Desde ontem, o caminho assombrado pela voz da poeta Wislawa Szymborska. Novas guerras mundiais, ao leste do leste. Ventos firmes, os gemidos de amantes antigos, homens e mulheres em registro de desamor.

Acordar antes de morrer. Sonhar e ser capaz de despertar antes da própria morte. Reparar no quarto vazio e adotar as paredes como quadros para o amparo da imaginação, desenhar nelas com liberdade, revolucionar com as mãos, as mãos estão sempre dispostas a uma revolução, o cérebro nem tanto.

Adolescentes reminiscentes. Cavar buracos nas (cav)idades do coração como quem cavou buracos na areia da praia (eu quando cavava a areia da praia acreditava que encontraria o outro lado do mundo e uma humanidade em miniatura e um pinguim), buscar sob os grãos o que restou, eram corpos não emancipados, eram paixões sem cicatriz, o rosto envelhece às tantas horas do dia, sobram os olhos. Reconhecer alguém apenas pelos olhos quando a fisionomia dissipou o tempo; não há nada a fazer quanto ao tempo derramado, exclamação; e um punhado de dores e uns recortes de alegria. Cirúrgia plástica para firmar a pele e o medo, de envelhecer.

A população mundial fardada em soldados da era anti-romântica e de beleza estética. Reparar no relógio de pulso, a máquina que não pulsa ou flui, o mecanismo da repulsa ao outro; os ponteiros não estacionam em horários românticos. Batimentos fugazes, ser ínsone em fuso horário no próprio país, na própria cidade, no próprio bairro, na própria cama.

A violência nada gentil dos beijos negados e aqui discordar de Coleridge, em tempos outros, ainda enxergava gentileza em um beijo negado e uma rosa desabrochando entre os lábios da amada. Sem a elegância da rosa, o peso de um beijo mal dado equivale ao de um objeto quebrado.

Os vendedores de livros ambulantes acenam, eles também soldados do exército anti-romântico em manobras laterais. Vendem dois por um quando se existe um a um. Dispostos sobre as mesas, livros risíveis, livros de autores invisíveis, livros sem caligrafia riem-se dos não-leitores, ninguém estende a mão revolucionária ao vendedor. De onde tirou aquela biblioteca de farsante, seria do lixo. Os livros dentre os dejetos da cidade.

A marcha para o desencanto pertence aos batalhões. Os corpos se movimentam sobre a ondulação das ruas, os mendigos apresentam um frêmito esquisito nas mãos. Todo o mendigo tem mãos que tremem, mãos vermelhas e inchadas, as unhas negras. O último mendigo visto na face da terra entope as narinas de papel para não sangrar. Ele é de sangue e a ponto de explodir.

Os mendigos que vagam entre nós: amaram e foram amados, os seus corpos foram acariciados, assim mortificaram. Ou foi a recusa de um beijo que os levou a indigência, em qual caso um rastro de romance na alma obsoleta. Quantas células de amores e paixões perseveram no corpo envelhecido, retidas certamente no olhar, o poder do olhar de reter amor.

Os livreiros ambulantes estão a um passo da indigência: basta permanecerem na rua e não voltarem para casa. A cidade enriquece, as torres de vidro se erguem, as fortunas sobre o escambo dos livros, livros folheados, saturados, rasgados, multiplicados, e das traças quem fala.

Descobrir que sobre as mesas de livros ambulantes, não há um romance sequer. Edições esgotadas. Os versos foram incinerados para que os soldados da era anti-romântica coloquem o dedo no gatilho de armas outras. O romance como arma: a gentil violência do beijo de Coleridge, quem declararia ter sentido o gosto de seus lábios. Novo cálculo: quantos beijos estes lábios de Coleridge calaram e o número de rosas que viu desabrochar, com elegância.

Guarda-pó-guarda livros-guarda-roupas-guarda-amores. Resistir criando no coração um depositório; guardar pessoas no coração sem deixar escapulirem; aceitar ausências mas insistir em guardá-las no coração; a couraça do coração é o órgão que requer mais tempo no processo crematório mas, por enquanto, a morte em visita noturna, abandona o corpo ao despertar.

Kátia Bandeira de Mello-Gerlach (Rio de Janeiro, Brasil, 1980). Natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Corpo docente da Universidad Desconocida do Brooklyn sob a reitoria de Enrique Villa-Matas.  Publica no Jornal Rascunho. É curadora e membro do Conselho editorial permanente da Philos.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.