Estão batendo na porta. Não abro. Insistem. Mal respiro não me mexo. Ouço passos se afastando, mas sei que vão: voltar. Está escuro. Abafado, cheiro de rato. Deve ter sido uma garagem isso aqui, uma dispensa, tem um monte de tralha espalhada, sucata, me arranhei num pedaço de metal que saía de da parede, dum armário ou estante, não sei. Agachada no fundo desse espaço não ouso me mover nem tento sair, sei que um ficou tomando conta em frente da porta. O silêncio é tão: grande tão: pesado que ouço o vigia puxando no cigarro, depois soprando a fumaça a mão enrolando a manga da camisa tirando: o suor do rosto. Quase ouço a fumaça. Se ele joga a guimba no chão estou: fodida, há restos de papel e lascas de madeira no chão, o fogo lambe. Não há janelas.
Os passos voltando uma chave enfiada na fechadura. Bato os dentes, suo frio. A chave não serve ouço xingamentos sussurros. Eles também se escondem. Caçadores são caças vistos de fora, de longe. Haverá vizinhos? A possibilidade de gritos? Minha voz cheia de poeira a boca aguda é um fio.
Não entra, a chave. Eles discutem, quase brigam, alguém: bate o pé com força no assoalho.
Depois: passos se a
fas
tando
de novo.
O coração bate com tanta força chega a doer meu peito. Uma câimbra na perna direita estico o joelho. Devagar. A outra perna também. Espero. Depois estendo outra vez apoio os pés me acocoro. Levanto em câmera lenta o peito martelando será que explode? Ouço um farfalhar difuso e um líquido quente escorre pelas minhas pernas o cheiro é: ácido. Estarreço agora sou de: pedra. Entronada no pedestal do pescoço a cabeça dói, mal se mexe, os olhos abertos tesouras tentam tentam cortar o breu, mas: não conseguem. Do outro lado da porta um flash de luz um isqueiro? Uma lanterna? Fecho os olhos e: rezo. Ave Maria cheia de, quando criança também rezava, medo do fantasma de algum morto embaixo da cama. Meu pai dizia que tinha. Graça, o senhor é convosco, criança malcriada um morto vem: puxar o pé vem: azucrinar vem: levar junto? E a criança que eu era mijava na cama se encolhia toda e, molhada, ficava em posição: fetal. Aí me acostumei ao medo ao cheiro até gostei parei de: me comportar. Os mortos viraram: amigos imaginários. Conversávamos madrugada adentro. Durante o dia a menina sonhava na companhia dos seus assombros. Na escola a coleguinha de carteira um dia levanta o dedo: quero trocar de lugar ela fala sozinha. Não falo sozinha converso com: os mortos. A colega saiu correndo, é varrida, a professora olhou arqueada.

Eles vieram no começo da noite eu estava: sozinha. Pela janela a lembrança de um sol vermelho ainda riscava o céu já escuro. Fui avisada em cima da hora: estão chegando, foge. O informante no celular, a ligação cortada e ouvi os cavalos. Pocotó pocotó upa cavalinho o pai me botava sobre os joelhos. Era tão bom o colo no fim da tarde apesar da brincadeira com os mortos debaixo da cama. Pocotó eu corria quando ele chegava do trabalho esquecia a coleguinha, a escola. Depois o pai levantava e comigo nos braços ligava o som, fazia uma dancinha engraçada, era pagode ou bolero. A música mudava, a dança continuava a mesma. Minhas pernas balançando no ar, lá-e-cá, cá-e-lá. A mãe na cozinha a comida tá pronta. E depois do jantar tinha jogo de buraco o pai sempre ganhava eu não chorava apesar da raiva. Porque se chorar não jogo mais com você, ele dizia. A pessoa tem que: saber perder. Agora os cavalos lá fora eu sei pode ser meu: último jogo a: derradeira derrota. Não choro.
Voltam
as
vozes
e perdendo a baixura se erguem desarvoradas do outro lado. Os passos agora dão volta na garagem dispensa quartinho. Procuram outra entrada, não tem, que burros, senão eu já tinha saído. O telefonema com o contato foi interrompido, pegaram ele, tenho certeza. Devem ter encaçapado todo mundo. Algum infiltrado passou as coordenadas. Eu sabia. Imagino até quem seja sempre desconfiei dela. Namoro aqui vai dar: merda, eu bem que avisei. Depois que acabou ela no bagaço: sumiu levando todos os nomes e endereços.

A luz da lanterna por debaixo da porta se apaga.

Estalos de pés mastigando os galhos no chão lá de fora. Contornam a casa. O vigia à procura dos outros. É a minha chance, penso e me esgueiro em direção à porta. Meu medo é uma perna molhada tremendo um joelho que cede. Quase não saio do lugar. Pocotó pocotó ouço corcéis e não sei se são outros chegando ou se eles seguindo. Me aproximo da porta que sem a luz pela fresta quase não vejo: intuo. Como na primeira noite em que saí da posição fetal e peitei os meus mortos. Ninguém puxou a perna. Eu me levantei e nas pontas dos pés fui até a varanda, tinha ouvido um: estrebucho. Pela brecha da porta vejo o pai montando a mãe. Sentindo a minha presença ele vira a cabeça, até hoje não sei se me viu. Estava escuro. Está escuro. Sinto um sopro um bater de asas um bicho esvoaça e se prende no meu cabelo. A criança não consegue reprimir um grito bate na boca.
Pego o inseto sem vê-lo, a mão certeira agarra espreme esmaga.
Pingos
de gosma
entranhas
lágrimas
escorrem
pelos
meus dedos.

Respiro a boca aberta e uma gota é puxada com o ar quase engasgo. Estou empapada tem líquido saindo por todos os meus buracos. Chego perto do que penso ser a porta estico o braço e toco algo que se retrai. Escuto um roçar de tecido do outro lado, ouço a maçaneta sendo puxada, meu corpo imóvel, meu corpo mole e duro ao mesmo tempo, levo a mão à boca a gosma o inseto. Começam a forçar a porta, batem com algum instrumento: pesado, um martelo? Batem. Batem. Batem. Batem. Ba-

A porta
se
abre.

Atrás da silhueta dos homens vejo um céu incrustado de estrelas. Na noite em que flagrei meu pai em cima da minha mãe ele me mostrou pela primeira vez a Via Láctea e me disse que ela é muito maior do que a sua parcela observável. Informou ainda que essa parte que não vemos é denominada matéria escura. Cuja natureza se desconhece.


Carla Bessa (Niterói, Rio de Janeiro, 1967). Tradutora literária e escritora. Tem um livro publicado em 2017 pela editora Oito e meio e textos em antologias, jornais literários e revistas na web. Vive entre Rio e Berlim.