Pensando sobre cartas de amor antes de escrever outras.

Em fevereiro de 2012, no diário da Justiça do Trabalho da Paraíba, uma desesperada servidora escreveu o seguinte: “eu não sabia de nada de vocês, mas vocês sabiam de mim, e você sabia de nós duas!”, no que certamente foi a melhor coisa que o tal Diário já publicou.
A carta de amor, fruto de um ctrl+v equivocado, mostrava o coração derramado de uma amante, ao descobrir que o seu boy, que já tinha uma namorada, arrumara uma “’nova’ história triangular”, e isso ela não poderia suportar.
Essa tragédia de amor e chifre gerou o que considero a mais injusta exoneração do funcionalismo público brasileiro. A moça, por um erro pueril, ficou sem amor e sem emprego, além de ter sido exposta por uma coisa da qual nenhum de nós pode se eximir de todo, esse rocambole fatiado que é o amor. Vamos combinar que gafes de amor deveriam ser inimputáveis, e feliz da repartição pública que pode se gabar de ter em seus anais a racionalidade burocrática weberiana rasgada por um coração em frangalhos.
O caso me chamou a atenção, no meio de um longo interesse que tenho por cartas de amor, especificamente por cartas de amor de anônimos.
É longa a tradição de missivas apaixonadas de famosos, escritores, em sua maioria, que matam a mãe a beliscão pela atenção da pessoa amada, alguns no melhor estilo obsessivo “esse cara sou eu”, como Freud, que escreveu mais de 1500 cartas de amor a sua amada Martha, ao longo de quatro anos, quando quatro anos têm menos de 1500 dias.
As cartas são um gênero estudado desde a Grécia antiga, quando Demetrius publicou seu Sobre o estilo. A idade média formulou um bocado de teorias pra entender as cartas e a modernidade as dividiu em subgêneros, articulou maneirismo e, recentemente, o pesquisador francês Phillipe Lejeune questionou a quem pertence uma carta – pergunta pertinente num mundo cada vez mais superexposto – concluindo que, “uma vez na caixa, a carta passa a pertencer ao destinatário. Uma vez postada, reavê-la significa roubar”.
Mas, pera, estou lambendo o selo antes de fechar o envelope. Todas as teorias sobre cartas que li, mesmo as que tentam articular seu possível valor literário – o que é uma discussão bem besta – não parecem perceber uma beleza particular às cartas de amor: elas contam uma história. Uma história de amor.
Daí que aqui me interessa pensar as cartas sempre lidas como um conjunto, como um gênero narrativo e formulaico, porque esse lance de amor tende a seguir passinhos bem marcados como um bolero. Pra isso, vou articular as cartas a partir do gênero narrativo de amor por excelência, o romance melassunga. A ideia é traçar elementos comuns à fórmula desses romances pra entender as cartas de amor ou as histórias de amor como postas em cartas reais. Então lá vai. Pra deixar claro, romance melassunga são aqueles livros de banca tipo Sabrina, Júlia, Bianca, Barbara Cartland, cheios de conflitos amorosos e com final feliz, como uma televonela, só que com menos personagens e mais sacanagem. O melassunga é um dos gêneros mais populares do mundo e, a despeito de estar em decadência, a Harlequim, maior editora do gênero, vendia 1,5 bilhão de dólares em livros por ano nos EUA, em 2012 o equivalente a 17% do mercado de ficção, segundo o NY Times.
Mas o que é uma carta de amor?A carta de amor, fruto de um ctrl+v equivocado, mostrava o coração derramado de uma amante, ao descobrir que o seu boy, que já tinha uma namorada, arrumara uma “’nova’ história triangular”, e isso ela não poderia suportar.
Essa tragédia de amor e chifre gerou o que considero a mais injusta exoneração do funcionalismo público brasileiro. A moça, por um erro pueril, ficou sem amor e sem emprego, além de ter sido exposta por uma coisa da qual nenhum de nós pode se eximir de todo, esse rocambole fatiado que é o amor. Vamos combinar que gafes de amor deveriam ser inimputáveis, e feliz da repartição pública que pode se gabar de ter em seus anais a racionalidade burocrática weberiana rasgada por um coração em frangalhos.
