tivesse como saber a esse respeito. Eu entraria num período de anos de isolamentos, autoexílios e tentativas fracassadas de me inserir nas artes, sempre sugado por relações tóxicas com aspirantes ao poder, e ao mesmo tempo com um orgulho imenso de querer demonstrar força em minha defesa. Nesses anos, não nos falamos tanto. Quando publiquei meu primeiro livro, “Nicotina Zero”, em que refaço essa trilha de escalada e derrocada na noite paulistana, ela aplaudiu de longe. Quando publiquei o segundo, “Itinerários para o fim do mundo” lhe enviei um exemplar, que ela leu com prazer, talvez identificando sua busca por viagens de autoreconhecimento.

Ano passado, em 2017, pouco antes de completarmos 40 anos, Carla me enviou, também pelo correio, um cartão postal, com uma foto aérea do arquipélago de Galápagos, no Pacífico, mas carimbo de Londres, datado de um mês antes do recebimento. No verso, sua letra clara versava, ocupando cada espacinho, numa diagonal:

Acho que é tempo de nos encontrarmos de novo. Estou há um ano fora do Brasil, já percorri vários lugares. Prefiro não dizer onde estou agora, faz parte do meu plano de nunca mais “me encontrar”. Você faz parte deste plano, Ale. Logo receberá notícias boas e salutares, que poderão ser boas para você também, até onde me foi dado saber. Nosso destino final é Galápagos. Ale, precisarei de seus favores para unir alguns pontos, você é escritor. Não quero atrapalhar seus planos no momento, prepare-se para uma longa jornada de um mês daqui menos de um ano, em meados de 2018. Não ficarei na Europa por muitos dias mais, tenho um sonho a realizar no Oriente antes disso. Durante esse tempo, estarei com meu e-mail e celular desativados. Quanto às redes sociais, ignoro-as desde que deixei São Paulo. Envio notícias, espero que em breve. Pense no amor. Um beijo, Carla.

Após ter digerido por alguns minutos a bela surpresa com que Carla havia me presenteado, tentei mandar mensagem, ligar para seu celular, sua casa, e nada. Cheguei a acessar seus perfis nas redes sociais e vi que seu último post era de um ano atrás, um aviso geral aos amigos e familiares para que a procurassem apenas quando estritamente necessário, durante os doze meses seguintes, em que estaria de licença num ano sabático, nos destinos mais variados e imprevisíveis. Pelos comentários ao post, ninguém ainda sabia qual seria o destino insólito de Carlaitzah. Havia apenas uma mensagem de uma amiga desejando uma boa recuperação em casa e uma viagem cheia de beleza e força. Não duvidei, afinal, já conhecia não somente suas escolhas turísticas exóticas, como também sua tendência hipocondríaca, a qual já a levara para a mesa de cirurgia meia dúzia de vezes. Sempre que ela me avisava que ia fazer uma pequena intervenção, não sei em qual glândula do corpo, imaginava logo suas pálpebras largas, por cima dos globos grandes e lúcidos, finamente enrugadas desde a infância. Era como as pálpebras de uma tartaruga centenária gigante, espécie única e antiquíssima, provinda das mesmas ilhas Galápagos, se dobrando lentas e rochosas pelo peso uma grande compreensão das dores do mundo, às quais Carla mandava cortar de seu corpo pelo intervalo de uma anestesia geral. Creio que sua repulsa pelas tartarugas tenha a ver com um espelhamento dolorido e ancestral, ao menos poeticamente.

Mas tudo não passa de impressões que, mesmo após vinte anos de observação, não deixam de ser incipientes e primárias. Na vida, eu e Carla nos aceitamos. E, ao menos por esses dias após o recebimento de sua mais estranha carta, eu poderia esperar em paz por novidades deste enredo que a Srta. Soledad preparava para nós, por motivações que espero um dia começar a entender, mesmo já tendo presenciado durante meses o que venho contar, seu destino mais insano.


Alexandre Rabelo (São Paulo, Brasil). É autor do romance Nicotina Zero (Editora Hoo, 2015), vencedor do 5º. Prêmio Papomix da Diversidade na categoria Livro do Ano. Dramaturgo do espetáculo Anatomia do Fauno, foi vencedor do prêmio especial Suzy Capó, no 24º Festival Mix Brasil, em 2016.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.