E agora tornara-me cúmplice. Quartier Latin, cafés, artistas, escritores, tudo fervilhava na Paris dos anos vinte. O entreguerras. Picasso, Gertrude Stein, Fitzgerald. Mas eram Tatie e Hadley que me prendiam àquelas páginas, o jovem casal que adorava escapar das pessoas e se deliciar na companhia um do outro. Sei muito bem o que é afastar-me de todos e encontrar a paz. Ou estar a sós com meu amor. Virginia. Com ela, compartilho a fobia de viver. Faz tempo que ando assim, e agora, cada vez mais, há o receio do choque com a mão agressiva do mundo. Me sinto um pouco Hadley, ou Tatie. E Virginia, ela sente-se fora de contexto. O ano inteiro o traje social, pantalonas de cores sóbrias, camisas engomadas sempre novas. O cabelo domado, a pele tratada. E dentro, dentro um furor, ou para ser mais exata, uma indignação.
Imagino-a na sua baia de secretária o dia todo, seu reservatório, noventa centímetros. Na janela mais próxima, a escavadeira do outro lado da rua se debate ao revolver a terra e leva, de lá pra cá, de cá pra lá, restos de velhos sobrados, de quintais onde homens de negócios pilotaram velocípedes há não mais que vinte anos; a grua cabeça de dinossauro, a um passo de rebentar o vidro, bate na cara de Virginia e anuncia: aquele último trecho de sol e horizonte irá se perder. Para apreciar o céu, Virginia deduz, será preciso descer à rua e inclinar o pescoço para trás, até o limite dos nervos e músculos. Em compensação, sob os pés na baia, há um carpete macio com perfume americano. Na mesa, uma estação telefônica cibernética, um computador ligado à nuvem de prazos e agendas, e por todo lado fotos de paisagens que ela só vê no seu único mês de vida por ano. Nessa pequena jaula de conforto, Virginia baixa os olhos e se automatiza. Se tivesse possibilidade ou coragem ou mais ímpeto, Virginia teria sido fotógrafa ou veterinária ou psicóloga. Mas isso não vem ao caso agora.
Por ora, o que importa mesmo é falar da viagem, do único mês do ano em que Virginia se põe viva. Os outros onze meses equivalem à austeridade de Itaquera. E ninguém gosta de lembrar da mesa de fórmica amarela: ao seu redor os avôs e bisavôs calabreses com maços de minister no bolso, óculos a tombar do nariz, unhas encardidas de carvão. Apartadas ao pé da pia, as mulheres como que expulsas de si, cortando tomates e celebrando o dom de estarem casadas. Mas uma linha imaginária sempre as separou de seus homens, afinal de contas eles julgavam saber mais de política, mais de bocha, e francamente estavam convencidos de saber mais de suas mulheres que elas próprias.
Naquelas ocasiões em que todos se reuniam para se observarem mutuamente, Virginia deslizava para o solo e seu olhar perscrutava debaixo da mesa; detinha-se especialmente nas pernas enfileiradas, com três dedos de canelas expostos entre as meias de poliéster e a barra das calças. Conforme aqueles senhores mexiam freneticamente na fazenda sobre o joelho, decerto algum pano barato que a pele rejeitava, a visão hipnótica de Virginia aguçava-se. Para ela, aquele pedaço de canela era tão feio e tão frio e tão seboso e tão velho e tão, tão, tão desprezível em sua pobreza que ela imaginava ser culpa daquela brancura rachada a falta de uma panela fulgor para a mãe, um jogo de varetas para si e uma televisão colorida para alegrar as noites.
No entanto, o gosto pela miséria entranhava-se em cada um. Havia um orgulho e um prazer em ser pobre, um orgulho que brilhava a louça sobre a pia, um brilho asseado, uma cobrança de que nada fugisse dos olhos, dos limites, da pregação, nada poderia descansar, um só segundo que fosse. Ter atravessado o mar e encontrado uma terra boa, era uma benção que não se repetiria. Porque Deus só está disposto a ser bom uma única vez, pensavam. Vigiemos. Por isso, o recato era lei e os bens materiais ordenavam-se com rigorosa simetria e exatidão em cada cômodo. Nenhuma futilidade, apenas o estritamente necessário. Apenas todo o sacrifício ali existente. Um sacrifício pelos filhos, pela ordem, pela justiça glorificada pelo trabalho. Talvez por essa razão Virginia tenha se comportado tão mal diante dos pais, dos avôs, dos bisavôs, todos de plantão para inibir os germes da cobiça, da ambição e da prodigalidade.
