«sua presença dava uma cor fantástica para as coisas mais simples; quando sua mão tocava algum objeto, parecia que este havia ingressado no mundo dos sonhos»
Giovanni Papini

Destinava-me ao sul da cidade, mas o trem permaneceu indefinidamente na antepenúltima estação.
Acreditei que a demora poderia ser atribuída a algum comboio de carga descarrilado na linha, acidente este, todavia não faria nenhum sentido, sendo certo que trens do metrô não transportavam carga, ao menos deixando à margem o pessimismo. Como se fizesse excessivo o atraso e o sistema de som nada informasse, pensei numa provável desconsideração à minha pessoa, em virtude de ser eu provavelmente o único passageiro do trem naquela madrugada de domingo para segunda-feira.
Viveu apenas na minha mente a ideia de folhear o novo exemplar d’As mil e uma noites de Weil que carregava comigo, já que, assim que fiz menção de abri-lo, as luzes se apagaram. Deitei o livro no assento à minha esquerda e peguei a fazer o que qualquer cidadão comum fizesse no apagar-se das luzes de um vagão à madrugada de domingo para a segunda-feira: redispus as ancas e puxei uma palha.
E com o sono, os sonhos. Sonho uma prisão profunda e de pedra; sua forma, a de um hemisfério quase perfeito. Um muro corta-a no meio; embora altíssimo, não toca a parte superior da abóbada; de um lado estou eu, do outro lado, um coelhinho, pequeno como um coelhinho de chocolate, mas branco e inteiramente um coelhinho — vejo-o através de uma longa janela com barras ao rés do chão que corta o muro central. Escala prazenteiro um grande vaso onde cresce um trevo e, envolvendo-o com um veloz molinete do focinho, põe-se a comê-lo.

