Tenho vinte e seis anos e um filho de nove anos que vai fazer dez. Sou ré primária e atualmente me encontro junto com minha amiga no sistema penitenciário acusadas de latrocínio, crime que não cometemos.
Na madrugada de 16 de julho de 2016 voltávamos de uma festa e próximo à nossa rua, indicamos ao taxista o local do destino. Quando o veículo parou, um cara chegou anunciando o assalto. Minha amiga estava sentada no carona e eu no banco de trás. O taxista reagiu ao assalto e o assaltante disparou um tiro, o qual passou de raspão na cabeça da minha amiga, atingindo a fronte do condutor do veículo.
Saímos do táxi desesperadas procurando ajuda, pois não sabíamos o que fazer naquela situação. Minha amiga baleada, quase desmaiada, o taxista morto e não tinha ninguém pra nos ajudar. A única ação que consegui naquele momento foi de segurar o pescoço da minha amiga e tentar levá-la ao hospital. Avisamos o que tinha acontecido com o taxista e por estarmos assustadas, não mencionamos que estávamos dentro do táxi, ficamos com medo e minha amiga acabou indo pra casa.
No dia seguinte do assalto, comuniquei à minha família o que eu e minha amiga passamos na noite anterior. Meu pai achou melhor irmos à delegacia e contarmos como tudo aconteceu.
Naquela madrugada, no táxi, além de mim e da minha amiga, tinha um rapaz que “dividiria” a corrida com a gente na volta pra casa. Eu estava sem dinheiro. Minha amiga só concordou dividir a corrida com ele porque o conhecia do bairro e porque o trajeto fazia parte do caminho.
Representado pelo advogado na delegacia, o rapaz nos acusou de ter combinado a execução do crime. Esse mesmo rapaz já tinha passagem pela polícia. Estávamos ainda sem entender o que tinha acontecido. Após quatro meses fomos presas. Quando cheguei à unidade chorei muito e pensava: “Meu Deus, vou morrer aqui”. É porque latrocínio tem pena muito alta. Porém não existem provas que comprovem minha participação no crime. Nunca tive em delegacia, nunca tive passagem pela polícia, nunca trafiquei, nunca roubei.

Na comunidade onde eu moro, todo mundo me conhece e gosta de mim. Na minha audiência todos os meus vizinhos foram depor ao meu favor. Não sei se foi o destino ou permissão de Deus eu estar aqui presa. Mas tudo que tem seu lado ruim tem o lado bom também. Aconteceram muitas coisas boas eu aqui na unidade. Em setembro ganhei o Concurso de Miss Primavera com direto a fotos e tudo.
Estudo (já terminei o terceiro grau, mas aqui eu estou fazendo novamente o 3° ano) e só não trabalho porque tenho um problema na tiroide que preciso operar. Fiz amizades.
A sociedade pensa que todo mundo que tá preso é bandido, mas não é. Aqui tem muitas pessoas que são presas inocentes. Faz um ano e um mês que estou na unidade. Ainda não tive visita da minha mãe desde que cheguei aqui, só a vi na audiência. Depois que fui reclusa, ela ficou depressiva e começou a tomar remédios. Minha mãe não consegue me ver aqui. Ela não me educou para eu estar aqui. Sei que ela não vem me ver, mas sei que ela vai estar me esperando quando eu sair. Peço perdão aos meus pais através de cartas. Minha mãe é uma inspiração na minha vida, cuidou de mim, das minhas irmãs e cuida do meu filho. Eu sinto que meu alvará está chegando. Não desejo cadeia nem para o meu pior inimigo. Aqui, se a pessoa tem um biscoito, a pessoa só vale o biscoito, se tem um copo de refrigerante, só vale o copo de refrigerante. Aqui a gente aprende muita coisa. Espero sair daqui pra ter uma vida diferente. Estudar, fazer faculdade, cuidar do meu filho que muitas vezes por ele, preciso engolir o choro.
Penso que eu poderia ter morrido no assalto e graças a Deus estou viva. Espero um dia ter a oportunidade de explicar para a família do taxista tudo o que aconteceu naquela noite. Nunca imaginei na vida que eu iria presenciar alguém morrendo nem que ia ser presa. Tem momentos que eu vejo o tempo passar e não acredito que estou presa.


Priscila Urpia (Recife, Brasil). É jornalista, fotógrafa, curadora e produtora audiovisual. É autora da exposição fotográfica documental Ovelhas, que retrata o universo de mulheres encarceradas da Colônia Penal Feminina do Recife, mais conhecida como Bom Pastor.

Luanda foi eleita “Miss Primavera 2017” da Colônia Penal Feminina do Recife. Após 18 meses presa ganhou a liberdade e foi declarada inocente. Atualmente se dedica a cuidar do seu filho e da sua carreira como modelo.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.