O caso me chamou a atenção, no meio de um longo interesse que tenho por cartas de amor, especificamente por cartas de amor de anônimos.
É longa a tradição de missivas apaixonadas de famosos, escritores, em sua maioria, que matam a mãe a beliscão pela atenção da pessoa amada, alguns no melhor estilo obsessivo “esse cara sou eu”, como Freud, que escreveu mais de 1500 cartas de amor a sua amada Martha, ao longo de quatro anos, quando quatro anos têm menos de 1500 dias.
As cartas são um gênero estudado desde a Grécia antiga, quando Demetrius publicou seu Sobre o estilo. A idade média formulou um bocado de teorias pra entender as cartas e a modernidade as dividiu em subgêneros, articulou maneirismo e, recentemente, o pesquisador francês Phillipe Lejeune questionou a quem pertence uma carta – pergunta pertinente num mundo cada vez mais superexposto – concluindo que, “uma vez na caixa, a carta passa a pertencer ao destinatário. Uma vez postada, reavê-la significa roubar”.
Mas, pera, estou lambendo o selo antes de fechar o envelope. Todas as teorias sobre cartas que li, mesmo as que tentam articular seu possível valor literário – o que é uma discussão bem besta – não parecem perceber uma beleza particular às cartas de amor: elas contam uma história. Uma história de amor.
Daí que aqui me interessa pensar as cartas sempre lidas como um conjunto, como um gênero narrativo e formulaico, porque esse lance de amor tende a seguir passinhos bem marcados como um bolero. Pra isso, vou articular as cartas a partir do gênero narrativo de amor por excelência, o romance melassunga. A ideia é traçar elementos comuns à fórmula desses romances pra entender as cartas de amor ou as histórias de amor como postas em cartas reais. Então lá vai. Pra deixar claro, romance melassunga são aqueles livros de banca tipo Sabrina, Júlia, Bianca, Barbara Cartland, cheios de conflitos amorosos e com final feliz, como uma televonela, só que com menos personagens e mais sacanagem. O melassunga é um dos gêneros mais populares do mundo e, a despeito de estar em decadência, a Harlequim, maior editora do gênero, vendia 1,5 bilhão de dólares em livros por ano nos EUA, em 2012 o equivalente a 17% do mercado de ficção, segundo o NY Times.
Mas o que é uma carta de amor?
Uma carta de amor é um documento íntimo de um remetente a um destinatário, não secreto (nem cinicamente secreto) como um diário, posto que é escrita sempre a alguém, mas não se pretende pública. A carta é um documento num contexto social mais amplo, matizada de maneirismos que só interessam ao casal em questão: apelidos, frases de efeitos, referência a terceiros e aquela folia a dois que ninguém sabe porque ninguém viu.
Mas a carta é, sobretudo, um documento da distância. É o afastamento, mesmo que por pouco tempo, mesmo que de poucos metros, que motiva a escrita. Se você gosta de alguém que está ao alcance é muito mais legal pegar a pessoa que ficar derramando dramas baratos no papel.
A carta também é uma narrativa do desejo, mesmo que o desejo de, por contrariado, mandar o amante à merda. É essa vontade de fricções que enseja a escrita.
A carta, como o bolero, o brega, e o drama de amor em geral, é um gênero superlativo, um gênero do artigo definido no singular, onde tudo acontece pela última vez.
Ao contrário dos romances, as cartas não têm um final planejado. O amor é um passo pruma armadilha e esta tende a duas saídas: o fim da distância ou a distância abissal, que leva à inexistência, ou como diria Monteiro Lobato, numa carta à sua amada, D. Purezinha: “a distância apaga o amor”. Seja como for, a narrativa da carta de amor acaba numa interrupção, e resta ao leitor supor o que aconteceu depois da última.
Mas vamos ao romance.
