«O céu está alegremente salpicado de estrelas cintilantes, e a Via Láctea destaca-se com tal claridade, como se antes da festa alguém a tivesse lavado e esfregado com neve…»
Anton Tchékhov

Rosana Batista era uma menina de onze anos quando fora entregue para uma família de classe média alta de São Paulo. Naquela noite ela chorou mais uma vez no quartinho sem janelas da área de serviço do apartamento. Sentia-se sozinha e abandonada. Encostou a porta que dava para a lavanderia e pegou sob o travesseiro o bloco de papel, a caneta Bic e o envelope que furtara de uma gaveta da sala de televisão.
“Querida vovó Lurdes Batista” — redigiu ela. “Escrevo esta carta para pedir à senhora que venha me buscar”.
Rosana parou e olhou para o papel. Releu a primeira frase. Respirou profundamente e enxugou as lágrimas.
“Estou nesta casa há três meses, eu acho. Não sei muito bem. O senhor e a senhora Freitas me tratam muito mal. Eu vi quando eles prometeram à senhora que eu teria estudo aqui, eles chegaram sorridentes na cozinha da fazenda do senhor Vieira, disseram que ali eu seria um peso depois que mamãe morreu e que o meu futuro estava na capital, com eles e com seus dois filhos, eu seria a filha que eles não tiveram…”
A menina imaginou a avó na cozinha fazendo as comidas que o senhor Vieira adorava, o cheiro da lenha e da manteiga derretendo, do pão no forno. Ela pensou em pegar alguma coisa para comer na geladeira, mas se lembrou da única vez que fez isso e da surra que levou da dona da casa, senhora Márcia. Era ela quem fazia seu prato diariamente e não podia comer nada fora das três refeições. Mais lágrimas escorreram pelo seu rosto. Rosana as enxugou e continuou a escrever:

“Vovó, a senhora Márcia é uma bruxa, ela é muito má comigo. Ela me acorda para eu arrumar as crianças para ir para a escola, depois me obriga a varrer a casa e a passar pano nos móveis. Outro dia deixei cair e quebrar alguns copos, ela gritou comigo e disse que eu pagaria por eles, que eram caros. Ela brigava comigo com um caco de vidro na mão, achei que fosse me cortar”.
“Ah, vovó, a senhora sabe que não sou de reclamar das coisas, que eu a ajudava na cozinha, eu varria o chão para a senhora, por causa da sua dor nas costas, lembra? E a senhora me dava aqueles pães maravilhosos que preparava para o senhor Vieira. Era tão boa a vida na fazenda, mesmo depois que a mamãe morreu daquela doença terrível no pulmão. Foi tudo tão rápido. A tosse que não parava, depois o sangue, aí ela foi para o hospital e não voltou mais. Sinto muita falta da mamãe, e da senhora também. Eu sei que achou que era o melhor para mim, mas eu tenho medo de morrer se ficar aqui”.
“As crianças são pequenas, o mais velho tem sete anos e o caçula, cinco. Eles gostam de mim, mas eu não posso brincar com eles. Eu não posso brincar com ninguém. E que falta eu sinto! O Pedrinho, filho do seu Antônio, como ele está? Ele ainda vai mergulhar no açude? Aqui no prédio tem piscina, eu vi da janela outro dia. Não posso descer. Não posso sair do apartamento”.
Rosana suspirou e se lembrou dos passeios que dava até o açude depois da escola com o Pedrinho, filho do administrador da fazenda. Os dois atravessavam um bosque de pinhais, e no verão a sombra das árvores refrescava seus corpos e era sempre muito agradável. Éramos tão felizes, pensou a menina, com lágrimas escorrendo na face outra vez.
“Saí apenas uma vez nesses meses que estou aqui para ajudar a senhora Márcia a levar as crianças num shopping” — continuou. — “Eu nunca tinha visto vitrines tão iluminadas, pareciam aquelas luzes que colocamos na varanda do casarão nas épocas de festas em junho. E São Paulo é tão grande, tão cheia de carros. Os prédios são altos e as pessoas são muito ricas, mas vi também na rua quando passamos de carro algumas pessoas pobres deitadas na calçada. É triste demais, vovó. Tudo aqui é triste demais. E eu estou com muito medo. Não é somente da senhora Márcia. É do senhor Carlos também. Acho que tenho até mais pavor dele do que dela. Ele sempre me olha de forma estranha, e outro dia ele deu um tapa no meu bumbum e disse que eu era crescidinha para onze anos. Eu nunca tive tanto medo em toda a minha vida”.
“Vovó amada, por favor, eu suplico à senhora, venha me buscar. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor, não me abandone. Tem dó de mim, vovó. Serei sempre sua netinha, Rosana.”
A menina soltou o papel do bloco, dobrou e colocou dentro do envelope. Guardou tudo sob o travesseiro. Precisava agora arrumar um jeito de colocar a carta nos Correios. Lembrou-se que faltara algo. Pegou novamente o envelope e a caneta e escreveu:
“Para a vovó Lurdes, na fazenda do senhor Vieira”.


Rodrigo Novaes de Almeida (São Paulo, Brasil). É escritor e editor. Carioca, reside em São Paulo. Em novembro de 2016 criou a Revista Gueto, portal de literatura que publica, divulga e lança escritores e poetas em língua portuguesa. É autor do livro Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018).

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.