O que o corpo almeja é estado de fantasma. Só assim a tranquilidade. Saúde é não saber tê-lo. É na topada que se descobrem os dedos do pé, de modo que ao tronco de árvore cortada rente ao solo, à pedra mal encaixada no pavimento, à quina do móvel na penumbra é que se deve seu nascimento — doloroso como há de ser; a esses obstáculos que atraem as extremidades dos distraídos é que se deve o vir ao mundo dos dedos dos pés, de cuja posse até então nem suspeitávamos. O ideal é seguir caminhando rumo ao destino sem sequer ter a consciência de que há calcanhares que sustentam pernas que sustentam bacia que sustenta tronco que sustenta pescoço que ostenta cabeça: nobreza do corpo. Mas, e a brisa fresquinha em tarde canicular? E a lambida das mãos da mulher apreciada nas costas da gente? E os dedos rugosos da mãe fazendo cafuné no cocuruto macio do filho? Não nos dão testemunho do nosso invólucro, mas de maneira agradável? Sim. Mas aí, é justamente por bons que se convertem em ruins, confirmando a mais-valia dos estados fantasmáticos de nossa carcaça. A brisa para de soprar, e o calor, ao qual já nos teríamos acostumado não fosse o alívio fugaz, torna-se ainda mais escaldante. As mãos da mulher apreciada vão lambiscar outros corpos ou enregelam-se para sempre. Fica na mente a memória da fruição da carne, e passa então o corpo ao outro extremo, dói no ponto em que já não é tocado. Os dedos rugosos da mãe enrugam-se mais e mais e mais, até que, não sendo possível a mão virar do avesso e caber dentro das rugas, o processo se interrompe e, bem, é hora de aceitar que o filho enterra a mãe, se a natureza bem segue seu curso. O que era, no saber da existência do corpo, um conforto transforma-se então em mau jeito. De tudo isso, o que se depreende é que flutuar por aí apenas pensando e falando e mantendo imperceptível para si mesmo a carnalidade, como se fôssemos espíritos, é o caminho mais tranquilo e perene para a felicidade. Felicidade que, desde que a fome se abatera sobre as casas mais simples do vilarejo — quase todas as que por lá havia —, por conta do desaparecimento dos diamantes, abandonara Silvério. O choro do corpo querendo se fazer notar nesse novo nascimento vinha de seu interior: era a barriga, vazia havia muitas horas, alimentada com muito menos regularidade do que o necessário, quem insistia em chamar a atenção. Doía-lhe muito. E, não satisfeita, como líder do bando, cabeça de uma rebelião, ela exigia dos demais habitantes de sua emagrecida morada alistamento na batalha: as pernas tremiam e pareciam não ser mais pilares confiáveis. A boca fechara suas comportas e a garganta parecia mais seca do que de hábito — ainda que não lhe faltasse água —, pois estava sempre a engolir o nada e isso a drenava. As têmporas latejavam, era como se ali se instalasse o bumbo que ditava o ritmo do exército rebelde que o estômago vazio comandava. Silvério sentia-se muito mal.
No saco havia ainda um pouco de farinha. Sozinha não descia, entupia as entradas. A última mandioca fora cozida no dia anterior. Passada, também ela parecia farinar-se na boca. Por sorte a noite era quente e o calor apaziguava a má sensação. No frio, não sabia a razão, comia demasiado, prato cheio era pouco. Talvez a comida fosse a lenha de que o bucho necessitasse para aquecer o corpo quando o vento gelado descia do alto dos morros e passeava pela casa. Normalmente, não era dado a sonhos de mesa farta. Satisfazia-se com o que houvesse e o sabor, quando em demasia, causava-lhe até certa culpa: queria mais o sofrimento, a penitência na vida ordinária que garantiria os merecimentos divinos. Isso era o que gostava de fingir e o que afirmava por aí, e não o que os companheiros observavam na lida. Chegasse alguém com o beiju que a esposa preparara e, fraterno, oferecesse aos companheiros, Silvério era o primeiro a aceitar, para em seguida lamber os beiços e soltar, desinteressado: “Se sobrar um restinho…”. De tal forma o homem se convencera de sua conduta ascética que o salvo-conduto sagrado permitia-lhe toda e qualquer forma daquilo que considerava pecado. O momento, no entanto, era de real necessidade. Era tanta sua fraqueza que, fosse-lhe oferecida por um anjo, naquele casebre modesto, a possibilidade de emprenhar-se da pedra brilhante com que tanto sonhava, pedra que — porque algum martírio os abençoados haviam de sofrer, para que se tornassem exemplo para os vindouros — seria parida pelos canais disponíveis não sem alguma dor, mais aguda quanto maior fosse a riqueza que dela adviria, Silvério a recusaria, em troca de que a vestimenta alva e diáfana do anjo se transformasse em camisa branca de cozinheiro e a oferenda deixasse de ser a concepção da pedra e se tornasse uma digna pratada de carne de bode.