O romance melassunga é uma literatura formulaica, que segue uma série de inflexões dramáticas responsáveis pela própria definição do gênero, uma variação da jornada do herói do Joseph Campbell.
A pesquisadora americana Pamela Regis, em seu A natural history of the romance novel (romance novel é o termo em inglês pra romance melassunga) diz que há oito elementos essenciais, que são a definição da sociedade, um momento que mostra como era o mundo e os personagens antes de se perceberem enamorados; daí rola o encontro, que não vou me dar ao trabalho de explicar, seguido da barreira, que podemos entender como o conflito, que precisa ser superado pra que a coisa role entre os dois; há também a atração, consequência direta do encontro, utilizada pra enfatizar o amor; o ponto alto da narrativa, a declaração, o ponto da morte ritual, quando o mocinho se declara à mocinha e o amor parece irremediavelmente morto, o ponto da morte ritual é como aquele flagrante do mocinho com a vilôa no Motel Cupido, superado pelo reconhecimento, a fase de desmoronamento da barreira, quando todos os malentendidos são esclarecidos, antes do desposamento, quando a noiva entra na igreja vestida de bolo e fim.
Pra não ficar falando no vazio, articular o romance melassunga e três conjuntos de cartas: um público, as Cartas de amor a Heloísa, de Graciliano Ramos, e outros dois que estou editando, Geninha,, de Mário Araújo, e Rogério,, de Assunção Portela (meu projeto de edição de cartas de amor de anônimos batiza os livros com os nomes dos destinatários, seguido de vírgula).
Cartas de amor a Heloísa é o discurso do método das cartas de amor. O sorumbático Graciliano Ramos, então concluindo seu primeiro romance, aos 36 anos, conhece a adolescente e pura Heloísa Medeiros, no natal de 1927. Levou 8 cartas para levá-la ao altar, em fevereiro do ano seguinte, num exercício de brilhantismo epistolar, pois como se pode ver pelas alusões às respostas recebidas, Heloísa não lhe dava muita bola. Viveram juntos até a morte do escritor.
Em 1950, o português Mário Araújo deitou cartas cheias de amor e respeito à sua amada Maria Eugênia, com quem casaria no ano seguinte. As cartas foram trocadas enquanto eram noivos e moravam em São Luís, vendo-se uma vez por semana, o que era, para Araújo, distância física e temporal insuportáveis! Viveram felizes para sempre e até hoje dona Maria Eugênia mareja os olhos ao lembrar do marido, pai do poeta Celso Borges, meu amigo, que me confiou as cartas.
Em 1977, a jovem Assunção Silva namorava Rogério Portela à distância; ela uma moça pobre, filha de um sanfoneiro e uma costureira do interior do Maranhão, ele um rapaz afeito às calças bocas de sino da classe média, então internado no Rio para tratamento de uma doença que lhe custou o movimento o parcial das pernas. As cartas iam e vinham para diversos endereços da moça sem CEP fixo, para destinatários terceiros em quem depositava confiança. O mundo é menos formal e o tom solene dos conjuntos anteriores é substituído por referências a telenovelas, Roberto Carlos e uma noite misteriosa. Os dois têm três filhas, três netas e são felizes desde que me entendo por gente. São meus tios.Nos três casos a definição da sociedade aparece tardia e esparsamente, mas é uma lembrança constante, principalmente quando associada à memória do encontro, atração e da declaração. Isso acontece porque as cartas são parte de um processo em andamento, o romance já está rolando quando elas começam: “sei perfeitamente que isso tudo é um sonho, que vou acordar, que ainda estaremos em princípio de dezembro, que tu não tens existência real. Esta carta nunca te chegará às mãos, porque não tens mãos, és uma criatura imaginária”, escreveu Graciliano, “Estou me lembrando neste momento do pôr do sol de ontem! Há muito tempo que não o víamos juntos. Por que será que esta hora é sempre melancólica? Não sabe? Seguindo a ordem natural das coisas e olhando-as psicologicamente, o desaparecimento das coisas belas é sempre triste, bem como a das coisas feias é alegre. Por exemplo: quando eu a deixo, fico triste; quando me liberto de qualquer coisa que não gosto, fico contente. Será esta a razão melancólica do ocaso? Creio que sim”, disse Araújo. O mundo antes do descobrir-se apaixonado era opaco, “it’s all do quiet”, sussurraria a Björk.
