24 de agosto do ano 79 da Era Cristã. Naquela quinta-feira, prolongando-se pelos dois dias subsequentes, Pompeia, uma das cidades mais prósperas do Império Romano, sofreria uma das mais catastróficas erupções vulcânicas da História e desapareceria junto com Herculano e Estábia, cidades menores e menos importantes do que ela, para serem (re) descobertas somente dezesseis séculos depois.
A localização privilegiada de Pompeia, na Baía de Nápoles, atraía comerciantes estrangeiros como os fenícios, que supriam a cidade com produtos exóticos trazidos da Ásia e da África. Amuralhada, tinha oito entradas, duas ruas principais e diversas ruas secundárias que abrigavam casas e o comércio local (bares, banheiros públicos, padarias, lavanderias, bancos, bordéis, etc.) e a separavam da zona rural, onde ricas fazendas abasteciam os quase vinte mil habitantes com olivas, trigo e uvas – primordiais para a dieta mediterrânea. A elite era formada por fabricantes de tecidos, donos de casas de banho, como as famosas Termas Estabianas, e grandes negociantes que tinham suas casas construídas sobre seus estabelecimentos. Os mais abastados possuíam seus próprios barcos, ancorados no porto, e entre as suntuosas mansões e casas de veraneio, podia-se ver tanto a influência romana como a grega na arquitetura e na decoração, com seus mosaicos, afrescos, jardins e estátuas. Alguns exemplos dessas esplêndidas moradas são, a saber: a Casa dos Vettii, a Casa do Fauno, a Casa do Poeta, a Vila do Mistério, a Casa da Fonte Grande e a Casa da Âncora.
Naquele 24 de agosto a cidade amanheceu lentamente: no dia anterior festejara-se em todo o Império o Dia de Vulcano, Deus do Fogo (uma coincidência macabra com o que aconteceria em seguida), com lutas de gladiadores no anfiteatro – o que provavelmente fez com que poucas pessoas estivessem nas ruas cedo da manhã, mas ainda nas celebrações, e não se detivessem para observar a insuspeitada fumaça que pairava há dois dias sobre a “montanha” não muito distante dali, em cujo entorno se caçavam javalis – o Vesúvio. Até então ninguém imaginara que aquele gigante adormecido era, na verdade, um vulcão inativo há quase dois mil anos; tampouco se sabia que a terra fértil ao seu redor e da qual se orgulhavam era devido à sua sólida presença.

Ao meio-dia, com o sol a pino, em pleno verão, ele despertou com um forte estrondo e um abalo sísmico de tal proporção que fez os habitantes de Pompeia ficarem extasiados ao verem aquela “montanha”, até então tranquila, cuspir lava e pedras incandescentes a dez mil metros de altura, em um espetáculo dantesco e, ao mesmo tempo, hipnotizante. Os vinte e quatro quilômetros que separavam o Vesúvio de Pompeia foram sendo rapidamente tragados pela lava que descia impetuosa. O dia fez-se noite em pouco tempo, uma vez que a densa fumaça ofuscou completamente a luz solar. Naquele cenário onde se misturavam fogo, calor, escuridão, cinzas, poeira, fumaça, gritos, choros, lamentos e preces aos deuses, muitos fugiram e muitos ficaram.
Os que acreditaram que os deuses viriam em seu socorro trancaram-se em suas casas fazendo promessas e sacrifícios ou escondendo seus tesouros. Todos esses morreram soterrados quando os telhados, pesados de pedras e cinzas, desabaram, derrubando consigo paredes e trancando seus donos de maneira irremediável. Houve os que se esconderam nas adegas subterrâneas, no cemitério e nos templos, mas que não conseguiram escapar da morte que campeava solta entre eles, em busca de mais vítimas. Os que optaram pela evasão imediata, tentaram alcançar o mar. A avareza roçou a mente dos que não queriam fugir sem seus pertences e no desespero por levarem consigo joias e moedas, que teimavam em cair, atrasando-os, foram alcançados pela lava escaldante. Quem não foi suficientemente rápido, quem levava peso, crianças ou idosos consigo também teve o mesmo fim. Aqueles que chegaram à praia acreditando que se salvariam, igualmente pereceram, alcançados pela lava que ultrapassou areia e rochas e entrou mar adentro, atingindo o Egito e a Síria, do outro lado do Mediterrâneo.
Três horas depois de iniciada a erupção, já quase nada sobrava em Pompeia. Onde antes existira uma cidade borbulhante de vida, libertinagem e comércio, o caos imperava absoluto. Ao cabo de doze horas, o pior aconteceu: uma avalanche de pedras ardentes, a seiscentos graus de temperatura, desceu vulcão abaixo a cento e vinte quilômetros por hora e atingiu a cidade. A onda de calor e os gases venenosos advindos com ela acabaram de matar quem ainda tentava permanecer vivo. Ao cabo daqueles três dias de incessante atividade vulcânica, as cidades de Pompeia, Herculano e Estábia foram sumariamente “varridas do mapa”, enterradas junto com seus habitantes e suas memórias debaixo de mais de vinte metros de lava petrificada. Tentativas vãs de desenterrá-las, ao longo dos séculos, não obtiveram o êxito esperado. Muitas foram as expedições que objetivavam apenas saqueá-las, mas tampouco tiveram sucesso.
Somente em 1784 iniciaram-se as escavações metódicas, impulsionadas pela paciência e pela perseverança que a Arqueologia exige. O resultado foi inacreditável: não somente foi possível reconstruir a cidade com sua imagem original, como o preciso momento do holocausto. A lava tanto destruiu como conservou a cidade. Na pressa, os moradores deixaram para trás seus pertences, suas casas, e, por fim, suas histórias e suas vidas. Podemos ver as mesas postas para o almoço, os pães que nunca chegaram a ser assados no forno de uma padaria, odres e moedas sobre o balcão de um dos bares, ovos cozidos semi descascados em uma cozinha, baús abertos na correria que se instalou para se salvar os bens mais valiosos que neles se encontravam, e o mais cruel daquele cenário apocalíptico: nas ruas e na praia ali perto, para onde rumou uma grande parcela dos aflitos, os quase quatro mil corpos encontrados até agora, calcinados pela lava incandescente. Ao cobrir as pessoas que caíam a seu passo, a lava derreteu-lhes músculos e ossos instantaneamente e serviu-lhes de molde corporal, eternizando-os na exata posição em que estavam quando foram surpreendidos pela morte: alguns morreram abraçados com seus entes queridos, outros segurando moedas e joias, outros ainda cobrindo o rosto com as mãos ou encurvando-se em posição fetal, no momento de dor e desespero supremos. Chama-nos a atenção um cachorro com as patas acorrentadas, retorcendo-se para livrar-se delas, petrificado, e os presos no subsolo da cadeia pública, que pereceram sem terem tido o benefício da fuga e que representam a impotência dos pompeianos diante daquele inesperado evento de indescritível agonia.
Pompeia se imobilizara no exato momento de sua morte, como se conservando intocável à espera de um funeral condigno. As escavações ainda não terminaram completamente, mas esta zona de Pompeia assim restaurada, oferece mais do que outras, uma visão integral, por assim dizer, de uma cidade antiga e que morreu de pé.


Yls Rabelo Câmara (Fortaleza, 1972). Doutora em Filologia Inglesa pela Universidad de Santiago de Compostela.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.