Não podia mais. Era devoto, contaria com a devoção dos demais: algum haveria de compartilhar o pão com ele. Saiu sem apagar o candeeiro e escolheu seu caminho. Perto dali vivia a família de Diogo, com quem já havia algum tempo Silvério não se encontrava. De longe, avistou um foco de luz pela janela aberta. Diante da porta, bateu palmas e chamou por Diogo. Quem abriu foi Inácio.
— Boa noite, Inácio, posso ter com Diogo? — Silvério perguntou e foi logo entrando, sem esperar resposta. Dois passos porta adentro e já estava diante do velho, que descansava na poltrona. Cumprimentou-o tirando o chapéu. Inácio, temendo ser útil, saiu da casa e desapareceu. Diogo respondeu ao cumprimento de Silvério com uma palavra malformada, um resmungo. Bom motivo não podia haver para a vinda do carola. Ademais, sabia que Isaldina, que era apegada ao terço e às conversas das lavadeiras e ainda não superara a morte do filho, considerava aquele homem um dos únicos, se não o único, em todo o vilarejo, que dava o valor devido às escrituras. Ao ver que era mal recebido e que Diogo se impacientava, Silvério gaguejou em busca de uma explicação para estar ali. Passeou o olhar por todos os lados e notou que, na cozinha, Isaldina cobria com um pano algumas travessas.
— Bonitos os retratos, bonita a família do senhor, seu Diogo — foi só o que encontrou Silvério para vencer a humilhação.

— Diga logo a que veio, homem — Diogo respondeu, roufenho, e pronto a considerar provocação menção à família justamente quando ela se tornara para sempre incompleta.
— Pois sim. Vim para saber se, com todo o respeito e por Deus, o senhor não teria mandioca ou pão ou outro de comer para me vender, a pagamento futuro e garantido, o senhor sabe, acabou-se o que eu tinha, plantação não vingou, foi praga, pois foi, só pode ter sido — desembestou a mentir Silvério, nunca plantara uma mandioca sequer —, na próxima estação tenho que cuidar mais, no feijão deu caruncho, mas o que o senhor puder me dar não é dado, não, lhe asseguro, é vendido, tenho ainda um valor a receber pela última pedra que encontrei, o senhor crê que o coronel disse que não tinha ouro naquela hora? Eu nem não admiti, achei trapaça, mas Felício me disse “ora, homem, o coronel é de palavra”, e disse que mais dia menos dia recebo essas moedas, e aí o senhor já sabe, são para o senhor, modo de retribuir o favor.
Diogo se confundia com aquela papagaiada. Que história era aquela de pedra, de dinheiro a receber, se havia muito do chão ninguém dali lograva extrair riqueza? Enlouquecera de vez, o maldito do metido a santo? E desembestava a falar de alimento, se em todas as casas — se não vivesse isolado em suas rezas, o saberia — o alimento faltava e só os que desfrutavam de algum grau de compadrio do coronel fartavam-se, situação que não poderia durar. Diogo ainda ruminava os pensamentos quando Isaldina surgiu na sala.
— Diogo, eu posso separar um cadinho de… — ensaiou a senhora, que tanta ajuda já negara, por medo de dar a outros o que poderia faltar a seus filhos, mas que dessa vez sentira pena do faminto, movida sobretudo pelo medo de castigos. Negar ajuda a um homem de Deus como aquele? Antes de completar sua oferta, Diogo a interrompeu.
— Vá lá pra dentro, a conversa é de homem.
Silvério não esperou que a conversa de homem fosse inventada para justificar sua expulsão dali. Sentia-se humilhado e parecia, ainda que não soubesse exatamente como, que havia mesmo ofendido a família do velho garimpeiro com suas frases mal formuladas. Saiu da casa e caminhou sem destino. Revivia a tentativa de explicar a Diogo que sentia fome, algo que uma criança expressaria tão facilmente com um choro e que ele não fora capaz de dizer. Temia ter perdido as ideias. Como para convencer-se de que o mais essencial de que dispunha não lhe escapara, começou a rezar em voz alta, depressa, engatando uma palavra na outra, uma frase na seguinte, oração em oração, e, por estranho que parecesse, aquela corda grossa que sua boca expelia e que assustaria quem a notasse, aquele palavrório espesso deu-lhe o alívio de se crer capaz de expressar-se, porquanto por meio de suas palavras Deus ainda urdisse suas benignas tramas.


Estevão Azevedo (Rio Grande do Norte, Brasil). É mestre em literatura brasileira pela USP e editor. Publicou O som de nada acontecendo (Edições K), Nunca o nome do menino (Record), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2009, e narrativas curtas em antologias ou revistas na Alemanha e nos Estados Unidos. Tempo de espalhar pedras (Cosac Naify/Record), também publicado na Itália e em Portugal, foi finalista do Prêmio Oceanos e eleito o Livro do Ano pelo Prêmio São Paulo de Literatura de 2015. Além de ficção, escreve palíndromos.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.