“Acho que você me conhece muito bem, por prova, dia 30, estamos de aniversário (são 4 anos de conhecimento) continuo sentindo mais amor. (…) o mundo nos trouxe muita beleza, mas o importante mesmo é você, Rogério, você que me ensinou a descobrir o amor, o desejo e a certeza de quando se quer”. Tia Assunção escreve no limiar da barreira, talvez porque entre os três ela as tinha mais: era pobre, o amado estava longe, doente, não tinham compromisso firmado e havia fofocas e outras pretendentes. O discurso dela é que se deve lutar “como se fosse isto uma guerra em defesa de um país”.
Mário Araújo tem barreiras no seu próprio cotidiano de noivo e ocupado trabalhador, mas seu mundo é mais plácido, trata-se de um noivo cultivando com a noiva o amor no qual crê, o que não o salva do drama imaginário. Quando Geninha deixa de lhe responder uma carta por três dias ele não se aguenta: “Se por desgraça minha você encontrou alguém que ame mais do que a mim, continue amando, pois eu, longe de maldizer ou amaldiçoar, serei o primeiro a elogiar a sua coragem e a louvar a sua atitude! Mas peço-lhe por amor a Santa Teresinha do Menino Jesus, de quem você é tão devota, que me escreva uma carta – uma só, ou ao menos uma palavra ou sinal, que me tire deste suplício que de hora em hora me definha as energias que há bem pouco tempo cria serem inesgotáveis!!” Os conflitos criados pelo silêncio da interlocutora chegam perto do momento da morte ritual, quando um dos amantes bota tudo a perder
Graciliano Ramos tinha na barreira, além da distância, o desprezo de Heloísa; “chegaram-me as duas linhas e meia que me escreveste”, ataca logo na primeira carta, porque não estava mesmo de brincadeira. Nele também encontro duas inflexões comuns às cartas, que defendo aqui como específicas, a auto sabotagem e o queixume.
Diz ele que “sou ingrato e injusto, grosseiro e insensível à dor alheia, um acervo de ruindades, poderia também acrescentar que sou estúpido, mas isso é virtude”; já Mário Araújo escancarou: “Por que não dizer que tenho ciúme de tudo que te cerca? Do pão que come e da água que bebe; do chão que pisas e da roupa que vestes, tenho ciúmes; até do espelho que usas eu tenho ciúmes”.
O queixume está disperso em todos os conjuntos, geralmente por conta de alguma desatenção, qualquer uma, sempre a gota d´água.
Só que é mentira, o navio volta a fazer água, mas os três que estudei não afundaram enquanto houve vida pra compartilhar. Ambos partiram de um projeto comum, recortando 50 anos do século XX, como bem expressou dona Assunção: “À noite meus pensamentos são muito mais fortes, primeiro fico imaginando coisas: por exemplo, você já estivesse bom, nós casando, depois nossa casinha, aí vem nosso amor todo dia e toda hora, uma curtição bacana, sem sussurro de ninguém, para nos trazer tanto medo na responsabilidade de fazer tudo às pressas”. Três casais envoltos num projeto de amor romântico normativo monogâmico, que tiveram em comum, além disso, a distância, que motivou as cartinhas, melosas como uma trama de Grande Hotel. Três casais que interromperam a correspondência porque no dia de mandar a próxima carta estavam em lua de mel. Três casais que coloco, com algum cinismo, numa mesma fórmula, porque afinal, cartinhas de amor se parecem porque não existe outro amor.

Bruno Azevêdo (São Luiz, Maranhão). É escritor e editor da Pitomba! livros e discos. Seu livro mais recente é Gabriela, que, aliás, é uma carta de amor.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.