Desperto bruscamente ao súbito retorno das luzes do vagão, ainda estacionado. Aborrecido pela interrupção do afazer inconsciente, desacato o jugo luminoso: pestanejo e, num passe de foda-se, entibio a claridade, e a termino. Tendente a grego, encarno Érebo em plena linha verde do metrô: rebento cosmopolita do caos, regresso às trevas, e ao sonho — a mesma prisão de pedra. Do outro lado do muro, onde antes havia coelhinho e vaso com trevo, não há nem um, nem outro; há, ali, um grão de areia, único. Passeio à janela de barras, dado a inquiridor, mas, como a espicaçar-me o trem para arrastar-me de volta à realidade, desperta-me outra vez. Não me importando o mecanismo dos fatos, porém, ao externo e luminoso piscar oponho novamente o dos olhos: as luzes se dissipam — é, o todo, bruma; ali, antenasal, de mim não há palmo.
Sonho a mesma prisão e no piso da cela contígua há dois grãos de areia, vejo-os de mais perto, quero tocá-los; as luzes, mensageiras perversas de Zeus, porfiam em sua campanha. E assim sonho e desperto, irritante e indefinidamente, num prélio dualista de fazer morrer de inveja o taoismo; sem penumbra, sem meia-luz — oitoitenta, diz-se. E, assim, três grãos, quatro grãos, cinco grãos, seis, sete, oito… multiplicam-se até o inumerável, suficientes para preencher toda a prisão, sufocando-me. Com a areia já ao nariz, resto à bica de dar o couro às varas.
Desperto ao recurso sonoro que anuncia a estação seguinte. Não há cintilância: a luminescência preenche o vagão deve algum tempo fazer. Com alarme e revolta obtenho do painel superior que o sono úbere se protraíra por tempo suficiente para que o trem perfizesse quase uma volta, pois agora restavam cinco estações para meu destino; suficiente também para que mais uma alma insone ocupasse o vagão. À minha direita, quatro assentos depois de mim, vejo esse jovem de aspecto curioso: camiseta verde e bermuda preta, cabelo semiasterístico. Descobrindo minha mirada, adultera o olhar, esse jovem à minha frente de camiseta-verde-bermuda-preta que suponho haver-me em consideração há algum tempo. Cogito boanoitar-lhe, mas, antes que se organizem as boanoctívagas palavras, ele inclina-se adiante, coloca dois dedos na boca como uma pinça aberta e, depois de uma crispação do abdome, tira os dedos da boca, neles trazendo preso pelas orelhas um coelhinho — o mesmo que sonhei. Situa-o à mão espalmada e levanta sua penugem com uma carícia dos dedos; o coelhinho, parecendo satisfeito, esfrega o focinho em sua pele. E com outra carícia percorre com o indicador seu corpo frágil, das patinhas até alcançar-lhe as orelhinhas e segurá-las pela base, uma a cada mão, para depois distendê-las com um gesto brusco e compor um nó agressivo de fazer esganiçar o pequeno leporídeo; feito bagaço, ele o despeja num saco de lixo preto sob o assento.
Notando meu sobressalto, o jovem franqueia um sorriso e explica-me que De estação em estação me acontece vomitar um coelhinho, Mas por que deu o nó, pergunto, não percebe que o bichinho está chiando de dor, Eu sei, mas ele não estava bom, Como assim ele não estava bom, Quero dizer que ele não estava pronto, e por isso não poderia correr o risco de que ficasse por aí, correndo, principalmente em público, Então por que o vomitou, devia tê-lo segurado aí dentro, Não seria o melhor, sabe, quem quer ter um coelhinho bom precisa vomitar vários, acredite, esse é o meu trabalho.
O trem começa a perder velocidade e a gravação anasalada prediz com incompreensível ânimo a próxima estação. Religiosamente, em verde-preto, o jovem inclina-se adiante: repete o idêntico movimento dos dedos e vomita um segundo coelhinho. Toma tenência do animal tal fizera com o primeiro, percorrendo-lhe com o indicador a penugem e, ao fim, crismando minha nota de horror: estica-lhe as orelhas e as entremeia com rijeza à proporção de um laço aflitivo — o saco de lixo, depositário da nívea agonia, recebe nova dor.
Não faz isso, grito de penoso para ouvir em resposta Eu já expliquei: se não for assim, impossível ter coelhinho bom, E por que o nó, ou o saco de lixo, por que não solta o bichinho no jardim, precisa cumprir esse protocolo todo, Não é coisa obrigatória, mas é coisa boa, porque me estimula a continuar o trabalho, Mas se desprezar todo novo coelhinho, sem mais nem menos, seu trabalho será inútil, E de ser inútil o que a gente toda faz, de segunda a segunda, metida em terno e gravata debaixo de quentura e de canícula, ninguém nunca buzinou ao ouvido, por que então se buzinaria ao meu — encerra o jovem, de bem sortido para aquele tipo de provocação.
O ritual persiste, violenta e invariavelmente, coelhinho depois de coelhinho, até que chegasse minha estação. O rapaz vomita um novo: branco, felpudo, olhos caramelo (juro dedo com dedo tinha aroma de capim-cidreira). Se não quero perder a parada, devo descer agora, é o que penso, e contudo minhas pernas, imotas, aferrolham-me ao piso do vagão. Dessa imobilidade extraio voz para dizer Vamos, seja sincero, esse aí está perfeito, até cheiroso nasceu, Está bem melhor que os primeiros, não vou mentir, Então ficará com ele, não é mesmo, Não — e assim, sem aviso prévio, o jovem aplica às minúsculas orelhas nó de tão coeso movimento e tomba-o ao saco de lixo abarrotado e oscilante.
Um apito agudo — longe disso tudo, apitou o sinal das portas: despertei com um salto cambaleante, as ancas dormentes, e pulei para fora do trem pouco antes do fechamento das portas; na plataforma, desorientado, olhei através da janela de vidro do vagão: sem jovem, sem coelhinho, sem saco de lixo, apenas meu exemplar d’As mil e uma noites sobre um assento e o vazio de um trem na madrugada de domingo para a segunda-feira.

***

Este conto peguei a escrever tão logo pisei meu apartamento, inspirado por essa trama real que sonhei no trem, eu enlevado de ideias fantásticas, a testa inflamada e as mãos desejosas, sem tomar banho, sem escovar os dentes, sem nem ao menos despir a roupa suja, e o relógio digital ao inferior da tela informando as cinco horas e mais uns quebrados no momento em que bati o último ponto final e, antes mesmo de ler o resultado, pensei comigo que ainda havia muitas estações pela frente até o autêntico ponto final, até que, hoje, depois de assaltar luzes e reescrever sonhos compulsivamente, sem estranheza ou comoção entendo que final é uma palavra tão imprecisa quanto o tempo entre o bater das asas de um corvo, o comportamento dos ouriços e a mágica assombrosa das nuvens insufladas pelos vapores de um café, e que em meio a tanta imprecisão repressora (preconcebida ou casual), que não nos permite dar forma clara ao pensamento e à dor, podemos exprimi-los por meio de fábulas, sem com isso, todavia, deixar de dar voz àquilo que pulsa de modo mais imediato, como é o caso do sentimento que me contamina os mecanismos mais recônditos e me faz protestar que, se me perguntassem o que acho do meu próprio conto, diria que ainda não está pronto, ainda não está bom, e se me fosse permitido desejar algo ao prestígio, com os olhos abertos e a voz em grita eu pediria, sem atropelo ou hesitação: Eu queria que este conto tivesse orelhas.


André Balbo (São Paulo, Brasil) é editor da Lavoura e autor de Eu queria que este livro tivesse orelhas (Oito e meio, 2018) e Estórias autênticas (Patuá, 2017). Foi convidado da Flist e da Flipoços em 2018.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.