Com certeza, esperavam mais de Virginia. Esperavam que a resignação já houvesse penetrado em suas veias, fazendo-lhe o sangue esfriar. Mas estavam errados.
Virginia completara seis anos e guardava, secretamente, a esperança de ganhar um presente de aniversário. Modesto, muito modesto. Nunca esperou algo fora do comum, o ordinário já era relevante, pois cedo aprendera, assim como na cozinha os pratos de vidro roxo inclinavam-se de modo absolutamente honesto sobre o escorredor de plástico, todos naquela família deveriam manter a postura dobrada, os olhos no bico do sapato e pouca ou nenhuma vontade de descobrir o mundo distante dali.
Entretanto, a infância dos netos de italianos era sem dúvida mais fácil que a vida das crianças nordestinas, recém-chegadas ao bairro. E também havia gelinho à venda nos quintais, e o gelinho era a grande democracia de Itaquera; um certo frenesi envolvia as pequenas filas que se formavam em volta das janelas das casas, onde o comércio se estabelecia com moedas e crianças de mãos ávidas por agarrar seu tubo de plástico colorido e sugar a vida toda ali.
Porém, naquela tarde, Virginia não comprara seu gelinho. Era um dia especial. Os brigadeiros estavam dispostos sobre o prato, não eram muitos, mas haviam sido enrolados com carinho e amor, e limpeza e dedicação, e por todas essas razões, a criança deveria estar alegre, mas não estava.
Naquela tarde, Virginia ganharia um presente do qual nunca se esqueceria. Nem depois de Paris, nem mesmo depois do café da manhã com prosecco em Madri.
Os tios trouxeram um embrulho vultoso. Papel brilhante e laço engomado envolviam a enorme caixa. Os pais a ajudaram a desatar o primeiro nó. Caixa aberta, rostinho iluminado, e outra caixa. Era a primeira vez que lhe preparavam aquele tipo de surpresa. Nunca havia experimentado esse gosto, a ansiedade acumulada para a explosão do prazer. Tinha a impressão que qualquer coisa incrível poderia sair dali, um urso de pelo macio, uma boneca de louça, um forte apache, uma cinderela da disney ou um carrinho de metal. Enfim, a última caixa. O barbante caiu sem muita resistência. E uma lista telefônica usada pesou sobre a mesa. A visão lhe paralisou. A mãe dobrou o pescoço à direita e à esquerda, deu um passo atrás. O pai retornou os óculos entre os olhos e torceu o lábio; como homem, cabia-lhe a cautela do silêncio. Alguma mulher poderia lhe salvar?
Um vestido preto, longo, reto, fechado ao pescoço, adiantou-se sobre o pacote, instruindo a todos: hoje em dia é muito importante ter uma lista telefônica em casa, mesmo para quem não possui telefone. E você, minha princesa, enfatizou a frase acariciando o queixo de Virginia, enquanto a criança retinha o choro, você precisa entender o valor desse bem desde já, muito jovem.
Por isso Virginia ansiava pela Espanha, como ansiou pela França e por todos os locais onde teve a chance de ser quase perdulária. A classe de seus modos sempre escondeu qualquer movimento em falso, nem mesmo um fio de riso vincava-se na sua face quando pedia prosecco ao garçom.
Prometera a si mesma que ninguém desconfiaria da força bruta com a qual seria capaz de desfolhar a lista telefônica, que ainda está lá em Itaquera, em cima do rack na casa dos pais, ao lado do cinzeiro de vidro ray-ban, no qual se lê, em letras destituídas de sua continuidade no tempo e no espaço, L brança d Poç s d Cal s.
Virginia odiava pensar que aquela náusea elementar, aquela náusea que grudou no cinzeiro ray-ban, nas lascas que se destacavam das cadeiras, no crochezinho a cobrir o botijão de gás, teria se recolhido em seu estômago ao financiar seus estudos, ou, por assim dizer, sua liberdade.
Nunca duvidou, a fuga era-lhe impossível e inadiável.


Paula Fábrio (São Paulo, Brasil). É mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP). Seu romance Um dia toparei comigo (editora Foz) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016. Desnorteio (editora Patuá), seu livro de estreia, venceu o mesmo prêmio em 2013. A autora dá aulas de escrita criativa e mantém uma coluna de entrevistas na Revista Pessoa. No segundo semestre de 2018, será lançado seu primeiro livro juvenil pela Edições SM, ainda sem título definido.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.