Abertura do livro A menina que gostava de contar estrelas, de Flávia Bechtinger.

Já era noite e, como de praxe, nos reunimos para contar e ouvir histórias. Como eu gostava de ouvir o que os mais velhos tinham para dizer, ouvia mais e falava menos. Desse jeito, aprendia alguma coisa que eu ainda não sabia. Ouvia atentamente tudo o que eles tinham para me passar até o dia seguinte chegar.
Numa dessas noites, me contaram uma história surpreendente, e eu fiquei pensando nisso por dias. Eu não sabia que quando uma estrela chega ao fim da sua vida, ela explode e emite uma luz brilhante capaz de iluminar o Universo. É quando ela morre que pode ser vista como estrela. Antes disso, não. Quando explode, ela se desintegra e fim, se transforma, deixa de ser, vira outra coisa. Só que como a luz demora a chegar, ao ser percebida por você, ela já não é o que era e está completamente diferente. Precisou morrer para renascer, e é possível que você tenha perdido parte desse espetáculo.
Uma explosão, um caos acaba e dá o início à vida de uma estrela. Antes da explosão, ela estava lá, mas ninguém conseguia percebê-la. Início e fim interligados. Quando deixamos para trás a nossa forma antiga, é que somos capazes de nos revelar mais iluminadas. Termina uma etapa e começa outra.
As estrelas são o elemento fundamental da criação do Universo e, quando em conjunto, formam uma constelação. A diferença entre uma estrela e um planeta é que a primeira tem um brilho diferente. A forma como ela brilha a torna especial e como eu sei disso… As mais brilhantes, inclusive ganham um nome só para elas. E sabe que me sinto capaz de reconhecer o brilho de cada uma delas? É como eu as percebo também.
As estrelas podem ter cinco ou seis pontas e a luz que emitem vem a partir do centro. É liberada uma energia que atravessa o seu interior e irradia para o espaço. Parece ser assim com todas as pessoas também. A luz que uma estrela emite quando explode viaja por milênios até chegar à Terra. São milhares de anos para ela se revelar. É assim: quando ela se transforma, ela emite uma luz fortíssima capaz de viajar numa velocidade e força poderosas. Geralmente, essa luz vai ficando mais brilhante à medida que a pessoa vai deixando morrer o que a prendia no seu antigo formato. Quanto mais passa por transformações, mais expandida fica. E alcança outros seres com essa luz. As pessoas e estrelas.
No meio da conversa, disseram também que a quantidade total de massa de uma estrela determina a sua evolução e também seu destino. Passado e futuro juntos, decididos pelo o que ela traz consigo. Era tanta informação que eu ficava quietinha para ver se conseguia absorver mais desses aprendizados que eram passados de geração em geração.
Quando duas estrelas estão em órbitas próximas, a interação entre elas pode mudar toda a história de cada uma delas. – Isso não é demais? É como experimentar o que o outro sente, saber dos seus segredos. Um encontro que transforma as partes.
E isso diz muito sobre esta história aqui.
Essa não; essas. Pois são histórias dentro de histórias, dentro de histórias…  


Flávia Bechtinger (Rio de Janeiro, Brasil). É formada em Comunicação Social, Master Trainer em Programação Neurolinguística. É também escritora e palestrante. Tem uma coluna no site Obvious e na página Poesia que sorri. Em 2015, viveu momentos de grandes transformações e escrever foi o meio que encontrou de colocar para fora tudo o que estava sentindo. Era uma forma de organizar e reconhecer o que se passava por dentro. Quando ela não estava entendendo nada, escrever parecia dar sentido a tudo aquilo. Isso foi confortando e inspirando pessoas que passavam por situações semelhantes.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.